Rede de assistência básica não está preparada para aumento de casos de coronavírus

Publicação: 2020-03-19 00:00:00
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

As portas de entrada da rede de saúde pública de Natal para o atendimento clínico de casos suspeitos de Covid-19, a doença causada pelo coronavírus, não estão prontas para o aumento de casos. A cidade tem 23 suspeitos e 1 caso confirmado, de acordo com o boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde na noite dessa terça-feira (17), e tende a sofrer evolução nos próximos dias, mas unidades de referência escolhidas para o atendimento clínico ainda não possuem salas isoladas, nem insumos suficientes. A desinformação, como saber se tem álcool para a higienização de pacientes, existe em alguns locais e funcionários da saúde do grupo de risco, como médicos e enfermeiros, ainda não foram afastados e estão expostos ao contágio.

Créditos: Adriano AbreuNo chamado Hospital dos Pescadores, nas Rocas, há realização de testes, mas pessoas reclamam da falta de álcool em gelNo chamado Hospital dos Pescadores, nas Rocas, há realização de testes, mas pessoas reclamam da falta de álcool em gel


Na Unidade de Saúde da Família (USF) de Brasília Teimosa, por exemplo, ainda não há uma sala isolada para o atendimento clínico de pessoas que chegam com suspeita de coronavírus. A unidade foi escolhida junto com a UBS São João pelo secretário de Saúde, George Antunes, como 'sentinelas' da zona Leste de Natal para realizarem o primeiro contato médico com esses pacientes, inclusive com a extensão de horário de funcionamento de oito para 12 horas diárias. Os atendimentos já estão sendo realizados.

O diretor, Lindenberg Paula, afirma que a sala de isolamento vai ser instalada nos próximos dias. Por enquanto, a orientação para separar os suspeitos do restante das pessoas é colocar máscaras cirúrgicas nos casos considerados assim que chegam à unidade e priorizar esse atendimento. "A gente está recebendo as máscaras de acordo com a demanda. Recebemos uma remessa de álcool gel agora para reforçar ainda mais essa questão", informou.

Quatro médicos trabalham no local e um deles tem acima de 60 anos. Num estado normal de saúde, a média de atendimento por médico é de 20 a 25 pessoas diariamente. Lindenberg afirma que a unidade não teve impacto de atendimento decorrente do coronavírus por enquanto, mas admite que isso pode acontecer nos próximos dias.

Com pouca capacidade operacional na rede, a recomendação da SMS, atendendo o Ministério da Saúde, é de que apenas as pessoas com sintomas graves procurem as unidades. Pessoas que estejam com sintomas leves correm o risco de contagiar pessoas que também estejam no local, caso estejam com o coronavírus, ou, caso seja alarme falso, corra o risco de ser contagiado.

Durante a visita da reportagem, uma equipe da vigilância sanitária chegou à unidade por volta das 15h45 para encaminhar um paciente com sintomas de gripe, dificuldade para respirar e febre alta. Participantes da equipe disseram que foram orientados a ir para a unidade por ser referência na zona leste da cidade, onde o enfermo foi encontrado. Apesar de ser considerada referência, o local não realiza os testes rápidos para identificar o Covid-19 ou outras comorbidades respiratórias. Questionado, Lindeberg Paula afirmou que não há definição se isso vai acontecer em breve.

Um dos locais que realiza o exame, aplicados somente em casos de pessoas com sintomas de gripe, febre alta e que tiveram contato com áreas ou pessoas infectadas ou suspeitas nos últimos 15 dias, é o Hospital dos Pescadores, no bairro das Rocas. A média é de três exames diários. A unidade também conta com uma sala de internação preparada para assistência respiratória e sala de isolamento para o atendimento clínico dos suspeitos. Entretanto, os pacientes reclamam da falta de álcool em gel à disposição e as demandas médicas decorrente do coronavírus são somadas a de outras doenças epidemiológicas, como a Dengue, Zika e Chikungunya.

Sarmaria Trindade, diretora do hospital, afirma que o número de atendimentos clínicos e assistência hospitalar aumentou 20% a 30% na última semana. "A média aqui é de 100 atendimentos, mas tem chegado a 120, 130 atendimentos por dia. A noite, esse número dobrou de 25 atendimentos para 50", declarou.

Na sala de espera, Daliane Feliciano, diagnosticada com dengue, reclamou da falta de álcool e gel disponível. As dispensas espalhadas na unidade estão vazias. "A gente chega aqui e não tem álcool e gel, ver o pessoal ser atendido com suspeita e fica se sentindo desprotegido. Se a gente pergunta para os funcionários, eles não sabem dizer se tem, não sabem de nada", declarou.

Sarmaria afirmou que havia álcool disponível no almoxarifado do hospital A reportagem conversou com funcionários, que não souberam confirmar. "A gente tem o álcool para o pessoal da recepção e damos para os pacientes que vem pedir porque não tem nas dispensas", informou um dos funcionários, que preferiu não se identificar.

