Receita da Arena das Dunas pode cair em até 80%

Publicação: 2020-06-21 00:00:00
Os estádios brasileiros estão em um cenário ainda mais desolador durante a pandemia do novo coronavírus. O problema mundial tirou as duas principais fontes de renda desses locais: os jogos de futebol e os grandes shows. Agora, os gestores desses locais admitem a busca por novas opções e até a repensarem o antigo modelo de negócios. A Arena das Dunas, em Natal, também enfrenta essa dificuldade e estima uma perda de 80% na receita, o que representaria cerca de R$ 67 milhões a menos nos cofres, tomando como base o lucro divulgado em 2019, de cerca de R$ 84 milhões.

Créditos: Adriano AbreuA frustração de receita pode chegar a R$ 67 milhões, mas ainda há a expectativa de melhora, caso mude a questão do isolamentoA frustração de receita pode chegar a R$ 67 milhões, mas ainda há a expectativa de melhora, caso mude a questão do isolamento

Um estudo da consultoria BDO prevê que os estádios dos 20 times que disputaram a Série A em 2019 tenham com a pandemia uma perda de receita bruta estimada em R$ 79 milhões. Atualmente alguns locais famosos do futebol brasileiro trocaram de função e passaram a obrigar hospitais de campanha, casos do Pacaembu e do Maracanã, por exemplo.

As arenas multiuso brasileiras construídas nos últimos anos e voltadas principalmente à expansão desse tipo de negócio gerada pelas obras da Copa de 2014 têm sofrido com a longa quarentena. "Se para um lado o clube de futebol consegue retomar o calendário e ter algumas receitas seja por transmissão ou por patrocínio, uma arena não consegue faturar porque depende principalmente de jogos ou shows", explicou Carlos Aragaki, coordenador da Câmara de Contadores do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) e especialista em assuntos de finanças do futebol.

Na opinião dele, as arenas precisem pensar em novas formas de faturar e até se preparar para uma retomada lenda do setor. "Não significa que ao fim da pandemia, o torcedor vai voltar de forma instantânea. É possível que sem uma vacina para o coronavírus, o público continue a evitar aglomerações e não volte ao estádio, show, cinema, teatro e outras opções", explicou.

Segundo Ítalo Mitre, diretor-presidente da Arena das Dunas, o ano será difícil para todos. “Será um ano de pouca atividade nas arenas. Nós mantemos um programa de exploração de áreas comerciais que ainda está em atividade, porém com grande limitação devido às restrições de distanciamento social. Estamos estimando uma frustração de receita ao redor de 80% para o primeiro semestre de 2020, caso as restrições sejam ajustadas no segundo semestre, temos expectativa de reduzir esse déficit. Parte dos eventos programados para o primeiro semestre foram adiados para o segundo semestre, então dependerá muito de como o mercado irá reagir em termos de atratividade para os grandes eventos”, explicou.

A arena brasileira que mais recebe shows, o Allianz Parque, encontrou como alternativa o cinema drive-in. No fim deste mês o estádio do Palmeiras abrirá o campo para receber 300 carros. De dentro de cada veículo, as pessoas verão um filme. "A gente nunca se preocupou com aglomeração, mas agora temos de pensar nisso. Vamos criar um jeito para o público ter uma excelente experiência, mas de dentro dos seus carros", disse o diretor de marketing e inovação do estádio, Márcio Flores. Fora o drive-in, o Allianz Parque busca renegociar os contratos de 96 clientes donos dos 160 camarotes. O objetivo é ter novos acordos seja para extensão contratual ou desconto de taxas para não perder os parceiros.

A Arena Fonte Nova também passa por uma fase complicada e se dedica em atrair eventos para compensar as perdas de 2020. "A gente vem trabalhando fortemente na captação de grandes eventos que devem acontecer em 2022 e 2023 no Brasil", afirmou o presidente da Fonte Nova, Dênio Cidreira. A administração da Arena Castelão, em Fortaleza, admite que no momento tem buscado cortar custos e já a Arena das Dunas, em Natal, estima que a paralisação dos eventos provocou queda de 80% na receita deste primeiro semestre.

