Realidade e terror: “Womaneater” foi selecionado para a 7ª edição do Festival Boca do Inferno

Publicação: 2020-10-31 00:00:00
Tádzio França
Repórter

O terror de uma relação abusiva é real. E na ficção, é capaz de ganhar territórios ainda mais obscuros e sobrenaturais. É o que está por trás de “Womaneater”, filme potiguar selecionado para a 7ª edição do Festival Boca do Inferno, evento de um dos maiores sites de cinema de horror, ficção científica e fantasia do Brasil, sediado em São Paulo. Este ano o festival será online, de 15 a 30 de novembro. O curta-metragem dirigido e roteirizado por Paula Pardillos foi filmado em Natal, e mostra a força de um segmento audiovisual ainda pouco explorado na cidade.    

Créditos: DivulgaçãoPaula Pardillos e Sihan Felix filmam na noite de NatalPaula Pardillos e Sihan Felix filmam na noite de Natal

“Womaneater” conta em 20 minutos a história de Elisa (a atriz Larissa Brujin), uma mulher comum que está tentando se recuperar dos traumas de uma relação abusiva. Ela se sente diminuída diante do mundo em que vive, mas não fala abertamente sobre o assunto. Uma sensação ruim que ameaça sair das sombras e devorá-la – literalmente. Enquanto tenta se livrar de sua “assombração” particular, Elisa circula por alguns cenários reais de Natal, como o bar El Rock, em Candelária, e o espaço Surto Cultural, em Ponta Negra.

O título do filme é um trocadilho com “meneater”, que subverte o termo “devorador de homens/pessoas” e o põe como uma crítica ao machismo. “O neologismo quer evidenciar a questão antipatriarcal da obra”, resume Paula Pardillos. A própria idéia da trama surgiu de uma experiência pessoal da diretora. “Eu passei por algumas relações em que a desigualdade de poder era grande em favor dos homens. Uma situação pessoal me fez pensar sobre como as lembranças, os traumas, de alguma forma perseguem as mulheres mesmo após o término da relação abusiva”, diz.  

Além de exorcizar seus demônios pessoais no filme (incluindo seu transtorno de ansiedade, que tem desde criança), Paula afirma que também é uma apreciadora de cinema e literatura de terror. Esse cruzamento de referências fez “Womaneater”. No entanto, o curta está longe de ser uma produção cheia de sangue e sustos gratuitos. Segundo ela, o único “efeito especial” surgiu, na verdade, de uma característica poética do monstro; não foi pensado com a intenção de surpreender ou enojar.  

O cineasta e crítico Sihan Félix, responsável pela produção e montagem do filme, vê “Womaneater” como uma produção ousada, pelo fato de o chamado ‘cinema de gênero’ (aquele distante do realismo cotidiano) ainda sofrer preconceito nas esferas “sérias” da 7ª arte no Brasil. “Acredito que o cinema de gênero é subestimado para muito além da produção nacional. Assim como a comédia, que é subjugada desde a Grécia Antiga, qualquer obra que parta de princípios que não sejam ligados com a realidade de maneira mais direta, como o drama, tende a ser inferiorizada”, diz.

Sihan ressalta que há uma “onda” atual de respeitabilidade ao cinema de terror, sobretudo no Brasil, que registra nos últimos anos uma leva de boas produções chegando ao mercado e recebendo elogios de crítica e público. Ele cita referências atuais como Rodrigo Aragão, Gabriela Amaral Almeida, Juliana Rojas, Marco Dutra, entre outros. Ele acredita que uma certa identificação com a realidade pode fazer com que um filme de terror enfrente menos dificuldades para ser reconhecido.

A seleção para o festival Boca do Inferno foi recebida com satisfação por Paula e Sihan. O casal havia finalizado o filme apenas dois meses antes do anúncio, e tinham começado a maratona habitual de inscrições em festivais. “A gente nunca sabe exatamente como o filme vai chegar às outras pessoas, então ficamos sempre nessa ansiedade de uma primeira seleção, para entendermos se o filme tem potencial para cativar de algum modo”, diz o produtor. O filme também foi selecionado para Festival P.O.E. de Cinema Fantástico, em São Paulo.

Sihan acredita que “Womaneater” cativou as curadorias dos festivais pela forma pessoal e intensa com a qual Paula Pardillos lida com a temática do filme.

“Ela transformou o inferno de uma relação abusiva em uma metáfora dentro do gênero terror, o que pode ter chamado a atenção. Essa relação da arte com a vida e da vida com a arte é sempre poderosa”, explica. E claro, ele credita também a competência da equipe inteira, do roteiro à finalização. O filme é a primeira obra da recém criada Maruim Filmes.

A estréia de Paula Pardillos no audiovisual foi “São Flores - Ocupação 8 de Março”, de 2017, sobre o trabalho das mulheres do MLB no Planalto, que está disponível no Youtube. Desde então ela já realizou e contribuiu com algumas obras. O filme “Distorção” (2019), que ela roteirizou, dirigiu e montou com Davi Revoredo, a partir de uma ideia original dele, também é um suspense e já passou por 12 festivais e mostras, tendo obtido três prêmios. No momento ela está trabalhando em alguns outros filmes de ficção e documentários. “Womaneater” foi realizado a partir do edital de Fomento à Cultura Potiguar 2019, promovido pela Fundação José Augusto e governo do Estado.