"Refinaria nem sempre é progresso"

Publicação: 2011-11-20 00:00:00
Sara Vasconcelos - repórter

A exploração da camada do pré-sal permitirá ao Brasil não só a possibilidade de aumentar a reserva de petróleo - com projeção de 60 bilhões de barris - e a riqueza do país, como também permitirá o desenvolvimento de novas tecnologias. Este é, para o país, na avaliação de Gareth Chetwynd, jornalista especializado em petróleo e gás, o maior desafio e oportunidade de crescimento. Contudo, ele desconfia que “metas e prazos ambiciosos” estabelecidas pelo Governo Federal para a formação de tecnologia e de mão de obra especializada e início da produção se confrontem com a falta de tempo e  precisem ser reajustados. No Rio Grande do Norte para conhecer o polo petroleiro de Mossoró, o correspondente no Brasil do jornal Up Stream -especializado na rede petroleira e pertencente a um grupo norueguês, com atuação em todos os países  produtores - e colaborador do Finantial Times, comentou o cenário atual e acredita que o setor de petróleo no Brasil não será atingido pela crise mundial. Ele, que mora há 16 anos no país, alertou para a necessidade de explorar atividades mais viáveis ao crescimento econômico, como a energia eólica e turismo, ao invés de insistir em buscar refinaria “que nem sempre significa progresso” para o Estado.
Gareth Chetwynd - Jornalista
A que se deve sua vinda ao Estado?

A motivos pessoais e a oportunidade de conhecer o polo petroleiro de Mossoró, um dos principais do país que não tive chance de conhecer em duas viagens anteriores ao Rio Grande do Norte, para acompanhar projetos da Petrobras. O mais interessante de  Mossoró, além da história e da tradição petroleira de exploração terrestre é que lá há um grande concentração de empresas. É para lá que a Petrobras leva tecnologia de ponta, as mais avançadas formas de exploração, equipamentos, para erem testadas em Mossoró, antes de levarem para uso em plataformas marítimas. Tinha curiosidade em conhcer e acompanhei o presidente do Cerne, Jean Paul Prates, a instalações da termoaçu, a empresas diversas.

Como você avalia o projeto de exploração da camada do Pré-sal?

No pré-sal está a descoberta de reservas de dimensões muito grandes, a localização desses reservatórios em águas profundas torna o pré sal um desafio muito grande, tanto em termos tecnológico, quanto em logística. Para atingir campos em profundidades extremas embaixo do meio marítimo, muito distante da costa. Exige muita inovação, investimento, tempo. Não dá simplesmente para começar a produzir amanhã. Isso demanda muito estudo, muita pesquisa. É preciso a construção de um novo sistema de produção jamais visto no mundo. Com o pré-sal o Brasil está começando a abrir novas fronteiras de tecnologia. Então isso vai levar tempo. No âmbito político, e é difícil falar nesse âmbito sem citar que os políticos  não resistem em falar de muito dinheiro e em que esses recursos devem ser aplicado, também se sabe que esse dinheiro não chegará tão rápido porque os desafios tecnológicos são muito grandes. O que é muito bom para o Brasil. Devido a dificuldade em extrair petróleo nesses campos isso levará  muito tempo, muita pesquisa, muito investimento em formação de mão de obra, em estaleiros, fábricas. O país ganha com isso. Se fosse fácil tirar seria um mar de dinheiro em dois anos e o que aconteceria é que ninguém ia querer mais trabalhar. Porque o real ia ficar forte, a economia seria fortalecida com o crescimento de renda, com a exportação e não sobraria espaço para outras atividades. É o que acontece hoje com a Venezuela. Lá tudo gira em torno da exploração do petróleo. Então, que bom que o Brasil terá que suar.

A formação de mão de obra é um dos grandes desafios?

O governo do Brasil tem uma política de conteúdo nacional. De construir essa qualificação, exigir que dentro dos contratos da Petrobras e todas as empresas que contratam por meio dela, sejam altas porcentagem feitas no Brasil. Mas há também  metas de produção, de construção de plataformas muito ambiciosas. Se pretende e se precisa fazer muita coisa no Brasil e dentro de pouco tempo previsto nessas propostas do governo. Isso é, sem dúvida, um desafio grande. O Brasil está formando a mão de obra enquanto está construindo uma plataforma dentro de um estaleiro também em construção, como aconteceu em Suape. Pegando jovens para que ali já comecem a ter experiência, formando-os ali, enquanto constrói. A minha preocupação é arriscar os prazos. Por que qualquer problema vai resultar em atraso desses prazos. Mas , claro, a ideia de fomentar as capacidades é louvável, as metas é que são ambiciosas e precisarão ser ajustadas. Muita coisa pra construir, muita gente para treinar e acredito que não dará tempo para fazer.

Quando você fala em muito tempo, é quanto?

O governo diz que vai dobrar a produção até o final da década. Mas as metas do país nem sempre são cumpridas, são reais.

Mesmo ainda sem produzir já há  muita discussão sobre a distribuição dos recursos para os Estados e municípios. Como você vê o modelo aplicado para a repartição dos recursos entre os Estados e municípios? Há alguma forma de os Estados e municípios não produtores terem acesso aos recursos sem prejudicar os Estados produtores?

Acho que o governo do Brasil tinha todos os mecanismos para fazer qualquer coisa dentro sistema antigo. Seja para distribuir para os Estados, aumentar a participação da federação e municípios, regulamentar como e onde o dinheiro deve ser dedicado, a quais regiões, a setores, como educação, saúde. O problema é abrir o debate para se fazer tudo de novo. Fazer uma novo modelo. Os não produtores poderiam ter ganho mais com o sistema antigo, mas uma vez que se abre o debate pra todo mundo, claro que todo mundo vai querer um pedaço maior. Não
acho que as reformas são necessárias. É muito mais uma questão política. E estão pagando um preço muito alto, com a forma que o debate está sendo travado no congresso.

