Reminiscências da escravidão no Vale do Ceará-Mirim

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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Gerinaldo Moura da Silva
[Sócio do IHGRN ]

O processo de produção do espaço rural no município de Ceará-Mirim ocorreu desde o início de sua formação histórica como elemento transformador da fisionomia do seu território através da cultura canavieira que imprimiu na economia e na sociedade ceará-mirinense marcas de uma nobreza poderosa, influenciando a todos de diferentes camadas sociais com suas histórias. 

A esfera rural do vale do Ceará-Mirim foi passando por grandes mudanças, e guardou na memória do povo as histórias das sinhás, dos barões e dos senhores, e a história dos castigos que eram aplicados aos negros escravizados bem como da convivência fraternal que eram narrados constantemente.

Enquanto que a classe dominante detentora do poder conseguia registrar suas histórias através de poemas, memórias, crônicas ou diários, falando de como tratavam os escravizados de maneira branda, sem rigor nem exigências que levassem à exaustão, como se reinasse um clima familiar e sem separação ou discriminação, as pessoas do povo, os descendentes dos escravos, os libertos e aqueles que não faziam parte dos alpendres da casa grande, registraram o outro lado do trabalho escravo tentando perpetuar através das narrativas, os castigos e sofrimentos onde as cantigas, as lendas e estórias contadas de pais para filhos, moldando-se muitas vezes de acordo com o engenho em que a lenda surgia e corriam léguas, principalmente ao redor de fogueiras, ou nas conversas.  

 Geralmente, essas lendas eram contadas nas senzalas e no campo e se espalhavam através da oralidade sofrendo as modificações e intervenções que são peculiares à verbalização, sem registro escrito. Registrar algumas memórias na forma de lendas foi uma alternativa encontrada para perpetuar acontecimentos que passaram despercebidos, muitos de forma involuntária outros não, relegaram a segundo plano ou até mesmo ao esquecimento a história de vida de um grupo ou de um povo que foi discriminado e tratado como objeto em casas-grandes e engenhos, senzalas e fazendas. Lembranças de uma época em que se tentava apresentar a escravidão como algo inexistente, pelo fato de em alguns poucos lugares, não existirem os castigos. Madalena Antunes, em “Oiteiro – Memórias de uma Sinhá Moça”, descreve a convivência  amigável, familiar e sem castigos
Porém, outros autores procuraram mostrar a outra face da história, mesmo pertencendo à classe aristocrata, como é o caso de Nilo Pereira, no seu livro “Imagens do Ceará-Mirim”, sob a forma de uma crítica amena ao romance “Oiteiro” de sua prima Madalena Antunes, por ela relatar apenas fatos suaves e cordiais entre senhores e escravos. Isso como memórias de sua infância. Ela conviveu pouco tempo com a escravaria, tendo em vista ter nove anos de idade quando foi assinada a Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

O Vale do Ceará-Mirim era povoado por dezenas de engenhos construídos a partir da implantação da primeira fábrica de produção de açúcar – o Engenho Carnaubal. Hoje o que vemos é um desfile de ruínas, casarões e engenhos sendo destruidos pela ação do tempo e pelo descaso, impedindo a simples visita a um local onde outrora havia vida, alegria, tristeza, castigos, choro de famílias. Esses engenhos e casarões abandonados, ainda mostram marcas da presença de pessoas e momentos de glória e de tristeza, de riqueza e de pobreza.

É pois nesse telúrico cenário reconstituído do velho Ceará-Mirim que temos a certeza de que o vale é mais que lendário, onde tradições aristocráticas se sobressaem confundindo o seu sentido espiritual e humano em que a tradição rural ganhou vida nos engenhos, construindo um fecundo e misterioso vale.