Recessão ou depressão?

Publicação: 2020-07-02 00:00:00
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Alcyr Veras
Economista e professor universitário

Hoje, o que está salvando a economia brasileira é o Agronegócio. Porém, isso não quer dizer que estejamos, tranquilamente, navegando em mares de águas mansas ou voando em “céu de Brigadeiro”. Nada disso. Os estragos provocados pela pandemia são incalculáveis, e não se sabe ainda o tempo que vai demorar e o tamanho dos prejuízos causados.     

De acordo com a literatura da economia, o termo Recessão econômica acontece devido a problemas conjunturais ou circunstanciais, e se caracteriza pela queda da produção dos bens e serviços, aumento do desemprego, diminuição dos lucros das empresas e aumento dos índices de falências e concordatas (recuperação judicial). Enquanto que a Depressão econômica, por sua vez, está ligada às variações cíclicas da economia, provocando o declínio acentuado da produção, a perda do poder aquisitivo da população e o aumento do desemprego. Existe ainda a chamada Estagnação econômica, que ocorre quando o Produto Nacional per capita (por pessoa) não cresce e é inferior à taxa de crescimento demográfico da população. Mas, não há paralisação da economia, como muitos pensam. Pois, nesse caso, a atividade econômica apenas deixa de crescer.

E o Brasil, em qual dessas situações se encontra hoje?  O caso brasileiro apresenta características, tipicamente, de uma economia em estado recessivo, com a paralisação parcial de suas atividades produtivas. Agências especializadas de consultoria avaliam que o país está com 52% de suas atividades econômicas paralisadas (principalmente o grande comércio atacadista e varejista, as indústrias pesadas de bens de capital, as de transformação e as manufatureiras). Transportes de passageiros, de cargas, terminais rodoviários e marítimos estão operando à “meia vela”. A indústria da construção civil, grande empregadora de mão de obra, também sofre os efeitos recessivos. Com exceção do ramo de alimentos, vários produtos industrializados, oriundos do setor metalúrgico, estão sumindo das prateleiras ou estão com seus preços, especulativamente, majorados. No cômputo geral, as mencionadas Agências estimam que chega a 48 milhões o número de pessoas desempregadas ou parcialmente desempregadas. 

Queremos, todavia, deixar bem claro, nestes nossos presentes comentários, que não estamos aqui defendendo a liberação da abertura total da economia em desrespeito à preservação de preciosas vidas humanas, vítimas do Covid-19.

Dissemos no início que atualmente o Agronegócio está sendo a melhor alternativa para reduzir os efeitos negativos da situação crítica que estamos vivendo. Embora com restrição, nossas exportações de grãos, carne bovina, frangos e frutas, entre outros produtos do gênero, estão servindo para manter ativa parte do emprego e injetar dinheiro no meio rural, através de empréstimos e de mecanismos financeiros subsidiários para capital de giro das micro e pequenas empresas, responsáveis por 82% do emprego formal.

Costuma-se afirmar que quando a economia desacelera, a atividade empresarial se aquece. Isso significa dizer que nos momentos de crise sempre surgem novas ideias, e novas formas de criatividade. Tradicionais paradigmas dão lugar ao empreendedorismo e a gestão compartilhada. Diversas formas de prestação de serviços precisam ser reinventadas para melhor viabilizar a relação custo/benefício.

Considerando que os reflexos da crise atingem, em maior ou em menor grau, todos os países do planeta, o FMI estima que a retração da economia mundial, neste ano de 2020, será de 4.9%. Enquanto que no Brasil, o Banco Central avalia que o PIB terá uma queda de 6.4%.