Refúgio na beira da lagoa

Publicação: 2017-10-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Para além do roteiro de belas praias, o litoral potiguar reserva cenários paradisíacos onde a água salgada do mar dá lugar à água doce e cristalina de lagoas. Em Nísia Floresta, que ao lado de São José de Mipibu e Parnamirim reúne um complexo de lagoas no litoral sul, o músico Tarcísio Flor encontrou seu paraíso na terra: Lagoa do Urubu. Há 35 anos atrás, ao bater os olhos no lugar, se apaixonou. O amor à primeira vista o fez adquirir uma propriedade na lagoa, onde administra um verdadeiro santuário ecológico.

É na Lagoa do Urubu que Tarcísio cultiva um bosque de árvores frutíferas, uma horta orgânica, orquídeas, bromélias raras,  plantas de diversas espécies tropicais. Tudo convivendo com a mata nativa. É nesse espaço que ele também faz suas pesquisas sobre a vegetação, encontra paz para compor e recebe visitas agendadas – em que, como bom anfitrião, ele mostra os detalhes do ambiente, prepara uma refeição elaborada com produtos da propriedade e faz um som ao para os convidados.

É na Lagoa do Urubu que o cantor Tarcísio Flor cultiva um bosque de árvores frutíferas
É na Lagoa do Urubu que o cantor Tarcísio Flor cultiva um bosque de árvores frutíferas

Cantor e violonista, Tarcísio ficou conhecido sobretudo nos anos 1990, quando costumava se apresentar no projeto Seis e Meia, além de fazer shows em barzinhos com repertório de MPB e canções autorais. Mas há vários nos ele vem se dedicando mais a vida no mato, mais tranquila, sem pressa, na companhia dos bichos e dos vegetais. Em entrevista a TRIBUNA DO NORTE, ele conta um pouco de como é essa vida na Lagoa do Urubu, lembra de histórias, fala de suas preocupações com a depredação e revela seu sonho para o futuro da lagoa.

Um lugar especial
Conheci a Lagoa do Urubu há 35 anos e me apaixonei na hora. Encontrei um lugar lindo e de área preservada. Lá tem muitos pássaros, lagartos, cobras, micos, saguís, peixes. Quando cheguei lembro que era fácil encontrar camarão, pitu. Hoje tem menos por causa da depredação. Andei aquela região todinha. Quando chove se formam muitos laguinhos de água cristalina, o que é bem legal para tomar banhos. A tranquilidade do lugar é boa para compor músicas, fazer minhas peças com material reciclado. Minha vida é toda atrelada a Lagoa do Urubu. Ela me fascina, me põe pra pensar.

Sobre o nome Urubu
A lagoa do urubu é uma lagoa que tem sangradouro. Sangradouro muito longo que junta muita lama. Segundo fontes que colhi há 20 anos, a história do nome tem a ver com os gados que vinham beber água na lagoa e quando iam embora, mais cheios, atolavam na lama e acabavam morrendo, o que atraia muitos urubus. Há 18 anos tentaram mudar o nome da lagoa para nossa senhora de alguma coisa. Mas não vingou.

Pesquisas
Foi na Lagoa do Urubu que comecei minhas pesquisas com orquídeas, bromélias, cactáceas, suculentas e toda uma arborização com espécies nativas da região. É um trabalho que me satisfaz. Tem coisas que eu plantei e não chegarei a ver crescidas. Quando eu for embora dessa terra, sei que deixei algo. Eu cuido das árvores, das águas, não pra mim, mas para deixar para humanidade.

Sistema de lagoas
A lagoa está dentro do Aquífero de Guaíra, que engloba os municípios de São José de Mipibu, Nísia Floresta e Parnamirim. É uma região de muitas águas, com 23 lagoas. Vejo um potencial muito grande de águas no nosso Estado, mas vejo um Estado padecendo em pingos d'água.

Acesso complicado
Quando comecei a frequentar a lagoa eu dava cinco a seis atoladas pra chegar e outras tantas pra sair. Hoje tem outros caminhos. Tem estrada que vem pelo presídio de Alcaçuz, outra que vai pelo Lago Azul, outra por São José, outra por Nísia. Tem muitas estradas, mas elas ainda são muito precárias. O lado bom disso é que mantém um público pequeno.

Turismo Ecológico
É uma lagoa fechada, sem acesso para turismo. Então o acesso é pelas propriedades. Já recebi pessoas importantes em casa, artistas como o Lenine, gente do Ministério da Educação. Existem restaurantes próximos, gente que trabalha com cardápio vegetariano. Tenho parceria com o pessoal. A gente tem pensado em fazer um trabalho de turismo para as pessoas conhecerem mais a riqueza daquela área.

Falta fiscalização na área
A região é muito explorada erradamente e os órgãos fiscalizadores não estão nem aí. Praticamente não existem. Vejo criadores de camarão e de peixe sem nenhuma placa do Idema e Ibama. É tudo feito à revelia, destruindo o subsolo, o lençol freático. A prefeitura só quer cobrar o IPTU sem fazer nada para as populações ribeirinhas dessas lagoas. Quando chegam com projetos é tudo falatório. Não acredito em governo e nessas entidades.

Sem jet skis
Teve um período que apareceu a turma do jet ski. Na conversa conseguimos fazer com que aquela prática não continuasse. Hoje não temos esse problema. Os jet skis destroem o ambiente para peixe e crustáceos que vivem na lagoa. As lagoas da região não são tão fundas. Os motores acabam tiram os plânctons do chão, afetando a estrutura do solo da lagoa.

Futuro
Para o futuro pretendo fazer da minha casa um museu. Mas para isso preciso de um contato mais forte com a universidade para fazer todo um histórico da área, da vegetação, da água. Quero transformar aquilo numa sala de aula. Já no próximo ano pretendo abrir para visitas de escolas. Quero mostrar para crianças de 8 a 12 anos a responsabilidade que se deve ter com a terra e com a água, com as coisas da natureza, para que comecem a cobrar dos pais novos comportamentos.


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