Rubens Lemos Filho
Rei do Frasqueirão
Publicado: 00:00:00 - 20/10/2021 Atualizado: 22:14:43 - 19/10/2021
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Está coroado, pela eternidade, Wallyson Ricardo Maciel Monteiro, 33 anos de idade de Cristo, único e exclusivo Rei do Frasqueirão, abençoado pela sua nobre matriarca nos céus, Maria Lamas Farache. 

O ato, sem tintas nem folhas oficiosas de papel, é decisão libertária da torcida do ABC, reino onde Wallyson reluz em aumentativo futebol, eufóricos os seus súditos, pelas ordens e vitórias glorificadas, suadas e inspiradas na garra dos ancestrais centuriões. 

Wallyson carregou o ABC em seu corpo franzino de menino humilde de Macaíba, sua manjedoura encantada, nas imediações de Natal. 

O Mago, apelido de chofre, de terra batida e certeiro como somente os desabafos de arquibancada, é Mago da magreza original pobre reforçada pelas máquinas de fortalecer músculos e Mago de magia, encantamento, virada, imprevisível Mago. 

Assim que pisa o gramado do Frasqueirão, suas chuteiras o transformam em tapete verde de monarquia explosiva de amor.

 Wallyson dribla pelo pai de família que tem de escolher um entre dois filhos para pagar o ingresso do jogo mais importante de sua vida substituindo a outras partidas inenarráveis justamente porque nelas estava Wallyson a decretar a revolução dos anônimos. De pés descalços, sem camisa, bêbados para todo o sempre, amém. 

Jamais, para o redator que vai teclando sem a estratégia estética  da sequência textual nem preocupações estilísticas pedantes, haverá um jogador tão identificado com uma torcida quanto Wallyson é com a Frasqueira, os dois, se agasalhando, se abraçando, em quase-sexo pintado em preto e branco. 

Alberi, Danilo Menezes, Sérgio Alves, Marinho Apolônio, Silva, Dedé de Dora, Alexandre Mineiro, Reinaldo Aleluia, Jorginho que eu não vi, Odilon, Edson Capitão, Romildo, Ivan Terrível, Cocó, Claudinho, Joãozinho Danadinho, Robgol, Leonardo e outros capazes de preencher 600 colunas de jornal, são históricos e fulgurantes foram na arte de mover multidões.

 A diferença é que todos, sem exceção, cada um a seu modo e à sua época, chefiaram ou compuseram equipes de altíssimo padrão. Eis a diferença. Pelos atuais companheiros, se vê o heroísmo solitário de Wallyson. Ele está, não raro, só ou mal acompanhado. De gente capaz de lampejos , jogadas furtivas, passes e gols ocasionais, sem a regularidade exigida aos superiores, aos talentosos nativos e natos. 

Quando Wallyson nasceu, em 1988, o ABC sofria em período péssimo. Rato de arquibancada do Castelão(Machadão), vi e lamentei a desgraça dos amantes frustrados, jogadores horrendos do naipe de Carlos Alberto, ex-Flamengo, Mery, Salvador, ex-Atlético Mineiro, Wilsinho Xodó da Vovó, Anselmo, Carlos Alberto Garcia, Django, Alencar, vilões do trato à bola, fantasmas de fracassos tatuados na alma de esperança dos iludidos. 

Cheguei a ver o ABC apanhar de 5x0 do América, derrota vingada nove anos depois, em outros tempos, outros dias, outro time. Meus desprazeres amplificavam a paixão na vã expectativa de que na semana seguinte, o time iria se recuperar. Foram os anos finais da década de 1980, Wallyson de fralda, berreiro e, imagino, uma bola dividindo prestígio com a mamadeira. 

De tanto enfrentar jornadas desiguais, ainda molecote de 19 anos e tórax de professor de Sociologia, Wallyson criou casca de herói de faroeste. Seu semblante ganhou sombra e visão periférica de tiro, seu sorriso, algo de sarcástico de vingança, seus gols, guerrilhas vencidas no corpo a corpo ou no canhão disparado de longe. 

O ABC está na Série C porque tem Wallyson. Subiu para a B, em 2007, graças a ele, que já havia dado à massa um estadual perdido e festejado em impossíveis 5x2 no favoritíssimo América do genial Souza. Wallyson foi desenhando, mesmo indo e voltando ao ABC, a sua estátua invisível e movida pelos ventos do grafismo natural de Ponta Negra. 

Wallyson domina cada milímetro, gota d’água ou raio de sol no universo do Frasqueirão, onde seu império passeia na glória, mago e menino, de braços abertos, liderando um povo valente, vibrante e a gritar, pulmões em riste: “Sois, Rei, Sois Rei, Sois Rei!”. Um Rei capaz de chorar. De nobreza.

América 
A eliminação do América não deve alegrar ninguém. A sequência negativa demonstra que o clube precisa mudar, rasgar, sangrar, alterar sua forma de administração e comportamento elitista, esnobe, paternalista ou, em outro extremo, inconsequente e irresponsável. 

Culpa? Dos homens do América, dos homens de mando, não do técnico ou dos jogadores de um time medíocre. O jeito de gerir não pode ser o mesmo da Babilônia, a sede suntuosa, da qual sobraram minifúndios. Tampouco da histeria inconsequente dos irracionais. 

Está na hora de passar o rodo.  Serviços prestados? Ótimo, o passado já passou. Entrega o lugar a outro. A continuar assim, o América, que deu orgulho de ser, será mausoléu de fotos gloriosas e amareladas, momentos  que pedem naftalina : tudo é o que já foi. 

A Síndrome da Série D é  grave e corrosiva. Não é brincadeira nem comédia de birosca: é tragédia.  Arena das Dunas? Ilusão de riqueza. Né? Revoluções não começam com bombons. Muda ou nada sobra, América. 

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