Rede de saúde do RN tem sete mil profissionais na linha de frente do combate à covid-19

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Mais de 7 mil profissionais estão atuando diretamente no combate ao coronavírus no Rio Grande do Norte. Ao todo, são 11 unidades de referência estaduais espalhadas pelo Estado, e outras quatro da rede municipal de Natal, além das unidades básicas de saúde de dezenas de municípios potiguares que tiveram as funções modificadas para atender à demanda crescente de pacientes com sintomas respiratórios. São centenas de médicos, enfermeiros, assistentes sociais, farmacêuticos, bioquímicos, assistentes de serviços gerais, administradores, motoristas e socorristas que, desde o começo da pandemia, estão na linha de frente do combate à doença, muitas vezes afastados das próprias família pela exposição diária, e trabalhando turnos de até 15 horas seguidas para tentar conter o avanço da doença entre os potiguares.

Créditos: Alex RégisProfissionais da sáude, muitos deles, afastados das próprias famílias, estão trabalhando turnos de até 15h seguidas para conter o avanço da doença entre os potiguaresProfissionais da sáude, muitos deles, afastados das próprias famílias, estão trabalhando turnos de até 15h seguidas para conter o avanço da doença entre os potiguares


De acordo com um levantamento feito pelas Secretaria Municipal de Saúde de Natal e pela Secretaria do Estado de Saúde Pública, estima-se que 1.060 profissionais estão atuando diretamente na rede municipal em atividades relacionadas a covid-19, enquanto outros 6.147 estão espalhados pela rede de atenção estadual. Os levantamentos não consideraram terceirizados e cooperados, que compõem uma parcela significativa dos profissionais da saúde.

A saúde pública do Rio Grande do Norte vivia um déficit de profissionais, que precisou ser emergencialmente preenchido para conseguir conter o avanço da doença. De acordo com o relatório mais recente publicado pelo Conselho Federal de Medicina, o RN teria 1,7 médicos para cada 1 mil habitantes, enquanto o ideal seria de, pelo menos, 2,5 médicos para cada mil pessoas.

No dia 14 de março, a Sesap nomeou 970 profissionais aprovados no concurso de 2018 da saúde, para atuar nas unidades de contingência preparadas para receber os casos suspeitos. A maior parte dos convocados é de técnicos em enfermagem, médicos de diversas especialidades e assistentes técnicos em saúde.

O município de Natal também buscou reforçar o seu quadro diante da pandemia. Na última quarta-feira (1), 100 servidores da saúde foram convocados para compor o quadro municipal, entre enfermeiros, farmacêuticos, bioquímicos e técnicos. Outras 192 pessoas, aprovadas em um concurso de 2016 para a Secretaria de Trabalho e Assistência Social (Semtas) também foram convocados para atender à elevada demanda de assistência social que está prevista para o período, no qual muitos estão perdendo seus empregos ou fontes de renda.

Apesar dos esforços para suprir a lacuna de profissionais, o Estado continua deficitário mesmo após as convocações, e a Sesap já planeja uma nova contratação para o mês de abril.

De acordo com o decreto nº 29.581, publicado na edição de 1º de abril do Diário Oficial do Estado, diante da situação de calamidade pública instaurada pela pandemia, R$ 19 milhões devem ser destinados para garantir a contratação de outros 888 profissionais para reforçar o sistema de saúde pública do Estado. Diferente das convocações feitas anteriormente, essa não se trata de um concurso já realizado, mas de um processo seletivo simplificado, desenvolvido especificamente para o recrutamento pelo Instituto Metrópole Digital, da UFRN. Com as convocações, o número de profissionais atuando no combate à doença no RN deve chegar próximo à casa dos 9 mil.

Ao longo da última semana, a equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE ouviu alguns dos profissionais que estão na linha de frente do combate ao covid-19, seja em hospitais de referência para internamento, unidades básicas de saúde da capital e do interior ou atividades laboratoriais que garantem os diagnósticos para a doença.

Para muitos dos profissionais, a pandemia e o risco diário de contato transformou a forma de ver o sistema público de saúde, a coletividade e a importância da solidariedade nos momentos de crise generalizada. Confira, na página 2, depoimentos de alguns profissionais ouvidos pela reportagem.

