Natal
Registro de armas aumenta 12.000%
Publicado: 00:00:00 - 06/08/2017 Atualizado: 10:36:03 - 05/08/2017
Ricardo Araújo
Repórter

Em uma década, o número de armas de fogo  registradas pela Polícia Federal no Rio Grande do Norte aumentou 12.312%. O estado saltou dos oito equipamentos consignados em 2006 para 993 uma década depois, com pico de 1.179 registros em 2015. O quantitativo de cidadãos comuns – pessoas físicas – que passaram a possuir uma arma de fogo em casa ou em qualquer outro endereço informado ao órgão federal foi maior, inclusive, que os registros  emitidos para empresas de segurança privada, órgãos de Segurança Pública, instituições públicas e lojas do segmento. Em período similar – 2005 a 2015 -, o estado vivenciou uma escalada na violência e se tornou o de maior variação na taxa de homicídios do país, com 232%, segundo Atlas da Violência 2017, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em junho deste ano.

A descrença na Segurança Pública é apontada por especialistas como a principal condicionante à “caçada pelas armas”. O resultado: mais armas em circulação e, na maioria das vezes, nas mãos de criminosos. “A sensação de insegurança é perceptível a partir das taxas de criminalidade que analisamos e a produção de noticias sobre a violência, evidencia o que sentimos. As pessoas buscam, com isso, meios de se sentir protegidas. Nós temos uma situação de desespero, de angústia e a sensação de que se os possuidores de armas se tornarão menos vulneráveis ao crime. Mas, o que acontece é o inverso”, analisou o sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Edmilson Lopes.
Alex Régis
O estado saltou dos oito equipamentos registrados em 2006 para 993 uma década depois

O estado saltou dos oito equipamentos registrados em 2006 para 993 uma década depois


O estado saltou dos oito equipamentos registrados em 2006 para 993 uma década depois

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Enquanto o número de armas em circulação aumentou, o quantitativo de armas apreendidas pelas Polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal no território do Rio Grande do Norte caiu nos últimos três anos e no primeiro semestre de 2017. A maior variação negativa ocorreu nas devoluções voluntárias de armas de fogo através da Campanha do Desarmamento, conforme expõem os dados tabulados pela Delegacia de Controle de Armas e Produtos Químicos da Polícia Federal no estado, a pedido da TRIBUNA DO NORTE (veja box). Na contramão, o volume de armas em posse de civis furtadas cresceu, passando a alimentar o mercado negro e as ações do tráfico de drogas, na maioria dos casos, e fomentando as cruéis estatísticas de assassinatos.

“Quanto mais armas circulando, mais armas estarão à disposição do crime. Há uma incapacidade do aparelho de Segurança do Estado brasileiro de eliminar o mercado negro. Eu temo que essa busca pelas armas legitime o contrabando. O desafio do Brasil é ter um controle maior das armas e do mercado negro”, declarou Edmilson Lopes. Os números, porém, não cresceram somente na busca pela posse ou porte de armas de fogo no Rio Grande do Norte. Somente no ano passado e numa modalidade considerada alternativa, a relativa aos Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CAC), o crescimento de registros foi de 185% conforme dados do Exército Brasileiro. Quase 21 mil autorizações foram emitidas em 2016 para pessoas listadas nas categorias acima.

Nos clubes e escolas de tiros, o número de pessoas interessadas em aprender a atirar também cresceu. “Há uma procura maior diante desse cenário de violência. O Estado não consegue cumprir a defesa do cidadão e ele busca meios alternativos. Ocorreu o aumento da criminalidade e a diminuição da sensação de segurança”, avaliou o mestre em Segurança Pública, Jorge Filho. Ele destacou, porém, que o problema não está naqueles que buscam o curso ou clubes de tiro. “A questão está do outro lado: de quem possui, de quem tem uma arma e não sabe usá-la. Essa falta de controle, sim, nos preocupa”, disse. Dados do IPEA, inclusos no Atlas da Violência 2017, apontam que  a cada 2% a mais de armas em circulação, há 1% a mais de mortes por armas de fogo. No Rio Grande do Norte, a teoria está se comprovando na prática, conforme dados tabulados pelo Observatório da Violência Letal Intencional (Obvio/RN).

Dados da Polícia Federal sobre armas no RN


A partir de 2010,  Grande do Norte aumenta significativamente o número de registro de armas de fogo para posse de civis. Em paralelo, assiste à diminuição das devoluções voluntárias dos equipamentos, colocando em xeque a efetividade da Campanha do Desarmamento. Veja abaixo a evolução dos números:

8 registros em 2006;
25 registros em 2007;
53  registros em 2008;
53  registros em 2009;
178  registros em 2010;
259  registros em 2011;
329  registros em 2012;
508  registros em 2013;

Desde 2014, a elevação dos registros e diminuição das devoluções e apreensões se acentua. Veja:

Ano 2014
860 novos registros de armas;
1.972 renovações de registros;
451 apreendidas pelas Polícias Civil, Militar, Federal e PRF;
198 furtadas de portadores de  posse;
78 devolvidas voluntariamente;
6 emissões de porte;

Ano 2015
1.181 novos registros de armas;
1.171 renovações de registros;
369 apreendidas pelas Polícias Civil, Militar, Federal e PRF;
198 furtadas de portadores de posse;
58 devolvidas voluntariamente;
9 emissões de porte;

Ano 2016
971 novos registros de armas;
1.024 renovações de registros;
340 apreendidas pelas Polícias Civil, Militar, Federal e PRF;
239 furtadas de portadores de  posse;
39 devolvidas voluntariamente;
6 emissões de porte;

Ano 2017*
679 novos registros de armas;
941 renovações de registros;
213 apreendidas pelas Polícias Civil, Militar, Federal e PRF;
173 furtadas de portadores de  posse;
29 devolvidas voluntariamente;
10 emissões de porte;

* De 1º/janeiro a 31/julho

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