Rei

Publicação: 2019-09-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
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O cantor Jackson do Pandeiro vem sendo homenageado nos 100 anos do seu nascimento. Bacana ver o reconhecimento de um raro talento da música popular de matriz nordestina emergir com a força de um acervo que atinge a ordem de 500 músicas. Fez rojão, frevo, forró, samba de latada, coco... E imprimia a incrível pegada da voz. Sempre modificando o andamento quando da repetição de estrofes ou versos. Nunca, jamais igual. Nisso é único. Afirmam estudiosos do assunto. Certa feita Elino Julião me disse que sua maior ligação era mesmo com Jackson que esteve em Natal e juntos se apresentaram cantando num programa de auditório da Rádio Poty. O paraibano o rebocou para o Rio de Janeiro. Foi o impulsionador da sua carreira solo uma vez que era ritmista acompanhando Luiz Gonzaga e outros craques. Na cidade maravilhosa Jackson o acolheu e lhe deu guarida. Igual atitude dispensou para a Rainha do Forró, a alagoana Clemilda.  Entre apresentações no Shopping Colombo, em Lisboa, Portugal, através do Projeto Nação Potiguar, batendo um rango num bar-quase-boteco Julião começou a tamborilar sobre a mesa e a cantar a “Bodega de Expedito”. Surpreso ouvia a expressão mais genuína da influência jaksoniana no compositor potiguar. Ali mesmo acertamos para gravar o que veio acontecer no CD Canto do Seridó II, sequência do primeiro dos quais fiz a direção artística.

Certa feita visitando o Museu Jackson do Pandeiro, em Alagoa Grande na companhia do presidente do Museu do Vaqueiro, Marcos Lopes, nos deparamos entre vários testemunhos materiais do acervo mas nos chamou a atenção os long plays de coletâneas regionais onde apareciam nas capas fotografias de Jackson, Elino Julião, Marinês, Jacinto Silva, Cel. Ludugero, Abdias, Trio Nordestino, João do Pife, Os 3 do Nordeste... Turma da pesada! Frequentemente tenho escutado a “Ema Gemeu” com Gilberto Gil, Zé Ramalho (acompanhado do conterrâneo Sivuca), Carlos Malta e Lenine. Também gravações sampleadas de Jackson com O Rappa, Paralamas do Sucesso, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Silvério Pessoa e Fernanda Abreu. E claro, Gal Costa cantando a clássica e definitiva gravação da música Sebastiana. Nada substituível quando se trata da interpretação do próprio JP fazendo as inconfundíveis viradas no pandeiro e as características performances vocálicas.