30% dos casos de covid-19 envolvem profissionais de saúde

No Boletim Epidemiológico divulgado na última quarta-feira (1), a Secretaria do Estado de Saúde Pública do RN (Sesap) divulgou que, das 92 pessoas que até aquele momento tinham apresentado resultados positivos para os testes do novo coronavírus no Estado, 34 eram profissionais de saúde, revelando uma taxa de contaminação de mais de um terço por essa categoria de profissionais.

De acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), ao lado das pessoas que apresentam sintomas graves de doença respiratória, os profissionais da saúde têm prioridade na emissão de testes diagnósticos, pelo risco de transmissão a outros pacientes que possam atender.

As estatísticas mundiais mostram que os profissionais da área da saúde que estão na linha de frente de atendimento aos casos têm pagado um preço alto pelo enfrentamento à doença.

Na Itália, já são mais de 6,4 mil profissionais de saúde infectados pelo vírus.Em Portugal, às taxas de infecção chegam a 20%, enquanto, na Espanha, atinge  marca dos 14%.  No Rio Grande do Norte, a terceira morte confirmada por coronavírus no Estado foi a do enfermeiro e socorrista Luiz Alves Sobrinho, que começou a sentir os sintomas após um dia de atendimento no plantão.

O quadro do enfermeiro, que faleceu em Mossoró na noite da última quinta-feira (2), evoluiu ao longo de duas semanas, com agravamento nos últimos três dias de internação, ao fim dos quais Luiz teve uma parada cardíaca.

Em muitos casos, o contágio é facilitado quando não há disponibilização de Equipamentos de Proteção Individual em quantidade suficiente para abarcar todos da rede. No Rio Grande do Norte, processos de compra emergenciais foram feitos para suprir a necessidade, além de iniciativas particulares para doar EPIs aos profissionais.

A irmã de Luiz Alves Sobrinho, Concita Alves, relatou à reportagem da TRIBUNA DO NORTE que a preocupação com a indisponibilidade de EPIs em quantidade suficiente, especialmente nos primeiros dias da chegada da doença ao Estado, era uma preocupação do irmão, que tinha 20 anos de serviços prestados na área da saúde. “Esse vírus é silencioso e age como um cometa. Não é fácil, principalmente porque as pessoas ainda não entenderam o significado de uma pandemia”, disse Concita.

Os dados estatísticos de profissionais da saúde contaminados pelo coronavírus divulgados até a quarta-feira no RN estão acima da média de infecção observada em outros países. Desde a quarta-feira, novos dados sobre a quantidade de profissionais de saúde infectados não foram divulgados. 

Giselda não tem casos suspeitos entre profissionais

Créditos: Arquivo/TNHospital Giselda Trigueiro é o principal hospital de referênciaHospital Giselda Trigueiro é o principal hospital de referência

Apesar do número elevado, um fato chama atenção: não há profissionais que tenham recebido diagnóstico positivo para infecção no principal hospital de referência para internação de casos de covid-19 no Estado, o Giselda Trigueiro.

De acordo com o diretor da unidade hospitalar, André Prudente, mais do que uma coincidência, a ausência de testes positivos para o Hospital mostra que os cuidados redobrados são necessários, e podem ter sido mais facilmente adotados pelos membros da unidade por ela já ser, antes da chegada do Coronavírus, uma unidade de referência para tratamento de doenças infecto-contagiosas.

“Essa é a importância de fazer tudo da maneira mais correta possível, usando os equipamentos de proteção individual”. afirma. “Aqui a gente já sabe que vão chegar casos suspeitos, então às pessoas já estão mais paramentadas, utilizando mais corretamente e frequentemente os equipamentos. Esperamos conseguir continuar assim, sem adoecimento de nenhum servidor”, completa o diretor.

Outro fator que pode ter contribuído para o elevado número de profissionais contaminados era a falta de preparo da rede básica nos primeiros dias após a chegada do vírus ao Estado. Até o dia 19 de março, muitas das unidades de referência escolhidas para o atendimento clínico ainda não possuíam salas isoladas, insumos suficientes para atender aos pacientes e equipamentos de proteção em quantidade.

Apesar disso, o próprio fato dos profissionais estarem em contato direto e constante com outras pessoas que apresentam quadros graves ou moderados da doença também aumenta as chances de contrair o vírus. Por estarem expostos diversas vezes a diferentes cargas virais, esses profissionais têm chances não apenas de contrair, mas também de desenvolver quadros graves da doença.




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