Renan Dal Zotto: ‘Temos de observar tudo que ocorre no Brasil em termos de voleibol’

Publicação: 2020-10-18 01:00:00
Vicente Estevam
Repórter de Esportes


O técnico da Seleção Brasileira de Vôlei, Renan Dal Zotto, de passagem por Natal, onde veio acompanhar o grupo nordestino da Superliga C, concedeu entrevista à TRIBUNA do NORTE e falou dos planos para tentar levar o país novamente ao pódio na Olimpíada de Tóquio. Entre outros temas revelou que pretende montar um grupo bem reduzido para representar o país nas competições internacionais e, acredita, que a equipe nacional deverá chegar muito bem preparada ao Japão. Com relação a observação feita nos jogos realizados na capital potiguar, Renan classificou como importante um treinador da seleção estar atento ao que ocorre no Brasil, em termos de voleibol. Ele disse que, como no futebol, anualmente revelamos diversos talentos para o vôlei e que todos que hoje entram em quadra para vestir e defender a camisa verde e amarela, já passaram por competições de base antes. Por sinal, o comandante brasileiro acredita que é esse tipo de trabalho, pensando na renovação dos quadros e em se manter competitivo no futuro, que faz a seleção brasileira, na categoria masculino, estar há 17 anos na primeira colocação do ranking mundial. O treinador também citou a jogadora Virna, revelada nos Jogos Escolares do RN, como um dos grandes motivos para não se perder o contato realizado com os estados, alertando que o talento pode brotar em qualquer parte. Como atleta, Renan foi um dos maiores talentos do esporte nas décadas de 1980 e 1990, alcançando sucesso absoluto em quadras defendendo a Seleção Brasileira e clubes nacionais e italianos.

Créditos: Alex RégisTreinador da Seleção, Renan Dal Zotto acredita que o esporte precisa ser avaliado em nível nacional, apesar das dificuldades no PaísTreinador da Seleção, Renan Dal Zotto acredita que o esporte precisa ser avaliado em nível nacional, apesar das dificuldades no País


Que nível de prejuízo técnico o vôlei brasileiro e mundial teve com essa paralisação devido a Covid-19?
Infelizmente estamos vivendo um momento bastante delicado, mas o importante é que já estamos em um processo de retomada das competições estaduais, da Superliga C que está se desenvolvendo e, brevemente, iremos recomeçar as Superliga A e B, bem como a Super Copa. Então o mais importante é que as coisas estão entrando no caminho normal, esse é um ponto interessante na vida de um atleta, que volta a ter a chance não apenas de treinar, ele volta a competir também. Lamentável mesmo foi o cancelamento de todas as competições internacionais, inclusive os Jogos Olímpicos. Tudo isso ficará para 2021 e neste momento meu papel, como comandante da Seleção Brasileira, é acompanhar as competições que estão ocorrendo, tanto dentro do nosso país quanto fora. Tenho de ver ainda alguns atletas que estão atuando na Europa para poder ter uma visão ideia mais clara de formação de um grupo e poder tomar as melhores decisões em se tratando das primeiras convocações para nossa seleção.

Vocês normalmente planejam um ciclo olímpico com quatro anos. Esse ciclo sendo interrompido da forma como foi, vai gerar um prejuízo muito grande a esse tipo de planejamento?

Acredito que em se tratando do voleibol não, pois todos terão tempo suficiente para se recuperar desse período. Teremos tempo hábil para nos prepararmos da melhor maneira possível. Se não tivéssemos esse tempo, poderia sim comprometer o nível técnico da competição nas Olimpíadas de Tóquio. No nosso esporte, os principais campeonatos na Europa e no continente asiático já tiveram início, na América do Sul idem, então acredito que os atletas terão tempo suficiente para realizar uma boa preparação no intuito de disputar em os seus campeonatos nacionais e depois as competições internacionais programadas para 2021.

Temos basicamente um ano, que deve ser bem corrido, até as Olimpíadas e com competições acumuladas. Então vai dar para chegar com elenco inteiro em Tóquio sem a necessidade de rodar muito esse grupo?

Claro que tivemos de repensar o planejamento inicial, porque o ano passado seria uma temporada mais longa, com o pessoal vindo ainda de outras competições para disputar a Olimpíada. Agora temos de levar em conta que os atletas vêm de uma paralisação muito grande, eles passaram meses sem atuar, um ambiente que não é normal no mundo dos esportes. Por esse motivo decidimos que não teremos um grupo muito extenso na temporada, o número de atletas na seleção será mais restrito, porém com todos em condições de entrar na equipe e jogar a qualquer momento. Esse ano o trabalho de observação para garimpar os jogadores nas melhores condições, acredito que será fundamental.