Dos anos de 1940 para cá quem não cresceu ouvindo o coco “Sebastiana"? E quem não sabe de cor e salteado o popular refrão ensinando os fonemas vogais A-E-I-O-U e mais o “ipisilone” na forma vulgar de se pronunciar o ípsilon, ipsilão, ípsilo ou úpsilon? É o nome da vigésima quinta letra do alfabeto latino, cujo símbolo (Y) tem formato d’um gancho de nossa conhecida baladeira. A arma comum de crianças em Alagoa Grande, cidade que ressignificou o pandeiro no seu pórtico de entrada para homenagear o filho ilustre. Lá se brincava portando baladeira e bornal como de resto acontecia em vários países trazendo denominações diversas. Aqui a baladeira se origina de similares vindos de África e Portugal.  A famosa composição de Rosil Cavalcanti na gravação de Jackson do Pandeiro (José Gomes Filho) ganhou o mundo. Sebastiana, traz a letra carregada de humor e fala de certo convite a mulher (Sebastiana) que entre três danças faz estardalhaço coreográfico quebrando a codificação corporal previsível. Uma delas era ‘diferente’: a dança saltitante do guariba, primata neotropical. As outras duas, conhecidas e nomeadas, é o Xaxado e Gafieira. No texto ele subverte o padrão linguístico esgoelando fonemas alfabéticos dentro e fora da gramática numa metalinguagem particularíssima. Diz em 12 versos: “Convidei a comadre Sebastiana / Pra cantar e xaxar na Paraíba / Ela veio com uma dança diferente / E pulava que só uma guariba / E gritava: a, e, i, o, u, y / Já cansada no meio da brincadeira / E dançando fora do compasso / Segurei Sebastiana pelo braço / E gritei, não faça sujeira / O xaxado esquentou na gafieira / E Sebastiana não deu mais fracasso / Mas gritava: a, e, i, o, u, ipisilone”. O Xaxado, dança masculina e guerreira do cangaço sobrepõe contaminando a Gafieira, dança do malandro carioca. No final dá liga e equilíbrio a cadência, ao compasso e a dinâmica corporal da convidada. Possibilita o conforto de sair do ‘fracasso’. Leituras e leituras. Quem segura a dançarina pelo braço está travestido no pronome “eu”. O ‘eu’ representando o Xaxado simbolizando a região Nordeste. A protagonista se ampara na terceira pessoa: Ela! Convocada Sebastiana personifica a Gafieira ou o Sudeste. Desafio de dançarinos no melhor do picaresco traduzindo peleja de tradições. Localistas. O bom e animado confronto, termina em interseções. Confluências tocadas no ritmo impactante em bases afro-íbero-indígenas. A largueza desse artista é tanta que não cabe na estreiteza de uns rabiscos caligráficos ou hipertextual. O alcance é vasto e ilimitado. Lida com elementos vários e no meio deles o imaginário. O onírico. O político. O social. O estético. Não é mole não. Bom é sentir esses elementos injetados na corrente sanguínea do cotidiano. Foi mais que emocionante assistir a Filarmônica da Polícia Militar da Paraíba no desfile cívico-militar do último 7 de Setembro. Desafiou o cânone. Tocou, coreografou e fez o público cantar e aplaudir nas ruas de João Pessoa emplacando e tocando repertório de Jackson: Ema Gemeu, Cabo Tenório, Sebastian, Tum Tum Tum... Que sacudidela e inovação! Muita agitação de sentimentos! O público fazendo o coro! Muitos vivas, bravos, valeus, Uhull!!!! O que mais? Alegrias. Congratulação e gratidão a corporação militar paraibana por iniciativa tão relevante. Nesses ciclos obscuros quando emergem  tentativas de se perpetrar atos ilegais contra a cultura brasileira manifestados por de setores reacionários é gratificante assistir a deliberação colaborativa de um governo em ato público para a fruição de um produto nacional identitário tipo exportação. Sim, medula & osso. "Na geleia geral brasileira, alguém tem que ser medula e osso" carimbou Torquato Neto. O preto Jackson do Pandeiro sintetiza ambos. Não esqueçamos que quando Gilberto Gil voltou alegre do exilio londrino, em 1972, gravou JP no seu primeiro disco o Expresso 2222, fruto de ideias cambiantes com José Carlos Capinam. Se autodeterminou a reatualizar a posição poética-irônica afirmativa contra o neocolonialismo americano. Manda o recado: “Eu só boto bebop no meu samba / Quando Tio Sam tocar um tamborim / Quando ele pegar / No pandeiro e no zabumba...

No universo da cultura popular a apropriação da oralidade é fato corriqueiro. Declamadores, cantadores trocam figurinhas sem disputas autorais. O Boi Tungão pertencente a este universo é cantarolado por Chico Antônio, o talentoso cantador de Cuité, Pedro Velho-RN. Sua voz explodia, no terreiro do Engenho Bom Jardim: “Íliô Tungão / boi do maiorá / Não é tão bonito o boi como é uma bóia / Eu chamava ele vinha / Valeroso venha a cá”. Chico mais que surpreendeu ao etnólogo paulista Mário de Andrade chegando a figurar como personagem de um de seus romances. Chico fez versão do coco em embolada acompanhado por pancadas de ganzás. Dele e de Paulírio seu parceiro. Anotou Andrade sobre o artista: “Não se perde uma palavra que nem faz pouco, ajoelhado pro "Boi Tungão", ganzá parado, gesticulando com as mãos doiradas, bem magras, contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por 10 minutos sem parar”. Jackson do Pandeiro sem informação acadêmica  bebeu em fontes diversas e sem saber do ”turista aprendiz” não deixou passar o refrão e gravou o Boi Tungão forrozeando:  O-lê, lê, lê, lê, lê, lê, lê, Boi Tungão / Eu chamava e o boi vinha, Boi Tungão / Na porteira do curral”. É temática mais metaforizada com escravismos de negros serviçais e memória banzeira. A criatividade permitiu a JP esses voos aferindo diálogos intertextuais e rítmicas dessemelhantes. Mais vigor impossível. O lance é não perder tempo e ouvir o Rei do




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