Relembrando

Publicação: 2019-09-06 00:00:00
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Dácio Galvão
daciogalvao@gmail.com

Numa conversa casual rememorei dois encontros pontuais com o artista plástico e escritor Newton Navarro. Fui indagado por uma colega de trabalho se o havia conhecido. Disse sim. Então narrei contatos marcantes desdobrados em conversas rápidas e de acertos retos. Num deles em dado momento o convidei para fazer uma exposição na Galeria Navarro, espaço que homenageava ele próprio, da Fundação Helio Galvão. Topou na hora. E ato contínuo providenciou com exclusividade a criação da arte exclusiva em preto e branco para compor o folder. Desenho em traços cheios de tourino contorcido. A programação visual foi executada pelo designer Marcelo Mariz e a impressão gráfica foi feita no RN Econômico, empresa de Marcelo e Fernando Fernandes. Tudo na modalidade apoio. Se a memória não me trai essa parece ter sido a última mostra individual que ele realizaria. Havia também a participação parceira da P&C de Grilo Junior e Ricardo Coelho, na animação gastronômica. Casa cheia, onde o artista marcou discreta presença. Sem muita demora, logo se retirou. Ponto e orgulho para a instituição que alinhavava performances alternativas nas suas exposições num aporte de obras diversas que iam das participações de Pedro Pereira, Marcellus Bob’s, Assis Marinho, Fernando Gurgel, Vicente Vitoriano até o mestre ceramista Manoel Eudócio do Alto do Moura de Caruaru, passando por Luzia Dantas, Ana Dantas e tantos mais.

Não houve badalação mas ficou impossível não reconhecer a grandeza da presença, a chancela ilustre daquele portador do traço modernista apurado se colocando, carimbando e legitimando as ações que ali vinham se desenvolvendo fermentando as artes visuais. Newton não era concessivo. Não havia outro motivo para aceitar o convite de expor suas criações inventivas que não fosse o de contribuir com o peso estético construído. Peso que detinha, e que fora constituído ao longo de anos numa militância artística permanente. Seu real interesse foi o de se inserir junto aos demais artistas, que por aquela Galeria (a Navarro), havia passado e contribuído para consolidar legado imaterial relevante.

De outra feita, creio que fui contatado antes ao telefone, e num dia inesperado quando me encontrava no confronto das tarefas cotidianas do trabalho na FHG eis que estaciona o Fusca. Acho que era verde. Há a incerteza da cor. É que sendo portador de daltonismo posso fazer trocas de matizes. Mas o fato é que era o artista e a mulher Salete, parando na casa sede da Avenida Campos Sales. Na calçada e na rua conversamos. Ele ia se deslocar para a praia da Barra de Maxaranguape e estava me disponibilizado dois preciosos trabalhos sem títulos: um surpreendentemente surrealista onde figurava o rosto de Walflan de Queiroz, poeta influenciado por Edgar Allan Poe, Rimbaud, Walt Whitman... E muito admirado por Sanderson Negreiros.  A arte datava de 1942(?) ou 1947. Tenho dúvida. O ano estava inscrito em grafite. Portanto, logo depois Navarro encamparia a primeira - antes tarde do que nunca! - exposição de Arte Moderna do estado do Rio Grande do Norte. Realizara junto com Ivon Rodrigues e Dorian Gray Caldas no ano de 1949. Trabalho raríssimo em técnica mista. O desenho e pintura indicava nanquim e aguada sobre papel. O plano fechado em Walflan mostrava na testa e na cabeça artérias sobressaltadas. Olhar estrábico, lábios grossos e olhos arregalados com fios de cabelos no lado direito nascendo do crâneo e não do couro cabeludo. Este, parecia escalpelado. Um Queiroz, de atmosfera atormentada. Ele que terminara seus últimos anos de vida internado e desestabilizado por crises esquizofrênicas. Imagem forte, impactante.

O outro, era um Vaqueiro Encourado. De um lado mostrando espora e estribo. Mão direita na rédea rude. Montado num cavalo, evocação remota dos de Picasso, cavalgando no equilíbrio de patas e cascaria sobre cactáceas e sutis rachaduras riscando o solo. Um sol vermelho se estampa fixado na frente à esquerda do chanfro do equino. É vermelho, mas não bate de chapa. Riscos e (des)proporções em suave estilo cubista. Uns. Outros em aplicação esperada. Previsível. Assinado e datando o ano da transação. De 1988. Tudo foi feito em papel canson francês. Esse quesito ele fez questão de frisar quando conversávamos em pé atrás do Fusca estacionado. Em compensação o gesto do artista, do escritor, sugeria a precisão de algum de dinheiro para colocar combustível no Volkswagen e seguir viagem rumo ao litoral norte. Era no meio da tarde. Jogo rápido. O diálogo tinha objetividade. Era direto. Ele precisava seguir. Para descansar, sentir o cheiro do mar, ver o mar, algas, pescadores...  Bate-papo cabendo bem encaixado os versos do Rei do Ritmo, Jackson do Pandeiro: “Sou cabeça feita / Não jogo conversa fora / Se o papo é legal / eu fico / Se não serve, / vou-me embora”. Tinha um mínimo de grana no meu bolso. Expliquei do pouco quantitativo que dispunha. Saquei e lhe entreguei. Se despediu entrou no carro e partiu. E aí se instalou também o silêncio entre nós. Daí em diante não mais dialogamos. Faleceu três anos depois.

As lembranças de NN mais remotas chegam de imagens que guardei ainda criança. Meu irmão Hilton, de heterônimos Baita, Tinho, Itinho costumava tomar cerveja na Confeitaria Colombo, do português Olívio situada na Rua João Pessoa. Ele me levava para comer chocolate Sonho de Valsa. Era mesmo um sonho. E de sofisticada onda boêmia. Visualizava sempre o homem trôpego de tanta curtição. Amparado por braços amigos. Nunca entendi direito porque aquelas cenas envolvendo Navarro me são nítidas até hoje! No mais do tempo o enxergava aqui, ou acolá. Em trânsito. E o guardei sempre a distância. Já adulto, noutras paradas o sacava quase sempre em latitude de sobriedade.

Enfrentando circunstâncias de “falta de bala” vendi “O Walflan” a troco de bananas. Mas estava precisando de potássio e... Vendi. Verdade que não me dei conta da importância do aceno desinteressado e grandioso do autor me presenteando as artes. E do altíssimo valor imaterial das próprias obras. Senão, não teria passado adiante. Claro! Soube depois imprecisamente que estaria em boas mãos. No acervo do Dr. Olímpio Maciel. Torço por essa possibilidade.

O do Vaqueiro Encourado, cavalo de eco picassiano está comigo. O tenho e zelo e olho e viajo. Traduz a atitude. Dele, do autor. Olho, recepciono e impulsiono o código. Na sala onde se multiplica junto a uns “Abrahans Palatniks” verte a minha recíproca. Eis a troca estabelecida. A sobra. A pactuação silenciosa. Exaltemos, pois, para sempre a arte de Newton Navarro.     





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