De que forma esses Estados e municípios poderiam se mobilizar para garantir acesso a recursos sem a reforma?

Creio que a ideia, em princípio, de que o pré-sal trará benefícios, ninguém discute. O sistema de lei, a forma de contrato que as empresas de petroleo usavam e usam para regulamentar a relação com o governo brasileiro isso funcionava. Talvez por ter sido muito intensificado com o governo anterior teve que ser mudado. Mas poderia ter sido usado para fazer qualquer coisa, dentro do sistema antigo tinha mecanismo, era só estipular quando, meios, fins. O problema que da forma que foi feita abriu uma briga, um combate político.

Essa distribuição e aplicação dos royalties do petróleo nem sempre cumpre o papel. No RN, apesar de Guamaré receber a maior fatia de royalties, o município  não é o mais desenvolvido. O modelo antigo não era bem aplicado, faltava fiscalização?

Na verdade, acho que a boa aplicação dos recursos oriundos dos royalties ou de qualquer outra fonte pública é uma questão da democracia local. Acho que as pessoas, os eleitores devem cobrar como esses recursos devem ser usados. O governo nos três níveis devem dizer onde está o dinheiro, em que foi aplicado e se não foi aplicado, porquê. Em qualquer lugar do mundo o desafio é gastar o dinheiro bem e os eleitores cobrar a prestação de contas.

Apesar de ser o maior produtor terrestre de petróleo, o Rio Grande do Norte não conseguiu trazer a refinaria e nem mesmo um polo petroquímico, que perdeu para outros Estados. Nos dois casos, foram alegadas questões de deficiência de infraestrutura...

Não tenho informação sobre a logística do Rio Grande do Norte e nem de quais foram as razões consideradas pela Petrobras para conceder ou não. Mas acredito que se um tipo de atividade econômica não se escaixa aqui, o que se deve fazer é questionar o que pode encaixar. O que tem então? Quais os potenciais que podem ser explorados? Aqui no Rio Grande do Norte há uma grande vocação para energia eólica e há investimentos voltados para isso. Para falar a verdade, eu nem gostaria de ver uma refinaria aqui. Acho que há outras formas de o Estado fomentar a geração de emprego e renda, como o turismo. Refinaria nem sempre é progresso. Pode ser e é uma ótima fonte de emprego, mas isso não quer dizer é o melhor para outro lugar. Para o turismo não seria bom.

O Rio Grande do Norte sofre uma queda na produção. Em  2001, eram 25 mil barris e, em 2010, passou a 17 mil barris. O esvaziamento dos poços é uma tendência?

Acho que há esforços econômicos para isso. É possível aumentar a produção com investimentos. Mas o dinheiro que ele gasta comparado com o dinheiro que é gasto em campos novos não representa um retorno grande. E é preciso ponderar que o fator determinante para o investimento é o retorno que dará, a lucratividade. E campos mais velhos produzem menos.

O que pode ser feito?

Nesse sentido, existe um debate se o governo brasileiro deveriam jogar aberto e abrir novos processos de licitações para que outras empresas entrassem no mercado, não só a Petrobras. Abrir para quem quer investir nessa área. A Petrobras e o governo brasileiro, ao meu ver, têm uma postura possessiva. É possível a retomada e o aumento produção, seja por meio de novos investimentos federais ou através abertura de espaço para a iniciativa privada poderia investir mais. Mas isso é uma questão econômica: se há como ter lucro ali. Não posso te responder isso, acho que só a Petrobras pode, mas talvez a lucratividade não valha a pena. Não conheço os planos da Petrobras para o estado.  Acredito que há planos de investimentos. O projeto da Termoaçu com a introdução de vapor para estimular a produção,  já está acontecendo. É uma técnica viável mas tem que ser visto do ponto de vista da lucratividade. Se você estar ganhando 50 com a venda do barril e gastando 49 para produzir o mesmo barril, chega a um ponto que não vale a pena. Não é o caso. Mas é o que é pesa no balanço. E é preciso lembrar que num futuro próximo, a Petrobras vai perfurar em águas profundas.

O fato da atenção está mais voltada  para a exploração de petróleo em plataformas marítimas, pode deixar de lado investimentos para exploração terrestre?

Acho que são coisas distintas. O que não há para negar que a produção terrestre está em declínio. Isso é fato geológico, científico. Não dá para fingir, não é questão política afirmar isso. Mas se sabe que é possível prolongar a vida dos poços. No Mar do Norte que tem quase o mesmo tamanho, comparando o total de campo de reserva do Pre-sal - que se diz ter cerca de 60 bilhões barris  - a produção já corre há 30 anos, e também lá se verifica um declínio. Dá para investir e prolongar, se não vai chegar um dia que não vai existir. Como pode ser feito também aqui.

Na sua avaliação, como a crise financeira mundial pode respingar no Brasil e no setor de petróleo?

Acho que no Brasil, a área de petróleo e gás não está sentindo muito os efeitos dessa crise. Talvez quem estiver buscando financiamento para  construir um sonda da Petrobras, poderá sentir que dinheiro internacional está mais difícil. Eu acho que o Brasil está muito blindado. A estabilização da economia com o plano real, que eu acompanhei por já estar morando aqui, e o crescimento da renda da população fez com  que o país crescesse. O Brasil está bem, foi blindado. O plano econômico  funcionou. Em quase todas as áreas. O setor de petróleo não sente e não deverá sentir muito esse desgaste da crise financeira mundial.