Relatório da primavera

Publicação: 2020-09-30 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Setembro já vai indo embora e entrega a primavera aos dias de outubro já que o calendário prometeu e não mandou até agora. Mas, deixou tardes muito azuis e, talvez por isso, tenha ficado mais fácil notar o silêncio dos ipês. Parece de tristeza. É que preparam as floradas amarelas e roxas da sagração que virá esses dias, ao perderem o verde exuberante, entre matizes e tonalidades agora mais esmaecidas, concentrando toda sua seiva para o belo e anônimo espetáculo das suas flores. 

Não diria que é uma primavera, tal como conhecemos nos cartões postais, principalmente nos jardins europeus. A Mata Atlântica tem seu jeito de ser primaveril, depois das grandes chuvas que espantam o calor dos morros. Os ipês vão ficando mais amarelos em árvores quase esquálidas e sem vida. Sei, nesses quarenta anos que vivo aqui, que esse silêncio é o belo mistério da grande véspera do que virá sob um sol suave e luminoso diante da colcha rendada das mangueiras em flor. 

É por isso que chego sempre a pensar no verso do poeta Ferreira Itajubá ao lamentar a solidão tristíssima dos morros. Teria sido ao olhar o retrato sem cor do inverno? Ou então, e tanto mais triste, na própria solidão do poeta que viu nos morros daquele vale branco, entre coqueiros, como cantou? Peço licença a Itajubá para dizer que se há nos morros a solidão tristíssima, nem assim eles são tristes o ano inteiro. Como a própria vida, eles morrem e renascem a cada tempo.

Depois, a cidade nem repara quando os seus morros preparam a primavera, se é de verdade ou não. Um belo dia, ainda em setembro, ou mais, explodem suavemente seus amarelos, aqui e ali, em contraste com o verde. E uns, mais rosados, se esgueiram magros e tímidos sob a teia farta das árvores maiores. Umas sustentam o verde exuberante. Um verde calado, sem flores, mas firme e viçoso. Outras árvores, encabuladas e sem flores, adejam sob o azul iluminado pelo sol verânico. 

O que faço, nesse ofício sem glória, é apenas avisar do silêncio que já cobre os morros, agora que o inverno passou e o calor amorna a vida com ternas mãos de amor. As noites ainda sentem o frio do resto dos ventos de agosto que chegam atrasados, depois de longas navegações sobre o mar. Amanhã, também dos lados do mar, virá o Vento Leste que encantava o poeta Gilberto Avelino nas tardes da sua infância que se perdia longe, no verde escuro e misterioso dos mangues. 

Ficam avisados, pois, os pouquíssimos leitores que acreditam na primavera dos morros. E nem precisam pedir atestado da meteorologia. Basta vê-la, salpicando aqui e ali as manhãs e as tardes. Na verdade, basta olhar de longe, das avenidas que passam ao largo. É a festa que nos resta depois de tão longos e tristes meses de uma peste que roubou a vida de muitos, e o gosto de viver de outros mais, num triste desencanto. Depois, no grande final, virá a florada lilás das sucupiras.  

SOL - Não deixa de ser iluminadora a ideia do deputado Gustavo Carvalho que obriga o governo a revelar todos os dados financeiros das obras nas licitações. O sol ilumina e a sociedade agradece.

CORAÇÃO - Tem um erro de formulação no slogan do candidato Kelps Lima. Quem tem ideias concretas as tem e realiza com o cérebro, não com o coração, território das metáforas e sonhos. 

MEMÓRIA - O professor e acadêmico João Batista Cabral fará a saudação à memória de Paulo Macedo em sessão dia 8 próximo, às 17h. Em seguida serão abertas as inscrições para a sucessão.

NOME -  O nome mais cotado para a vaga é do poeta e ensaísta Dácio Galvão. Editor, autor de vários livros e defendeu a sua tese de doutorado na UFRN sobre os poemas de Câmara Cascudo.

MAIS - Dácio une tradição e vanguarda. É filho de Hélio Galvão, acadêmico e autor da grande ‘História da Fortaleza da Barra do Rio Grande’ e um nome dos movimentos de vanguarda no RN. 

VIVA - São dez advogados, entre vivos e mortos na seleção do terceiro volume de depoimentos ao programa ‘Memória Viva’, da TV-U. Armando Holanda e Joventina Simões já tocam o livro.

CALMA - Mais dois restaurantes brasileiros ganham duas estrelas no Guia Michelin: ‘Ryo’, em São Paulo, e ‘Oteque’, no Rio. Calma! Logo sairá alguém do jet local já jantando nas suas mesas. 

ARARUNA - Parabéns para a Fundação José Augusto por ter apoiado a livre do Araruna que será levada ao ar hoje, 17. Mesmo antes da pandemia já vivia uma crise. É só sintonizar @ararunadança

LUTA - A Assembleia tem três candidatos a prefeito em Natal - Kelps Lima, Coronel Azevedo e Hermano Morais; e dois em Mossoró - o deputado Alysson Bezerra e a deputada Isolda Dantas, do PT, que começa a sofrer nas ruas da cidade os efeitos da reforma previdenciária que aprovou.

VOTOS - Os demais deputados lutam na defesa de suas bases que serão determinantes para uma renovação de mandatos em 2022. No meio do caminho, o debate em torno do orçamento estadual para 2021, com uma dúvida: quem será o relator? O nome escolhido poderá ser revelador do jogo.

ALIÁS - Ao longo dos próximos dias, sob o calor dos combates, a expectativa é saber quem será o herdeiro dos votos do presidente Jair Bolsonaro em Natal. Se o discurso militarizado do coronel Azevedo, que deixou o PSL; do Coronel Hélio, PRTB; ou se serão pulverizados contra a esquerda.   







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