Relatório do passeio

Publicação: 2021-01-17 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Aos domingos, sempre de manhã, e se não há nada urgente para fazer, passeio de carro pela cidade. Dirá vosmicê, Senhor Redator: é antigo. É, sou desse tempo. Um tio que tinha automóvel, não tão comum na família, alguns domingos levava sua mãe, a minha avó, para passear de carro. Naqueles anos, fazia sentido. A cidade era calma, começava em Areia Preta, o ponto mais distante, e ia até o Alecrim, sem falar nas Quintas que Sanderson Negreiros imaginava distante e profunda. 

Seria um cansado lugar comum dizer-se apenas que a cidade cresceu muito nessas últimas décadas. Na verdade, Natal é outra. A cidade antiga ficou nos longes de Santos Reis, Rocas, Ribeira e Cidade Alta, os traços de sua velha fisionomia. E um pouco do Alecrim, naquelas suas ruas numeradas que cercam o território democrático da feira que até hoje passa por cima de regras e se estira pelas ruas, avenidas e becos, como os braços de uma hidra gigante que teima em viver. 

Acho que são poucos, se é que ainda existem, os que passeiam pela cidade, como faço em alguns domingos. Gosto da minha cidade, se é da gente a cidade que se escolhe para viver. E com a vantagem de não ser dono de nada, esse jeito bom, único e legítimo de ser dono de tudo. Nada é meu no sentido das certidões passadas em cartório. Mas, é como se tivesse deixado em cada lugar que vivi um pouco da vida e até de algumas velhas árvores que teimam em resistir nos quintais.

O roteiro não muda muito, nem precisa ser criativo. Há na sua geografia física, escondida, uma doce geografia humana. É como se algumas ruas tivessem personagens vivos para sempre. Ninguém, modéstia à parte, tem olhos mais fiéis do que os meus para olhar e subir a Pinto Martins, ainda vendo as casas que desapareceram, substituídas por edifícios; as casinhas bem antigas, umas preguiçosas, escoradas nas outras, quase acocoradas, olhando o azul daquele mar quieto e antigo. 

Não há mais os jornais do Rio e São Paulo que chegavam nos aviões do domingo de manhã - Globo, Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo, Tribuna da Imprensa. Restam as quitandas no Tirol e Petrópolis e nelas o prêmio sem glória do perfume que recende das frutas acordando um tempo imenso de vida - cajus luminosos, abacaxis no azedume dos dias maduros, e o cheiro doce das jacas que para Nina Horta era como se fosse algo estranho e pré-histórico, uma fruta-dinossauro. 

A Natal de ontem, Senhor Redator, está agonizando. Suas casas antigas morreram e vivem nas ruínas só os fantasmas da memória. Não fosse o traçado do Plano Palumbo, da Natal de ontem, e tão íntima, nenhum sinal restaria. A não ser as torres humildes das igrejas antigas que ainda tocam os sinos anunciando as trindades da noite. Aliás, as igrejas modernas nascem sem sinos. É como se não mais acreditassem que a fé toca o coração humano, mesmo na vida de uma vila aldeã...  

ABSURDO - Os funcionários do Estado sentirão, a partir deste mês, a redução do valor líquido dos seus salários. Portanto, a dura injustiça da reforma da previdência contra os menores salários. 

ISENSÃO - A governadora Fátima Bezerra ao reduzir a isenção - era de até seis - para apenas 3,5 mínimos, impôs o desconto de 12% da previdência entre 3,5 e 6 mínimos que vai começar agora. 

MAIS - Entre seis e quinze mínimos o desconto a partir deste mês será de 15%; entre 15 e 30 mil reais pagarão 16% e salários acima de R$ 30 mil pagarão 18%. Todos, claro, sobre o valor bruto.  

JOGO - Ao aprovar por 21 votos contra dois a não fixação da faixa de 2O% para os vencimentos acima de R$ 45 mil - como existem! - a reforma acabou sendo forte só contra os menores salários.   

APOIO – O apoio determinante foi da Assembleia que derrotou a proposta de manutenção da faixa de isenção até seis mínimos. Quem manda na casa do povo é a elite, aliada, sempre, do poder. 

DESTINO - Ao governo do PT - em outros tempos tão heroico na defesa dos assalariados - restou o deplorável destino de proteger os grandes salários mesmo contra sua própria tradição. Arre égua! 

LUTA - Mano Targino só anotando o cio das matrizes de porco preto - casco de burro - da velha tradição ibérica. Quer recuperar a raça de suínos trazida por portugueses e espanhóis para o sertão.   

RESTO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando a vida nos dias longos de um silêncio em comunhão: “Há sempre um resto de amor, mesmo perdido, nas ruínas da solidão”. 

DECEPÇÃO - Não é à toa que nem ex-ministro Delfim Neto, um ortodoxo defensor da economia de livre mercado, consegue confiar no neoliberalismo do ministro Paulo Guedes, um falastrão que dois anos depois de sua posse não resolveu nenhum dos desafios que prometeu a Jair Bolsonaro.

FORTUNA - Sua última besteira, e está em meia página da Folha de S. Paulo, é condenar a ideia do imposto sobre grandes fortunas que irá a debate na Câmara Federal. Na cabeça dele, afugentaria os grandes investidores, mesmo que os especialistas defendam ser bom para reduzir desigualdades.  

ESTILO - O neoliberalismo de Paulo Guedes é aquele mesmo que não amplia a faixa de isenção do imposto de renda, gravando a partir de dois mil reais; não corrige a tabela do imposto de renda; aprova cinco mil demissões no Banco do Brasil e os nove aumentos do gás de cozinha em 2020.  





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