Recordações

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Cláudio Emerenciano 
Professor da UFRN

A reminiscência é como o desabrochar de um dia. Lentamente, como as primeiras claridades, que afugentam e fulminam a escuridão. Eis quando o passado assume vigor. Materializa-se e submete o pensar. Realiza uma fusão mágica entre o sonho e a realidade, o que se foi e o que ficou. Somos, todos nós, contínua e inapelavelmente, a soma das experiências vividas. Desdobramento de tudo aquilo que se plantou ao longo da vida. De todas as coisas, materiais e imateriais, sensações, emoções, sentimentos, sonhos e ilusões, que se incorporaram à nossa maneira de ser. Tratando-se da formação do caráter e da personalidade, de suas opções e preferências, de como cada um vê o mundo e a vida, nada é absoluto. Nada pode ser inexoravelmente exato e irrefutável. Seja fonte exclusiva do que virá a condicionar o pensar e o agir das pessoas no presente. Historicamente, num intervalo de dois mil anos, a conversão de Saulo de Tarso (São Paulo), a partir da visão do Cristo na estrada de Damasco (“Saulo, Saulo, por que me persegues?”), e o êxtase de Charles Péguy na Catedral de Chartres, desmoronando seu agnosticismo, transformando-o em notável pensador cristão, revelam que, desde a infância, possuíam algo em comum, que acomete ao homem em determinado momento e em certa circunstância de sua vida: buscar respostas para o seu existir como parte da humanidade. Mas, afinal de contas, somos o resultado de quê? Podemos aceitar, como regra exclusiva e irrevogável, o axioma (máxima) de Ortega y Gasset (“Eu sou eu e a minha circunstância”)? Não posso negar nem refutar. No meu caso pessoal muitas das minhas percepções e avaliações, não todas, emergiram das minhas circunstâncias de vida. Mas também considero que as mesmas se inseriram no âmbito transcendental, ou seja, atribuo a Deus, meu Criador, as vias e alternativas que a vida me ofereceu e ofertou. Sem jamais abdicar do meu livre arbítrio para discernir e optar. Ainda hoje, setuagenário, sou assim. Entretanto, Maurice Druon, em arrebatadora e inesquecível ficção, “O menino do dedo verde”, disse que o homem, em qualquer lugar do mundo, vive à sombra de sua infância. Será? A vivência de cada um define a questão. Apesar da sucessiva variação de circunstâncias por toda vida?  

 O passado me revela uma cidade paradisíaca. Exagero emocional de uma criança? Talvez. Mas me recordo que, aos cinco anos de idade, encantava-me a sinfonia pastoral de espécies variadas de pássaros, que saudavam o nascer do dia, enquanto volteavam entre árvores do Tirol, nas ruas e nos quintais. Envolvia-os uma névoa fina, que transmitia a sensação de frieza, estimulando a permanência de tantos entre lençóis e cobertores. Hoje em dia se diz que o dia “rompe” com o barulho ensurdecedor do intenso tráfego de veículos. Muito cedo para meus hábitos, pois me transformei em noctívago incorrigível. Mas, em meus tempos de criança, o gorjear dos pássaros era sucedido por vozeirão na calçada, de casa em casa, do cuscuzeiro, do verdureiro, do leiteiro etc. Assim ofereciam seus produtos. Esse era um viver calmo, terno, de rotina vagarosa, até bucólico, que não entediava ninguém. Nada mudava nem ameaçava hábitos, costumes, relações, anseios e sonhos acalentados. Tudo, de certo modo, era previsível. Pois o usufruto de tranquilidade e paz regia a vida e as pessoas. Natal a possuía em plenitude. O povo era alegre e feliz. A riqueza não era opulenta, agressiva, egoísta e ostensiva. Uma classe média, sem excessos consumistas, imperava no status da sociedade. Havia pobres, carentes, mas a miséria ainda não exibira sua face dilacerante, desumana e cruel. Existia espontânea solidariedade. Todos, de certo modo, davam-se as mãos. As relações revelavam autenticidade. Reinava uma ética “ingênua”, em função da qual não se estabelecia a premissa de que o outro seria um enganador. Nem capaz de prejudicar seja quem fosse. Solidariedade, sinceridade e dignidade lastreavam as amizades. Daí o ditado: “Éramos felizes e não sabíamos”. Eis quando o passado, de certo modo, é instrumento de aferição do presente. Não se repete, mas é fonte de reflexão para se viver melhor.
Os bondes, desde o segundo governo de Alberto Maranhão, faziam parte do cotidiano da cidade. Compuseram a nossa paisagem urbana até 1954, quando cometeram a estupidez em tirá-los de circulação. Ainda hoje, na Europa, grandes cidades e capitais, usam-nos como meio de transporte: barato e não poluente. Também várias cidades dos Estados Unidos e Canadá. As praças públicas eram tranquilas e seguras, enfim, genuínas áreas de lazer, encontros, descanso e entretenimento da população. Ali predominavam grandes árvores, especialmente eucaliptos, que as tornavam um espaço aliciante e sedutor. As praças André de Albuquerque, Pedro Velho, Pio X e Augusto Severo possuíam um coreto, no qual se apresentavam bandas, conjuntos musicais e cantores famosos. Assisti, aos oito, nove e dez anos, na Praça Pio X, apresentações de Orlando Silva, Paulo Moulin, Luiz Gonzaga, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, “Trio de Ouro”, Ângela Maria. Eventos transmitidos pela única emissora: a Rádio “Poty”.

Afonso Arinos, em “A alma do tempo”, livro monumental, erudito e arrebatador, disse que “as verdades ditas com singeleza, mesmo quando reconheçam virtudes, não trazem o irritante fulgor da vaidade”. Eu ousaria dizer que a simplicidade enfeixa esse espírito e suas motivações. Josué Montello, em “Os degraus do paraíso”, recorreu à ficção para condenar o fanatismo religioso reinante em São Luiz à época de sua infância e adolescência. Não esqueçamos que uma das mais enleantes reconstituições dos tempos juvenis foi a de Carlos Lacerda em “A casa do meu avô”. Ernest  Renan, em “Recordações da Infância e Juventude”, foi premonitório. Vaticinou que a infância, impregnada de sonhos, afeta a percepção da realidade por toda a vida. Considerou-a “a melhor parte de nossa vida”. Uma simbiose existencial. Privilégio dos que a desfrutam.