Reflexões de início de ano

Publicação: 2017-01-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Lívio Oliveira
advogado público e escritor


UM QUARTO DE HOTEL, em solidão reflexiva, é um lugar em que gosto de estar. Com as janelas abertas, é como se sorvesse do lugar visitado os nutrientes vitais, através de um cordão umbilical que logo se rompe, a cada retorno à origem natal. Gosto de ficar entre aquelas paredes que rememoram os efêmeros suspiros e pensamentos dos visitantes que me sucederam. É porque é vida corrente. É o sonho em trânsito.

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DE REPENTE VEJO passar na televisão a imagem de um seriado antigo, daqueles com abertura espetacular e música orquestral, coisa dos anos 60 ou 70. Não sei porque a mente trabalha essas nostalgias de maneira quase masoquista, como se tudo fosse muito impalpável, diante do tempo que passou e levou um bocado dos sentidos que dávamos às coisas. O palimpsesto da memória às vezes só revela dor onde antes havia sonho. É como se guardássemos em nós fósseis, pedaços de corais ressecados, peles trocadas que já se desintegram com um simples sopro de brisa.

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NEGAR O SENTIDO TRÁGICO que há em tudo o que nos cerca (que deixará de existir quando também deixarmos) não ajuda. O melhor é fazer uma composição entre dor e riso, escolher uma música decente, vestir a máscara do momento e harmonizar tudo isso com um bom vinho, bem acompanhado ou bem só.

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ELE SE FOI HÁ UM ANO. O meu pai. Guardo os instantes preciosos que compartilhamos. Guardo a sua voz grave e o seu olhar. Quando criança, queria acompanhá-lo sempre. Se não era possível, ficava folheando seus livros e revistas. Ouvia os seus discos na radiola. Vestia as suas roupas (enormes para o molequinho que eu era). Era a forma de me manter conectado à sua palavra, às vezes dura, às vezes terna e cuidadosa. Em geral, era um homem muito presente. Não faltava diante de uma urgência. Tentei manter um bom diálogo, mesmo quando ele já apresentava dificuldades na fala. Sei que pedia para que lessem os meus textos semanais no jornal. Talvez tenha sido mais uma forma que busquei para conversar com ele. Escrevê-los. Escrever. Pena que não vai me ver na Cadeira número 15 da ANRL. Não importa. Importa que ele é o imortal. Imortal para mim, para os meus irmãos, para a minha mãe, para os meus filhos e sobrinhos, seus netos. Hoje, tento ainda me comunicar de várias maneiras. Uma delas se dá quando ouço o pequeno rádio que trouxe de uma viagem para que ele tivesse menos dificuldades de atravessar as noites dolorosas. Acredito até que ouvi algo muito pessoal ao sintonizar o radinho nesses dias iniciais de 2017. Pode ser que me diga boas novas no decorrer do ano. Por enquanto, vou pedindo repetidamente: – A bênção, meu pai! Eu sei que está, como sempre esteve, muito presente.

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A LUA VESPERTINA sobre Natal, no último domingo, foi a imagem da esperança em branco e azul. Quanta paz em mirá-la, redondinha, daqui deste andar! Quanto alento em saber que vale tanto observá-la no céu e os pássaros no alto dos Ipês, cantando, vigilantes e defensores eficazes do bem e da alegria, que sempre renascem!

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