Regina Azevedo: Um sertão dentro de si

Publicação: 2020-03-15 00:00:00
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Michelle Ferret
Repórter

“Minha mãe veio do interior da minha vó/ vovó veio do interior do interior de Caicó/ eu vim do interior/ do interior da minha vó”.  Na geografia do afeto, Regina é do interior. Ela é também daquelas pessoas que não passam despercebidas por lugar algum. Seu olhar perspicaz e sua forma de se colocar no mundo, principalmente na poesia, faz com que a vida se torne mais bonita. Sua primeira publicação “Das Vezes que Morri em Você” (editora Jovens Escribas), foi aos treze anos de idade, já com a maturidade de um infinito. Hoje, aos vinte, tem publicados os livros: “Candura” (2014), livro de contos, “Por isso eu amo em azul intenso” (2015, ed. Jovens Escribas), o fanzine: Carcaça (2015) com poemas, fotografias, arquivos, projeto gráfico escritos para seus avós e disponível gratuitamente na internet e seu último: “Pirueta” (2017, selo doburro). Já foi integrante do coletivo Apois Poesia, quando conheceu de perto a poesia de Daniel Minchone e Eveline Sin, quem considera seus padrinhos poéticos e incentivadores de sua arte.

Créditos: Lysa RodriguesA poeta Regina AzevedoA poeta Regina Azevedo

Sua relação com as ruas, o cheiro da terra da granja de seus avós em Parnamirim, a cor da acerola colhida nas mãos de Seu Ciço e as perdas são registros fortes em sua  história.  Técnica em Multimídia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte, apaixonada por leitura, hoje ela cursa Letras na UFRN e gosta de ler Carolina Maria de Jesus, Marcelino Freire e poetas potiguares como Marize Castro e Eveline Sin.

Já viu sua poesia ser transformada em cinema, artes plásticas, quando resignifica a poética de dentro para fora. Regina está presente com o poema “Não existem portas nessa casa” no filme “Histórias Abertas” do diretor Carito Cavalcanti e na exposição Poesia Agora no Museu da Língua Portuguesa em 2015, em São Paulo. Além de ser atriz e recitar  “O verbo não poder”, no filme Vida Vaza de Carito Cavalcanti, (2016). Regina está sempre acompanhadas de sua felina Laranjinha, a quem tem devoção e é mote de poesia.

O poema “O Sertão Sou Eu”, a apresenta melhor do que qualquer palavra que poderia ser dita e diz:

o sertão sou

eu capim seco

corta pele

atinge carne

longe gado cai,

gado só fica em pé com água

vovó quase não conhece

terra molhada

sandália minha brilha,

pé de solas avermelhadas

desci do salto

passeio na estrada do tempo

corpo tem necessidade

de estar perto da alma

corpo quer morar em casa

corpo precisa adormecer

ouvindo sua voz

canto do galo celebra milharal

água chegando na caixa

paredes ficam frias

afundo surda em colcha de pano

cada retalho tecido pela desistência

de um bicho

afogo muda em cílio de pavão

pés repousam na rede

chaleira geme

capim santo

alma despida de cidade

dor se despede

deixa corpo aos poucos

chove

Entre essa chuva, a poesia e a saudade, Regina conversou com a TRIBUNA DO NORTE para contar um pouco sobre suas memórias poéticas, vida e a coragem em existir: “ E é a poesia que a faz viver”.

Memórias dos avós

Minhas memórias mais precisas se iniciam na granja dos meus avós, em Parnamirim. Lá era bonito, muita terra, bicho e planta. Meu avô, Seu Ciço, colhia acerola e siriguela, minha avó ainda não estava numa cadeira de rodas.

Depois, devido à violência, mudaram-se para Barro Vermelho, onde moraram com algumas tias minhas até falecerem. Foi nessa casa de Barro Vermelho que passei todas as manhãs, de segunda à sexta. Quando comecei a ler e escrever, na escola, queria vê-los lendo e escrevendo também, mas eles eram analfabetos, meu avô só sabia escrever o nome dele. Então decidi que eu tinha que dar aula pra eles. E assim foi, durante alguns anos. Acho que as aulas acabaram um pouco depois de o meu avô falecer, em 2009. De certa maneira, não era a mesma coisa sem ele.

Sobre despedidas

Em 2015, minha avó já com mais de 90 anos, mal de saúde, havia um clima de “despedida” na família. Os parentes vinham do interior para vê-la, para estar perto nesses momentos que, sabíamos, estavam perto do fim. Eu, já sem vovô, sentia uma dor aguda vendo Dona Egídia partir, e resolvi escrever, fotografar, desenhar. Então fiz o CARCAÇA (tem online, gratuito!), um fanzine para eles dois, e, de certa forma, também para aquela casa: os pássaros que moram por lá, as árvores, a escada, os muros de pedra, os azulejos antigos.

Nascimento da poesia

Minha poesia nasce da terra, das acerolas que meu avô colhia, das linhas na pele da minha avó. Essa história de uma família que vem do interior pra Natal está intimamente ligada à palavra, à educação, porque a educação foi o que permitiu essa mudança de cenário e também de pessoas, de rumos. Meus avós eram analfabetos. Eu faço Letras e escrevo poesia e sei que em cada passo tenho eles comigo.

Exercícios de escrita

  As oficinas de poesia que faço são guiadas pela ideia de que poesia não é para poucos. Tento tratar os exercícios de escrita como algo divertido, descontraído. Acho que a escrita requer seriedade e prazer. Escrever muito e depois selecionar uma coisa ou outra para compartilhar, que seja. Mas acho que escrever tem que ser o principal.

“Um jeito de estar no mundo”

Eu gosto da minha casa. Preciso do silêncio pra escrever. Anoto bastante na rua, na Ribeira, mas meu processo é em casa.

Leituras atuais

Tanta gente. Só pra citar alguns: Adelaide Ivánova, Adília Lopes, Carolina Maria de Jesus e Marcelino Freire.

Vozes femininas

A poesia feminina tem sido mais lida, mais ouvida e discutida. O que mais gosto de ler na poesia contemporânea são mulheres: Adelaide Ivánova, Angélica Freitas, Lubi Prates. Mulheres da nossa cidade: Marize Castro, Gessyka Santos, Anna Zêpa, Eveline Sin, Adélia Danieli, Marina Rabelo. Acho que estamos avançando, sim, e cheguei nessa luta agora. Aprendo com as que chegaram antes.

Hoje em dia, já sabemos que quatro homens brancos falando sobre poesia fornecem o olhar de quatro homens brancos falando sobre poesia - não é uma visão absoluta, não PODE ser a única. Como seria essa de poesia na fala de mulheres, negras e brancas? Como seria essa poesia na fala de pessoas da periferia? Como seria essa poesia na voz de LGBTs? Todas essas vozes precisam ser ouvidas.

Desejo

Meu maior desejo é ter mais gatos em casa é a resposta mais sincera.




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