Receita para aproveitar o pós-crise

Publicação: 2010-09-22 00:00:00
Vinícius Albuquerque e Renata Moura - Editor e repórter de economia

O Fórum Internacional de Gestão, Estratégia e Inovação foi realizado ontem em Natal, difundindo para uma plateia de mais de 2 mil empresários e profissionais da área executiva do Brasil lições sobre como fazer os negócios prosperarem, num momento em que a economia está robusta e em que os consumidores estão ávidos por produtos e serviços com cada vez mais qualidade. Foi uma grande aula em que a missão de ensinar ficou a cargo de palestrantes de peso como o empresário Carlos Alberto Júlio, a diretora de Criação do Cirque du Soleil, Lyn Heward, o ex-presidente da Embraer e ex-ministro da Infraestrutura Ozires Silva, e, ainda, o coach norte-americano, referência na área de treinamento de líderes e executivos, Rhandy Di Stéfano. Entre os “segredos” que propagaram, as capacidades de planejar, de traçar estratégias para os negócios, de criar um ambiente favorável à criatividade, de inovação e de investir no desenvolvimento e na capacitação do ser humano, da equipe, foram destaques e citados como ferramentas que devem estar no DNA de qualquer organização.

Mais de duas mil pessoas lotaram o Centro de Convenções de Natal para ouvir palestras sobre gestão e o momento atual da economiaPara dar tais recados, os palestrantes contaram com recursos como slides, filmes e até apresentações artísticas filmadas do Cirque du Soleil. Também não faltaram exemplos práticos sobre o que pode fazer um negócio dar certo ou errado.

Carlos Alberto Júlio, o primeiro palestrante, começou lançando uma dúvida à plateia. Mostrou um trecho do filme Limite Vertical, em que uma família de alpinistas está prestes a despencar e precisa decidir se corta a corda para que um deles caia, na tentativa de suavizar o peso e garantir a sobrevivência dos outros. “Decisões podem determinar o sucesso ou a morte dos negócios”, disse Júlio.

Lyn Heward, do Cirque du Soleil, falou sobre o binômio risco e criatividade. Como inovar se temos aversão aos riscos?, foi uma das mensagens dela. A executiva falou também sobre a importância do recrutamento de pessoal, de fazer dessa ferramenta um processo contínuo de descoberta de talentos.

Ozires Silva focou principalmente na educação e mostrou como investimentos nessa área podem ajudar a desenvolver o Brasil e as empresas. “É preciso ter recursos humanos qualificados”, disse, frisando que 70% da população brasileira é analfabeta funcional, incapaz de entender o que lê.

Rhandy Di Stéfano, o último palestrante, explicou o conceito, as qualidades esperadas e o novo papel do líder, o profissional, segundo ele, capaz de desenvolver equipes de alta performance.

O Fórum foi promovido pela Carlos Júlio Seminários e o K&M Group. Teve como coordenadores os empresários Carlos Alberto Júlio e Kelermane Martins, presidente do K&M. O evento contou com o patrocínio das empresas Diagonal, Rossi e Banco do Nordeste e o apoio da Tribuna do Norte, da gráfica Santa Marta, da Aerotur, da Castelo Casado Iluminações e da MSOM equipamentos para eventos.

A criatividade no Cirque du Soleil

O Cirque du Soleil encanta espectadores do mundo inteiro com belos espetáculos que misturam acrobacia, música, dança e contorcionismo. Porém, pouco se sabe que – por trás dos grandes espetáculos organizados pelos mais de 5 mil funcionários – do Cirque há muito mais do que simplesmente arte. Os valores pessoais, a capacidade de trabalhar em equipe e a vontade de superar obstáculos são os temas que movimentam cada apresentação do circo. Foram estes pontos abordados pela diretora de criação do Cirque du Soleil, Lyn Heward, na manhã de ontem no Centro de Convenções de Natal, durante o Fórum Internacional de Gestão.

“É difícil ser alguém no isolamento. Na verdade, a palavra-chave está no trabalho em equipe. Pegamos a força de uma pessoa, de outra, e assim formamos o que se chama de criatividade coletiva”.

Além do trabalho em grupo, Lyn destaca que os obstáculos devem ser encarados não como simples dificuldades, e sim catalizadores da criatividade. “É preciso correr e assumir riscos”. Ela lembra que  as limitações são normais em qualquer processo, mas mesmo assim é preciso encará-las de cabeça erguida.

É preciso estratégia para alcançar sonhos

Como pensar em algo diferente, se você faz tudo sempre igual? Foi esse o questionamento que o palestrante Carlos Julio, presidente da Carlos Julio Seminários, lançou ontem à plateia do Fórum Internacional de Gestão, Estratégia e Inovação. Sob o tema “A arte da estratégia”, Julio enfocou a importância de ter um plano para alcançar os objetivos tanto na vida pessoal quanto das empresas.

Segundo ele, que foi considerado o melhor palestrante do Brasil em uma avaliação da Revista Veja, o maior erro das empresas é agir por impulso. “Antes de fazer, é preciso decidir onde se quer chegar. A empresa que perde 100% do seu tempo somente fazendo, sem planejar, quebra”. Para isso, há um caminho a ser seguido que começa do sonho, da vontade de alcançar um objetivo.