Servidores de saúde na faixa de risco
Na Unidade Básica de Saúde (UBS) das Rocas, a servidora Graça Alencar, de 68 anos, trabalhava com uma máscara M-95 nesta quarta-feira, 18. Incluída no grupo de riscos do coronavírus, a técnica em enfermagem aguarda uma resposta da Prefeitura de Natal para saber quando vai ser afastada. "Por enquanto, eu não sei de nada e continuo trabalhando", disse. A UBS não é referência para o atendimento aos suspeitos de coronavírus, mas os cidadãos com sintomas gripais tem procurado os médicos de Saúde da Família no local.

Créditos: Adriano AbreuPaciente foi encaminhada para unidade após ser diagnosticada com dificuldades respiratóriasPaciente foi encaminhada para unidade após ser diagnosticada com dificuldades respiratórias


A Prefeitura de Natal publicou um decreto de emergência nesta quarta-feira, 18, afastando todos os servidores acima de 60 anos, exceto os profissionais de saúde. Servidores de diversas unidades de saúde solicitam o afastamento e aguardam a nomeação de 100 novos servidores da área, autorizados pelo decreto, para poderem cobrir a rede. À reportagem, a SMS informou nesta quarta-feira, 18, que o planejamento dessas equipes ainda está sendo feito. O quantitativo de servidores de saúde afetados também não estava pronto, mas deve ser concluído nesta quinta-feira, 19.

Além de Graça, pelo menos dois médicos da unidade das Rocas também tem mais de 60 anos e aguardam afastamento. Na USF Brasília Teimosa, um médico dos quatro disponíveis está na mesma situação. A preocupação é que sejam infectados, a exemplo do que aconteceu em outras cidades. Um médico de 65 anos está internado em estado grave no Rio de Janeiro.

Enquanto não são afastados, os servidores de saúde incluídos na faixa de risco usam a M-95 por essa oferecer maior proteção. A máscara pode ser utilizado durante mais de um dia, mas na unidade não havia mais unidades disponíveis nesta quarta-feira. "Fiz um pedido de emergência e está para chegar porque o que a gente recebe por mês não deu conta", disse a diretora Francisca Vieira. Outra reclamação é a quantidade enviada: "eu recebo menos do que peço", complementou Vieira.

A falta de insumos (máscaras, álcool e gel, capotes e protetor ocular)  em algumas unidades tem sido denunciado aos conselhos de saúde desde a segunda-feira, 16. A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Geolípia Jacinto, afirmou que essa é uma situação agravada pelo coronavírus. "A gente sabe que insuficiência de insumo sempre aconteceu. Não seria nesse momento que não faltaria, infelizmente", informou.

À reportagem, Geolípia informou que o prefeito de Natal, Álvaro Dias, e o secretário municipal de saúde, George Antunes, foram avisados no mesmo dia. Falta de organização das filas e de condição para o atendimento também foi repassado aos gestores.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que "até o momento não está faltando insumos em suas unidades de saúde, elas são abastecidas de acordo com a necessidade de individual de cada uma. Pelo protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde não há necessidade,neste momento de todos profissionais usarem mascaras. É recomendado o uso racional dos insumos".

Veja como se dá a transmissão do vírus

Como o novo coronavírus é transmitido?
As investigações sobre transmissão do novo coronavírus ainda estão em andamento, mas a disseminação de pessoa para pessoa está ocorrendo.

Alguns vírus são altamente contagiosos (como sarampo), enquanto outros são menos. Ainda não está claro com que facilidade o novo coronavírus se espalha de pessoa para pessoa.

Apesar disso, a transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como:

gotículas de saliva;

espirro;

tosse;

catarro;

contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão;

contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Os coronavírus apresentam uma transmissão menos intensa que o vírus da gripe e, portanto, o risco de maior circulação mundial é menor.

O vírus pode ficar incubado por duas semanas, período em que os primeiros sintomas levam para aparecer desde a infecção.

Como prevenir o novo coronavírus?
O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o novo coronavírus. Entre as medidas estão:

evitar contato próximo com pessoas que sofrem de infecções respiratórias agudas;

realizar lavagem frequente das mãos, especialmente após contato direto com pessoas doentes ou com o meio ambiente;

utilizar lenço descartável para higiene nasal;

cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir;

evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca;

higienizar as mãos após tossir ou espirrar;

não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;

manter os ambientes bem ventilados;

evitar contato próximo a pessoas que apresentem sinais ou sintomas da doença;

evitar contato próximo com animais selvagens e animais doentes em fazendas ou criações.

Quais são os sintomas do novo coronavírus?
Os sinais e sintomas clínicos do novo coronavírus são principalmente respiratórios, semelhantes a um resfriado. Podem, também, causar infecção do trato respiratório inferior, como as pneumonias.

Os principais são sintomas são:
Febre.

Tosse.

Dificuldade para respirar.









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