Reciclar imprimir e dar a mão

Publicação: 2018-12-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A poluição dos mares e o alto número de pessoas necessitadas de próteses para membros perdidos são dois problemas globais, aparentemente sem conexão. Assim era até surgir o Million Waves Project, iniciativa de um casal norte-americano que recicla lixo plástico recolhido das águas para transformá-lo em próteses de membros superiores impressas em 3D, dadas gratuitamente a quem precisa. A ação foi iniciada em abril deste ano, e logo construiu uma ponte com o Brasil através da capital potiguar. O projeto ecológico e humanitário aponta novas direções para a sustentabilidade e necessita de apoio.
Modelo de prótese de mão feita em 3D com plástico descartado nas praias. A designer Alana Rodrigues trabalha há 4 anos com empresária Laura Moriarity e se voluntariou para trazer o projeto ao RN
A designer potiguar Alana Rodrigues trabalha há quatro anos  com a empresária de marketing Laura Moriarity, que ao lado do marido Chris, criou o Million Waves Project. Assim que o projeto foi lançado, Alana se apresentou como voluntária para participar, mesmo tão distante da matriz, em Washington, D.C., capital dos Estados Unidos. “Eu fiz  todo o projeto visual do MW, e me identifiquei muito com ele. Senti que o RN seria um bom lugar para atuar, já que temos um litoral enorme e muitas praias que, infelizmente, também sofrem com a poluição”, diz.

Recicla e imprime

O processo consiste em recolher as garrafas plásticas tipo PET, limpá-las, passá-las em uma trituradora de papel cross-cut, e depois levá-las à extrusora, máquina que transforma o plástico em filamentos para imprimir as próteses em uma impressora 3D. É possível imprimir uma mão, braço ou dígito único, personalizado de acordo com as especificações do indivíduo que precisa da prótese. São necessárias de 15 a 30 garrafas plásticas de água para criar uma mão ou um braço, dependendo do tamanho e dos custos.

O grupo natalense da Million Waves já fez um mutirão voluntária de limpeza na praia da Redinha, em setembro, onde recolheu cerca de 40 quilos de lixo plástico. Contribuições de outras ações de limpeza – incluindo de estados vizinhos, como a Paraíba – também são aceitas. Alana ressalta que até o momento os potiguares enviaram mais de cem garrafas plásticas, limpas e trituradas, para a capital norte-americana.
Grupo faz mutirão para coletar garrafas na praia da Redinha. Já reuniram 40 quilos
Até outubro foram entregues 20 próteses da Million Waves nos Estados Unidos, contando com a ajuda de doadores e parceiros.

Segundo um levantamento do projeto, há por ano mais de um milhão de amputações de membros em todo o mundo – além das crianças que já nascem com os membros incompletos por algum tipo de má formação. Estima-se que 30 milhões de pessoas no mundo  precisam de uma prótese, e apenas 5% têm acesso. “As próteses tradicionais ainda são muito caras, além de ter poucos médicos treinados para o complicado processo de adaptação que elas exigem”, ressalta Alana.

As crianças são prioridade para a Million Waves. “Elas exigem mais atenção porque há a questão do crescimento. Pode-se gastar 100 mil reais numa prótese que logo mais não servirá para ela. Essa é a vantagem adicional das nossas próteses em 3D: são bem mais baratas de fazer e, se for preciso, mais rápidas de providenciar outra para a criança”, explica a designer. É por isso também que as crianças exigem mais urgência para receber o material – que leva de dois a seis meses para ser feito e entregue ao beneficiário.

Em fase inicial no Brasil, o Millions Waves Project por enquanto está com três pessoas em sua lista de espera: um rapaz de São Paulo, um garoto de dez anos de Joinville, e um menino natalense de oito anos. “Ele nasceu com um braço incompleto, e mesmo assim pratica surf, é um garoto incrível. Ainda estamos em processo de conversa com os familiares dele, mas acho que vai dar certo”, afirma Alana.

Qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode solicitar um membro através do site e a equipe do MWP treinará o destinatário através do processo de medição. Em seguida, as medições são enviadas para um modelador 3D voluntário, que envia os arquivos para as impressoras, após adaptar a prótese à anatomia do beneficiário.

Uma dificuldade de trabalhar com as próteses no Brasil, segundo Alana, é a questão da reabilitação, que visa treinar a pessoa para o uso da prótese e acompanhar o processo de adaptação a esse dispositivo novo. “Sem o processo da reabilitação, há o receio de que a pessoa danifique a prótese ou até mesmo deixe de usá-la, por não ter se acostumado a ela. Nos Estados Unidos é bem comum ter esse acompanhamento, mas é complicado no Brasil”, diz. Por isso o projeto está articulando parcerias com ONGs que disponham de profissionais interessados em fazer um trabalho voluntário de reabilitação, sejam pediatras, fisioterapeutas, etc.

Para contribuir na viabilização de suas ações, o MWP conta ainda com a venda de uma linha de produtos próprios, com sua marca, que incluem canudos reutilizáveis (de inox), camisetas, copos, chaveiros, adesivos e decalques para carros. A equipe norte-americana da MWP conta com um chefe de operações, pediatra, enfermeira, e uma profissional modeladora de 3D.

Vaquinha

A equipe potiguar da Million Waves também iniciou recentemente uma campanha online (no site vakinha.com.br) de arrecadação para bancar a compra de seu maquinário próprio, com o qual poderá fazer as próteses aqui mesmo, em Natal, tornando o processo mais rápido,  mais barato, e com mais alcance para atender a pedidos no país. “Com esse material seremos capazes de produzir nossas próteses na cidade, com um custo mais baixo e podendo enviar para nossos beneficiários em todo Brasil sem nenhum custo adicional”, explica a designer.

Alana Rodrigues está com a expectativa de que a “vaquinha” seja levantada até fevereiro de 2019, contando ainda com o auxílio da Campus Party de São Paulo, que deverá contribuir para uma maior visibilidade para o projeto projeto.

Serviço:

Mais informações pelo
<www.millionwavesproject.com>
No Instagram: @mwpnatal

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