Um dos erros mais comuns dos executivos é pensar que o foco de suas ações deve estar nos resultados. “Ora, o resultado não importa, porque ele é incerto. É do processo que surge o aprendizado. É preciso ter foco no resultado através do processo que você desenvolve para chegar lá”, alerta.

No trabalho para chegar a um objetivo, Carlos Júlio lembra a importância da equipe. Escolher as pessoas certas e saber como aproveitar bem seus talentos ajuda a crescer. “A pessoa certa no lugar errado é um talento jogado fora”.

Liderança é questão de comportamento

Com um português de brasileiro, o coach norte-americano Rhandy Di Stéfano encerrou o dia de debates no Fórum Internacional de Gestão falando sobre liderança. E começou esclarecendo: “Liderança é uma questão comportamental. Quais comportamentos eu preciso praticar para ser um bom líder e criar equipes de alta performance?”.

Di Stéfano aponta alguns erros comuns. O primeiro é confundir o papel do líder como alguém autoritário, que está sempre atolado de tarefas e que sabe de todas as respostas. “Um verdadeiro líder sabe se comunicar bem e ser entendido por sua equipe e ensina as pessoas a pensarem”, pontua.

O segundo equívoco é achar que todo bom técnico será um bom gestor. “Se ele não sabe lidar com pessoas, nunca será um bom líder”, exemplifica. Além disso, bons resultados também não significam que o funcionário está pronto para liderar. “Bons resultados só significam que ele consegue fazer o que é preciso. Ser líder vai além”.

Mudando sua visão de trabalho, os gestores podem evitar problemas dentro da empresa e na própria vida pessoal. “Hoje os gestores que trabalham mais horas que todos os funcionários, estão sob estresse constante e não conseguem administrar o tempo”.

Bate-papo

Ozires Silva »  EX-MINISTRO DA INFRAESTRUTURA E EX-PRESIDENTE DA EMBRAER

Como se busca a excelência? Qual é a receita para se alcançar isso?

Fé, entusiasmo e paixão. Tem que se apaixonar pelo que faz. Esses são os ingredientes fundamentais. E a partir desse momento é procurar mobilizar todas as forças que possam ajudar na direção do nosso projeto para torná-lo realidade.

O senhor falou muito sobre educação. Entre outras coisas, disse que o desenvolvimento do Brasil passa pela melhoria dos resultados nessa área. Por que isso?

Sem dúvida. Veja esse gravador que está na sua mão. Certamente foi inventado por uma pessoa inteligente. Os gravadores do passado eram enormes. Mas pessoas descobriram formas de fazer melhor. Efetivamente essas pessoas passaram por escolas, aprenderam, dominaram as ciências básicas fundamentais para isso.

Como as falhas na educação têm atrapalhado o desenvolvimento do Brasil?

Isso é claro. O carro do ano hoje no Brasil é Hyundai, um carro com tecnologia coreana. Nós não temos carro brasileiro. Os carros brasileiros são fabricados sob licença estrangeira. Não temos uma marca nacional de carros. Os coreanos têm e estão vendendo muito bem, inclusive nos Estados Unidos, que são os maiores fabricantes de automóveis do mundo.

Essas falhas na educação tem impedido o desenvolvimento de produtos com DNA nacional, mas além desse quesito?

Como eu falei na palestra, o mundo hoje é global. Você não pode mais viver dentro das fronteiras brasileiras. Porque a concorrência não está mais dentro das fronteiras brasileiras. Na hora em que um produto chinês pode ser comprado em Natal esse produto invadiu a nossa fronteira e está sendo comparado com os produtos que nós fabricamos. Nós temos que competir lá fora. E competir lá fora significa que temos que brigar com a competência que tem lá fora. O projeto educacional coreano mereceu do jornal Financial Times, de Londres, uma manchete do seguinte tipo: Coreia, fanatismo pela educação. E esse fanatismo permite essa vitória da Coreia no mundo.

O que está faltando ao Brasil para também ter esse fanatismo pela educação?

Não está convencido de que a educação tem a capacidade de transformar o país em um país mais rico e mais feliz do que o que temos hoje.

O senhor comentou que, se houver um crescimento de 4% ao ano no país, um apagão de talentos poderá ser inevitável. Essa possibilidade tem sido tema de discussões recorrente no país há pelo menos dois anos. Por que essa preocupação é tão recente?

Eu não saberia responder porque só agora se pensou nisso. Porque eu sempre pensei nisso. Quando comecei a fabricar avião percebi de cara que não poderia fabricar com as pessoas que eu tinha normalmente formadas pelo Senai, pelo Sesi ou pelas escolas técnicas. Então investi um bocado na formação de recursos humanos de alto nível não só no Brasil como no exterior. Isso permitiu que fizéssemos avião e que fossem criados, projetados aviões no Brasil. Foi pela constatação disso que conseguimos ser vitoriosos numa área que é extremamente competitiva. Somos a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo. Estamos entregando um avião para o mundo a cada dois dias.