Remédio na pandemia

Publicação: 2020-05-20 00:00:00
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Créditos: Marcello Casal Jr./Agência Brasil


Quase todo dia nos falamos ao telefone. Descobri que telefonar é beatificado remédio para o confinamento do Coronavírus. Minha relação com o professor e doutor em mais ou menos  quinze especializações, Sérgio Trindade, começou há 35 anos, antes até de estudarmos na Escola Técnica Federal(ETFRN), então um ambiente livre das doutrinações ideológicas de esquerda. A ETFRN nos idos das batas puídas não era apêndice de partido algum. 

Eu e Sérgio nunca divergimos ou brigamos, em tempo nenhum houve confusão. Torcemos pelos mesmos times, se é que o Clube de Regatas Vasco da Gama assim ainda pode ser chamado. 

Sérgio é minha antítese. É calmo, sofre sem explodir. Meu pavio é do tamanho da cabeça de um alfinete e já foi bem pior. Porradas da vida ensinaram que guerra não se ganha exatamente no combate. 

Vivemos, ambos lisos, uma adolescência prosaica, eu visitando à casa dele em Mirassol, Zona Sul de Natal, onde vi uma senhora geração de craques à margem de ABC e América, o maior, entre todos , Henrique Eduardo, o Henrique Pai, espetacular salonista, futebolista e jogador de vôlei e basquete. 

Liderava com Leto, fora de série do profissional do Alecrim junto com Gilmar, que nem sei se ainda cuida das categorias de base do ABC. É muito bom caráter, é bem possível ter sido demitido. 

Havia ainda Eridan, cópia do ídolo Marinho Apolônio, Sanderes, filho de seu Natércio, histórico missivista da cidade, Adriano Didica, Luciano Cocão, Mauro e Dido. Do Tirol levava outro monstro: o seridoense Flávio Tércio, driblador serial. Em forma e em onze, surrariam impiedosamente ABC e América. Quem viu a todos vai me dar razão. O próprio Sérgio pegava direitinho no gol e era zagueiro competente. 
Quando nos telefonamos, a proporção é de 8 ligações minhas para quatro de Sérgio, que guarda desde menino sambudo uma jararaca no bolso. Falamos horas sobre o passado, o presente e a dupla incerteza do que será o futuro. Nossas angústias, nossos filhos. 

Inventamos gozações especialmente com Henrique Pai, por carinho imenso e ciúmes pela incompetência naquilo que ele dominava sem qualquer esforço. Rei da Zona Sul dos anos 1980, marcava de voleio, de calcanhar, cabeceava certeiro e traçava as melhores meninas. 
Naquele tempo inexistia a histeria das feministas ensovacadas com pelos saindo das camisas. Imagino o cheiro. Entre feminismo e feminino, cravávamos  no segundo. Foi gata, foi bonita, era disputada. Foi feia, assistia novela para sonhar com Fábio Júnior, o galã da época. 

Na pandemia, eu e Sérgio costumamos fazer quiz. “Escala o Bangú campeão de 1966?”. Penso e devolvo: Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luiz Alberto e Ari Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira e Aladim. 

Na minha vez, tento uma armadilha: “Quem foi o volante bicampeão pelo Alecrim em 1985 e 1986? Sérgio vem dominando no peito antes de tocar com cinismo: Em 1985 jogava Carlos Alberto e em 1986 era Doca, ambos com Didi Duarte, Edmo e Odilon completando o quadrado. 

Ele sabe me irritar dizendo que Geovani do Vasco “não era essas coisas todas”, reajo aos palavrões. Sérgio é tanto ou mais admirador de Geovani do que eu. 

Moral da história. O telefone é um remédio no isolamento social. Sorte minha que tenho um irmão fraterno para tabelar. Ligue, até para saber se o amigo é mesmo amigo. Vou terminando o texto , afinal tenho umas arapucas para Sérgio cair amanhã. O pior é que ele é cascudo, cabreiro, malandro velho. Só dá empate em nosso duelo. Abençoado debate contra o tédio. 

América A julgar pelo Twitter, o presidente do América, Leonardo Bezerra, anda mais animado que a semana passada, quando andava aflito pelo prejuízo superior a 100 mil reais no balancete mensal. O América quer chegar apertado, mas em condições de formar um bom time na Série D. 

Economia 
O ABC deve à sua torcida e à opinião pública, o quanto foi economizado com a demissão de servidores, em boa parte, humildes. Atingir os fracos não condiz com as tradições do clube, que só vive porque existe uma entidade formada por pobres: a Frasqueira. 

Treino Virtual 
O Fluminense(RJ) inovou e está fazendo treinos virtuais, com os jogadores executando as ordens da comissão técnica. Fluminense e Botafogo não aceitam voltar aos campeonatos até que seja erradicada de uma vez a pandemia do Coronavírus. 

Voo 
O Sport está com seu elenco à venda para rechear o cofre vazio pelo Covid-19. O zagueiro Adryelson deve ir para o Atalanta da Itália. 

Eternidade 
No dia 20 de maio de 1973, o ABC vencia o América de virada por 2x1 e conquistava o primeiro turno do campeonato estadual. Afonsinho fez 1x0 América. Moraes empatou e Jailson virou para 38.920 torcedores do assassinado Castelão(Machadão) 

Timaços 
O alvinegro venceu com Erivan; Sabará, Edson, Quelé e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi(Jailson); Libânio, Jorge Demolidor e Moraes(Soares). Técnico: Danilo Alvim. América: Ubirajara; Chico, Cláudio, Osvaldão e Cosme; Afonsinho, Nunes e Washington(Gonçalves); Almir(Bagadão ), Santa Cruz e Gilson Porto. Técnico: Maurílio José, o Velha.