Remendos da política

Publicação: 2020-10-18 00:00:00
Woden Madruga
[ woden@tribunadonorte.com.br ]

De volta à gaveta dos papéis desarrumados encontrei esta semana, num envelopão já com as marcas do tempo, algumas cartas, bilhetes e cartões postais (saudades dos cartões postais, começando pelo seu colorido) datados da década de 1970, lá se vão 50 anos quase. Tem de tudo: de política a literatura, passando por futebol e outras vitrines.  No capítulo “política”, os emissários foram o advogado Manoel Varela e o deputado Moacyr Duarte. Os motes ali abordados, em 1974 e 1978, não diferem muito da pauta dos dias de hoje da política brasileira, pátria mal-amada.

Doutor Manoel Varela de Albuquerque (1900/1990) foi advogado e político. Candidatou-se ao Governo do Estado em 1950, sendo derrotado por Dix-sept Rosado, mas era deputado estadual. Foi professor de Economia Política da Faculdade de Direito de Natal, derna de sua fundação, presidente da OAB e procurador da República (escritório montado no primeiro andar do prédio da Associação Comercial, no tempo que a Ribeira vivia ainda o seu auge. A redação da Tribuna do Norte, porta aberta para a avenida Tavares de Lira, ficava uns 80 metros de distância.

A sua carta está escrita assim:

“Natal 04 de outubro de 1978

Caro amigo Woden Madruga:

Surpreendido, li, hoje, na coluna de sua responsabilidade, na TRIBUNA DO NORTE, a afirmativa de que teria sido redigida por mim a representação apresentada ao Egrégio Tribunal Regional Eleitoral, apresentada pelo Deputado Wanderley Mariz, contra o ex-Governador Aluísio Alves.

Apresso-me em encarecer ao prezado amigo a gentileza de desmentir, formalmente, a notícia veiculada. É que nosso Escritório vem prestando assistência jurídica à ARENA, neste Estado, há muito tempo, não podendo, de modo algum, cometer eu tamanha deslealdade, tendo em vista também que defendemos a reeleição do Senador Jessé Freire, de quem somos amigos, de longa data.

Certo de ser atendido, antecipo agradecimentos, firmando-me, cordialmente.

Manoel Varela”

A praxe legislativa

A carta de Moacyr Duarte (1924/1997), datilografada em papel timbrado da Assembleia Legislativa do Estado, na qual era o líder do Governo e da bancada da Arena, está escrita assim:

“Natal, 19, março, 74

Prezado Woden,

Você continua errando com relação aos fatos da Assembleia.

Em todas as legislaturas anteriores – de 1947 a 1970 – a Oposição jamais exerceu a presidência de qualquer Comissão Técnica. Logo, simplesmente porque obteve esse privilégio no período de 1971/73, graças à liberalidade da bancada situacionista, isso não pode tomar feição de ‘praxe’. Sobretudo de “praxe adotada em todas as Casas legislativas do mundo”. É muita praxe e muito mundo.

Obrigado por se interessar pela minha saúde. A úlcera vai mal. Ao reverso, eu vou vem. E é só.

Cordialmente,

Deputado Moacyr Duarte”.

Ritual Umbandista

A terceira carta é do educador, jornalista e escritor Sérgio Santiago (1900/1995), figura marcante na educação potiguar, exercendo por muitos anos o cargo de Inspetor de Ensino do Atheneu Norte-Rio-Grandense. Foi colaborador da Tribuna do Norte, autor de vários livros. A sua carta, datada de 4 de setembro de 1976, fala sobre um desses livros:

“Prezado Woden

Em 1971, esteve um mês hospedada em nossa casa a norte-americana, “Voluntária da Paz”, Teresa Briones, professora universitária, residente em Los Angeles, Califórnia.

Agora, no dia 28 de agosto fido, Teresa passando por Natal, em viagem de turismo, veio visitar-nos, e na ocasião me pediu um exemplar do meu livro “O RITUAL UMBANDISTA, e a necessária autorização para traduzi-lo para o inglês.

Considero, amigo, a tradução do meu trabalho na América do Norte, não só sum valioso prêmio para este modesto escrevinhador da província, mas, uma honra para o Estado.

É, ou não é, isto motivo de contentamento para mim?

Agradeço, mais uma vez, se V. der, a respeito, uma

 notinha na sua Coluna.

Um abraço de

Sérgio Santiago”.

ABC grego

Em 1973 o ABC Futebol Clube fez uma excursão à Europa, Ásia e África (de agosto a novembro, mais de 100 dias, 24 jogos). Acompanhou a excursão o jornalista Celso Martineli, narrador e comentarista da Rádio Cabugi, que revolucionou o rádio jornalismo esportivo potiguar. Acrescente-se o seu sotaque mineiro-minerim. É dele o cartão postal me enviado de Atenas (No primeiro plano, a University Avenue) contando um pouco dessa história:

“Alô, Woden

Estamos em Atenas, uma cidade onde o passado contrasta com o presente: ruas largas, limpas, tráfego impecável, muito movimento. Monumentos históricos por toda a cidade, cuidados com esmero e carinho.

Tudo bem por aqui, menos com o ABC. Sem patriotada, o time está jogando bem, mas levando muito azar. Só jogou contra o Manissa, mas nesse jogo o time estava cansado da maratona da noite anterior contra o Altaye.

Os jornais de hoje aqui em Atenas, dizem que o ABC é o time que melhor se apresentou por aqui nos últimos tempos (do Brasil, obviamente); melhor que o Guarani (que ganhou), melhor que o Internacional e melhor até que o Nacional de Montevidéu. Espero que a coisa melhore.

Um abração,

Celso – 02/09/73”.