Na Arena das Dunas, o diretor-presidente afirma que o protocolo de acesso ao local foi incrementado com mais medidas de segurança. “Estamos acompanhando as discussões das entidades de vigilância sanitária e atualizando as medidas sanitizadoras disponíveis no mercado para agregar maior segurança aos nossos usuários. Já estamos promovendo o incremento nos protocolos de acesso à Arena com checagem de temperatura e distribuição de álcool em gel para uso dos visitantes, em complemento à tradicional água e sabão já presente nos conjuntos sanitários que equipam a Arena das Dunas. Além disso, nosso time de operações tem se dedicado em dobro para adotar práticas que reduzam as áreas de contato entre os visitantes e futuramente o público, combinado com uma atenção especial do time de limpeza”, explica.

Miltre já havia se pronunciado para a Tribuna do Norte em relação a possível volta do futebol. “"Estamos acompanhando a discussão do eventual retorno gradual das atividades, para que estejamos preparados no momento que isso ocorra. Em verdade, os protocolos adequados para cada atividade ainda estão em discussão e não se sabe ainda qual é o ideal para uma possível volta. O natural é que os primeiros jogos voltem a acontecer sem a presença de público para paulatinamente ser admitida a presença de público, primando pelo distanciamento social. Nosso time está estudando os cenários possíveis, reavaliando as capacidades dos nossos setores, para que possamos contribuir com as autoridades responsáveis nessa etapa de planejamento", disse.

"A maioria das arenas, por serem recentes, estavam praticamente no primeiro ciclo de implementação de modelo de negócio, e como acompanhamos, com raros exemplos de sucesso como o Mineirão e o Allianz Parque, no que diz respeito a calendário de conteúdo, experiência e finanças", afirmou o fundador e diretor de criação da Lmid, Gustavo Herbetta.

Os clubes também amargam prejuízos

Entre negociações para reduzir salário, busca por linhas de crédito oferecidas pela CBF e renegociação de dívidas, os clubes brasileiros pouco a pouco já começam a se precaver para um dos maiores impactos financeiros da história. Segundo um estudo da consultoria Ernst & Young obtido pelo Estadão, a paralisação do calendário causada pela pandemia do novo coronavírus deve fazer com que os clubes nacionais tenham uma retração de quase R$ 2 bilhões em comparação a 2019 e voltem ao patamar financeiro similar ao encontrado há quatro anos.

A provável disputa de jogos com os portões fechados até o fim do ano é a maior responsável pelo grave impacto. O trabalho realizado pela empresa tenta medir o impacto financeiro no futebol brasileiro dentro de dois cenários. No mais otimista, a retração seria de R$ 1,34 bilhão enquanto que na pior estimativa, a cifra seria de quase R$ 2 bilhões, mais precisamente R$ 1,92 bilhão.

Os responsáveis pelo estudo ressaltam que toda uma cadeia de receitas ligadas ao futebol sofrerá duros golpes. O fato de as partidas não terem público, deve impactar não só na bilheteria, como também na diminuição de 40% do quadro dos participantes nos programas de sócio torcedor. Há também uma previsão da queda de recursos até vindos do pay-per-view, pois há uma estimativa de que a crise econômica leve até a 40% dos assinantes a cancelarem os pacotes.

"Poucos clubes vão ter condições financeiras de se apresentar de forma digna. Vários vão ter problemas sérios. Na prática a pandemia não mudou nada, mas apenas acelerou processos. Quem já estava mal, piorou mais rápido", disse um dos responsáveis pelo estudo, Alexandre Rangel. "As transferências de jogadores vão ter um desvalorização também. Quem apostou que venderia jogadores no meio do ano, ficou em situação difícil", avaliou.

Desde a parada do calendário, em março, os clubes brasileiros começaram a se movimentar para diminuírem os prejuízos. O panorama se torna preocupante porque não há mesmo previsões do recebimento de grandes receitas neste ano, principalmente as verbas oriundas de premiações. A CBF costuma distribuir aos campeões da Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro mais de R$ 100 milhões. No entanto, como essas competições devem se prolongar até o início de 2021, os clubes terão de fechar a temporada sem esses recursos para bancar despesas pesadas, como o 13º salário.

De acordo com um levantamento da própria Ernst & Young, o futebol é responsável no Brasil por 155 mil empregos. Muitos desses postos, aliás, se encontram ameaçados pelos impactos da crise.

Números

2 bilhões de reais em retração financeira, em relação a 2019, é a expectativa para os clubes.

40 porcento dos assinantes de pacotes de jogos de futebol (pay per view) devem cancelar.

100 milhões são distribuídos pela CBF em prêmios e isto pode ficar para 2021, prejudicando as contas atuais.