Reflexos

Publicação: 2018-10-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Os bate-papos sobre quaisquer coisas estão sendo (conversa vai, conversa vem), inevitavelmente transversais com a temática da disputa da política local e nacional. Em casa, na praia, na padaria, no trabalho, na academia. O brasileiro se acha capaz de análises nos campos especulativos de eleições de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e claro na escalação de times de futebol, contratação técnica...

Contudo, consumado o pleito e ratificado os eleitos pela vontade popular os mesmos são literalmente esquecidos. A grande maioria não sabe, passado meses, em quem votou. Seja nos municípios ou nas capitais. Coisas do Brasil.

Li as recentes crônicas de Fernando Gabeira e Cacá Diegues. Dois intelectuais cujo passado e presente honram seja qual for o país. Atravessaram tormentas e obscuridades em suas trajetórias que ajuntando essas cambadas de loroteiros espalhados por aí jogando conversas fora não amarram as chuteiras de nenhum dos dois.

Pois é. A maturidade obviamente é fator preponderante no pensamento e reflexão de um e de outro. O primeiro aponta para a vivência pós-eleição considerando que não ocorrendo nada de extraordinário o pleito nacional está definido para onde indicam as pesquisas. Sente antecipadamente, o resultado vitorioso das urnas favorável ao campo da direita. Critica os ouvidos moucos da esquerda para o clamor conservador do eleitorado. Não soube ou não quis ouvir. Faturou quem o auscultou e soube manejá-lo. O Capitão. Lula jamais seria Mandela. Precipita o exercício da convivência que se anuncia sem condescendência. Há necessidade e rapidez para adequar e começar de novo. Reaprender com a maré qual direção que vamos remar.

O premiado cineasta das Alagoas visualiza em lente grande-angular um horizonte provável de compromisso dos lados polarizados em honrar preceitos constitucionais que em última estância salvaguardaria a nossa democracia. Essa a principal lente de aumento de Cacá. Segurar as pontas do regime democrático de direito. Acalmar a barbárie entre opostos também entra em pauta. Entretanto, na medida em que clarifica o desembaralhar dos candidatos no tocante ao respeito constitucional provoca saber o muito que dependerá de forças organizadas da sociedade civil na exigência do cumprimento de tal rito diante o texto da nossa Carta Magna. E aí! Haverá maturidade coletiva para tanto?

Só Deus saberá. O mundo, e o Deus da economia global é pragmático e não se serve mais de cardápios retóricos, frase de efeitos, saudosismos filosóficos... Está valendo a funcionalidade. Tem que saber que parafina passar para surfar nesse mar.

A brutalização do capital, sua concentração no domínio de poucos somados a exclusão e ignorância de muitos geram e dimensionam fotografias como as de Sebastião Salgado. Geografia da Fome. De vez em quando é bom queimar as retinas olhando-as. Os erros da esquerda no Brasil sem expurgos nos arremata para experimentar mares já vencidos. Mais uma vez entramos na circularidade histórica. Não é consolo nenhum exemplificar o conservadorismo da Itália, Hungria, Alemanha, USA, França, Argentina... Outras ondas e processos direitistas com singularidades próprias.

O futuro que nos espera é também o presente. Ainda há lugar para o populismo de esquerda? O aqui e o agora, Gabeira o traz para cá. Cacá nos conclama para a mobilização constitucionalista do século XXI. Quem viver verá se esses diagnósticos, se esses prognósticos estarão ratificados a valer. A saudade é um trem de metrô.




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