Registro da resistência

Publicação: 2020-09-19 00:00:00
Tádzio França
Repórter

O congado de São Gonçalo do Amarante é um dos símbolos da cultura potiguar que resiste com ginga e identidade à passagem do tempo. Um registro dessa história centenária e popular foi traçado no documentário “Contos do Congo”, lançado esta semana no Youtube. O filme foi um dos materiais contemplados pelo edital Sesc Cultural ConVIDA!, que beneficiou 470 projetos de todo Brasil nos segmentos de música, artes cênicas e visuais, audiovisual, biblioteca/literatura e patrimônio cultural.

Créditos: DivulgaçãoGravado durante a pandemia, o filme relata como a comunidade de São Gonçalo se relaciona com seu próprio patrimônio imaterialGravado durante a pandemia, o filme relata como a comunidade de São Gonçalo se relaciona com seu próprio patrimônio imaterial

“Contos do Congo” é um filme de 30 minutos que conta uma história de séculos. O congo é uma prática africana que foi adaptada desde o Brasil colônia pelos escravizados e seus descendentes, reunindo elementos africanos, ibéricos e indígenas. São Gonçalo do Amarante foi o território potiguar onde os congos se firmaram com mais força. “O congado é um dos quatro maiores autos de cultura popular do RN, ao lado do Boi Calemba, do fandango, e do coco de roda”, afirma Gláucio ‘PeduBreu’ Teixeira, mestre de congo, diretor e um dos roteiristas do documentário.

Gravado durante a pandemia, o filme relata como a comunidade de São Gonçalo se relaciona com seu próprio patrimônio imaterial. “Não falamos apenas dos folguedos em si, mas também de nossas memórias e afetos. A gente quis lançar um olhar bastante humano sobre a história dessa cultura”, explica PeduBreu, ele mesmo, neto de um dos brincantes mais antigos da cidade.

Créditos: DivulgaçãoDocumentário aborda a musicalidade e os passos de dançaDocumentário aborda a musicalidade e os passos de dança

O documentário entremeia depoimentos de brincantes, registros de bailados, fotos antigas e novas. Aborda a musicalidade, os passos de dança, a herança africana, os corpos em movimento típicos das danças populares. No vídeo, há uma narração feita pelo próprio Gláucio, ligando as histórias que são contadas e atravessadas. Para tal, ele conta que quis assumir o papel de um ‘griot’, personagem da África ocidental que tem o papel de preservar e transmitir histórias, conhecimentos, canções e mitos de seu povo. Os griots podem ser músicos ou contadores de histórias.

As narrativas que atravessam o filme são de memória, atuação e identidade. “Eu também quis contar as histórias por trás dos brincantes. Eles também são estudantes, atores, palhaços, pessoas da comunidade. Eu conto como é manter esse cultura viva e também se manter dessa cultura, ainda mais num cenário hostil como o de hoje”, diz. Atualmente, o Congo de Calçolas de São Gonçalo conta com 20 integrantes.

Créditos: DivulgaçãoAs tradições do Congo são passadas de geração em geraçãoAs tradições do Congo são passadas de geração em geração

O congo é um trabalho de gerações. Gláucio conta que seu avô entrou no grupo aos oito anos de idade. Conta-se que foi o congado de São Gonçalo que o modernista Mário de Andrade viu quando esteve pelo Rio Grande do Norte entre o final de 1928 e começo de 1929. O congo da cidade também mantém uma relação antiga e estreita com a igreja católica através da Festa de São Benedito, realizada em outubro, na qual os brincantes fazem uma celebração à parte, com adoração, cortejo e agradecimento ao santo negro do século 16, seu padroeiro. A ‘congada a São Benedito’ é uma das grandes tradições da região.

“O documentário reforça o papel dos nossos ancestrais, a importância de quem veio antes de nós. Esse filme é só mais uma forma de manter o legado que eles construíram”, afirma o atual mestre de congo. Não se sabe a data exata de quando o congo começou a ser brincado em São Gonçalo, mas acredita-se que tenha começado no final do século XIX. O historiador Deífilo Gurgel o tornou visível em registros oficiais a partir da década de 70.

Créditos: DivulgaçãoMestre Lucas Teixeira e Sérvulo Teixeira dos Congos e BambelôMestre Lucas Teixeira e Sérvulo Teixeira dos Congos e Bambelô

Dança de reis e rainhas
O auto dramático dos Congos de Calçola de São Gonçalo do Amarante mostra por meio de mitos, danças, ritmos e oralidades, a beleza da cultura popular e suas influências na formação do povo brasileiro. A dança narra não só a história do rei e da rainha do congo e sua embaixada, mas descreve um conjunto de múltiplos valores como modos de conviver, cultuar e reviver a África e suas tradições.

Eles formam dois grupos: do Rei Congo e do embaixador da Rainha Ginga, o qual, por meio de diálogos, realiza as embaixadas. Figuram príncipes, ministros, o general da rainha e os figurantes com seus adornos multicoloridos que dançam e reproduzem o choque das armas conhecido como dança das espadas. Este entrecho dramático é precedido das mais variadas cantigas: dobrados guerreiros, benditos de igreja, louvações aos oragos da raça, ou santos padroeiros locais.

O auto é popular em todo o Brasil, tendo variantes, onde desaparece a rainha e figura sempre um embaixador, que luta e vence o rei local. Noutras regiões, o príncipe vencido e morto é ressuscitado pelo feiticeiro, e tudo acaba em dança e canto. 











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