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Reflexões no pôr-do-sol
Publicado: 00:00:00 - 03/07/2022 Atualizado: 16:47:40 - 02/07/2022
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

O crepúsculo, com sua variedade de cores leves, que oscilam do violeta ao cinza, lentamente dissemina na alma e nos corações sua mensagem: paz, mansidão, ternura, desprendimento e aconchego. Os homens têm diante e em torno de si uma multiplicidade de sentidos das coisas. Inacessíveis muitas vezes por circunstâncias que os ocultam da percepção humana. Dom Nivaldo Monte, apóstolo da fé, pastor sábio, dizia que amizade autêntica é um ato contínuo de amor e solidariedade. Renovado por tolerância, compreensão, lealdade e identidade de valores, sonhos, buscas e ideais. É uma procura partilhada de percepções, que se projetam no infinito. Adriano Moreira, misto de professor e estadista, pensador e visionário, em “O legado político do ocidente”, disse que o grande desafio dos homens e das nações é exercitar a convergência dentro das divergências. Pois os sectarismos embotam a lucidez, a serenidade, a isenção e a generosidade. Semeiam ódio, intolerância, violência, insânia e estupidez. Os conflitos, que infelicitam e degradam o nosso tempo, são gerados pela descrença no amor e na paz. Em síntese, desvirtuam e renegam o sentido da existência.

A vida revela momentos imorredouros, permanentes, encantadores, ternos e sedutores. De certo modo, inspiram as antevisões do paraíso. Fecundam presciência e premonições, que abrem caminhos para a busca do desconhecido. Germinam ideais, fantasias e utopias, fontes de mudanças, revoluções e transformações, que exorcizam o medo e impulsionam a marcha do homem na vertente do tempo. Muitas vezes parecem ser enigmáticos, inacessíveis e indevassáveis. Mas não são. Os homens - disse São Paulo - no turbilhão de paixões e egoísmos, perdem a sintonia com a realidade. Tornam complexo o que é simples. Passam a ignorar o óbvio, o evidente, o claro e o insofismável. Abdicam da lucidez e as trevas turvam, inibem, desvirtuam, maculam e tumultuam sua visão do mundo. Têm olhos, mas não vêem; ouvidos, mas não ouvem. Nessas circunstâncias, a vida passa, flui como um rio em cheia, ribanceira abaixo, sem nada que contenha suas águas até o fim do seu curso. São Paulo, na Epístola aos Romanos, revigorou as bases da civilização cristã, atualmente, em certas circunstâncias, esquecidas ou ignoradas (Romanos 12, 9 e segs.): “O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros... Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. Mantende um bom entendimento uns com os outros; não sejais pretensiosos, mas acomodai-vos às coisas humildes. Não vos considereis sábios aos próprios olhos”.

Vivemos um tempo em que o desafio universal, em qualquer lugar, independentemente da cultura, do nível científico e tecnológico, reside no respeito à condição humana. Essa questão envolve aspectos materiais, objetivos, concretos, mas também de natureza espiritual, ética, cultural, psicológica e moral. Não se pode impor a ninguém uma visão do transcendental. Mas a ninguém é lícito, ético e moral subtrair, a quem quer que seja, o direito de desfrutar da transcendentalidade. Nesse sentido, o respeito pelo homem precisa estar estabelecido no coração de todos os homens. Ser convicção e compromisso de vida em cada um. O atual surto de violência, planetário, global, é fruto do descompromisso com a vida em si mesma: vida do homem, vida do meio ambiente, vida do planeta. Vivemos, em escala nacional e internacional, um clima de perplexidade, espanto, insegurança e medo; também de ineficácia governamental para reduzir e reverter os índices de criminalidade e fome. Manifestam-se em dois extremos: a eliminação brutal, insana e perversa da vida humana, e a erosão de direitos e garantias individuais. Sem falar no declínio do espírito público. Súbita e inexplicavelmente, esfuma-se o milenar dogma de Cícero: “o bem de todos é a lei”.

Era o meio da tarde em 2019, antes da pandemia. O sol começava a declinar. Fui surpreendido por um cantarolar de pássaros, que iam e viam entre altas àrvores, ainda resistentes, em áreas da Candelária. Da janela contemplei um céu de azul esmaecido. Ventava bastante. Resolvi sair de carro sem destino. Na Avenida Salgado Filho uma moto passa e me chama atenção. Era conduzida por uma moça, cujos longos cabelos saiam do capacete. Parecia uma amazona. Levava de carona um rapaz. Os dois, sem pressa, riam. Rapazes e moças, saídos do IFRN, talvez uns vinte, alegremente esperavam no sinal para ultrapassar a avenida. Muito mais adiante, na Rua Apodi, alunas da Escola Doméstica exibiam o mesmo estado de espírito. Perguntei-me, então: - O que esses jovens pensam de tudo isso? Como antevêem seu futuro? Como encaram o mundo e a vida? Respeitam-se uns aos outros? São felizes?

A visibilidade do homem está em seus atos. Os laços são o prolongamento do que temos em nossos corações. O homem precisa alimentar, como o jardineiro que joga água em sua roseira, seus sentimentos, sua própria humanidade. Os homens se tornam cruéis, bárbaros, desumanos, por não conhecerem, concretamente, o amor, a solidariedade, a partilha de uns com os outros. Uma civilização é a soma de crenças, valores, sentimentos, sonhos, ideais e aspirações individuais. A civilização é, ao mesmo tempo, um bem perceptível, material, e um bem invisível e indivisível. O velho Caide, em “A Cidadela” de Saint-Exupéry, compara a civilização a uma pirâmide, e sentencia: “A tua pirâmide não tem sentido se não termina em Deus”. Antes do sol se pôr, naquele dia, a natureza me ensinou algo mais sobre a vida. Graças a Deus...   

* Artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor

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