Como está esse seu trabalho de observação para seleção brasileira. Você tem visto novos atletas e pretende mudar muito o grupo pensando em 2021?
O voleibol, como é o futebol no Brasil, sempre revela bons jogadores. Esse adiamento dos Jogos Olímpicos, na minha ótica, abre um espaço maior para observação desses novos atletas, mas também não posso negar que na minha cabeça eu possuo aquele que podemos chamar de núcleo duro da nossa seleção, formado por atletas que estão vindo conosco praticamente o trabalho inteiro. Esse núcleo, eu imagino que seja o ideal, mas ressalto que o ele estará sempre aberto as boas revelações que estão surgindo. Aqui todo ano surgem jogadores interessantes, mas em se tratando de um ano de disputa olímpica, temos de convocar não apenas aquele que possui potencial, mas, acima de tudo, teremos de levar aquele que consideramos ter condições de enfrentar a batalha olímpica travada no voleibol. O ponto mais importante é que todos saibam que o grupo da seleção é aberto para jovens que estão surgindo e também os atletas que provaram se sentir bem com a camisa da seleção brasileira.

Você possui um arsenal de atletas de muita qualidade, o que é mais difícil na vida de um técnico da nossa seleção, definir um grupo limitado de atletas?

Temos antes dos Jogos Olímpicos uma Liga das Nações, que é uma competição extensa, com bastante deslocamento. É nessa competição que termos condições de observar melhor os nossos jogadores, servirá também para dar experiência aos mais jovens daquele nosso núcleo. Vamos entrar na disputa com ambição de vencer, mas visando sempre chegar com o melhor grupo possível na Olimpíada. É lá que fechamos o nosso ciclo, continua sendo uma competição de extrema importância para o vôlei. Ter de escolher 16 ou 20 jogadores nessa gama de talentos que dispomos no Brasil é realmente uma tarefa bem complicada para um técnico. Para os Jogos de Tóquio serão apenas doze jogadores, o que complica ainda mais a situação. Eu procuro sempre estar muito tranquilo e oferecer aos selecionáveis, as melhores condições possíveis para que todos possam dar o seu melhor e levar o técnico a realizar aquela que seria a melhor escolha.

Um treinador de seleção que possui acesso a nata do voleibol nacional e mundial, vem a Natal procurar ver o quê numa disputa de Superliga C?

O vôlei tem uma característica importante há muitas décadas e, talvez por isso, esse esporte no Brasil seja tão vencedor. Na categoria masculina, há 17 anos somos o primeiro do ranking mundial justamente porque nos preocupamos com todo o espectro de nossas competições. Nós buscamos pódio, mas também pensamos na longevidade, na manutenção desse alto padrão no futuro próximo, mesmo com a renovação do nosso selecionado. Então competições desse tipo que ocorreu aqui em Natal são tidas como um bom campo de observação. Vimos aqui jogadores que, se não terão condições de ser usados de imediato, certamente terão potencial para representar o Brasil na Olimpíada da França. É aqui que iniciamos a avaliação do potencial de nossos atletas, procuramos ver o desenvolvimento, aquilo que está ocorrendo dentro do nosso país. O Brasil é muito grande, temos de tentar estar onde está ocorrendo o voleibol para que possamos mapear tudo aquilo que temos de valor na questão, não apenas de atletas, como também de inovações técnicas na quadra. Apenas dessa forma iremos conseguir realizar um bom trabalho, achei muito bom vir a Natal pois sabemos que aqueles que compõem a seleção principal hoje, antes, passaram por torneios como esses da Superliga C. O grande exemplo para os potiguares é a jogadora Virna, que defendeu o nosso selecionado durante anos e foi revelada nos Jogos Escolares do RN. Então essa é uma cadeia de crescimento muito importante, iniciando pelas divisões menores, tendo a oportunidade de trocar experiência com colegas vindos de várias partes. No esporte é preciso estar sempre aberto para procurar conhecer e entender aquilo que ocorre no Brasil.

Existe um aspecto no vôlei moderno que chama a atenção. Nós não vemos mais equipes como as do Brasil e da Itália, que dominaram o cenário mundial por muitos anos seguidos. O que vem ocorrendo Renan?

É questão de filosofia e metodologia de trabalho. Brasil e Itália acreditam em determinados fundamentos e conseguiram se manter praticando um voleibol de muita qualidade durante uma década, dominando tudo. Hoje existem seleções com muita qualidade que ainda conseguem manter um determinado tipo de hegemonia, outras surgem, conquistam grandes resultados e depois não conseguem manter o mesmo padrão. Isso talvez ocorra pela dificuldade de renovação existente dentro daquele país específico. Mas a meta de sempre tentar bons resultados no cenário mundial, viver um presente competitivo, mas sem descuidar do futuro, é uma receitinha bem brasileira, fruto de muito mérito dos profissionais que estão a frente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV).

Com essa interrupção provocada pela Covid-19, se tem como apontar favoritos ao pódio Olímpico?

Hoje nos temos um rol de seis a sete seleções em plenas condições de chegar ao pódio e ao ouro olímpico. Entre essas podemos nominar França, Itália, Polônia, Rússia, Estados Unidos, Brasil e Argentina. Nessa lista não podemos esquecer de falar no Irã, onde o voleibol teve um crescimento grande e eles conseguiram montar uma grande seleção. Inclua também o Canadá e o Japão, que será a sede dos Jogos. São vários países brigando por três vagas, de minha parte, posso garantir que o Brasil chegará a Tóquio numa condição muito boa, iremos dar o nosso melhor e, se formos merecedores, certamente iremos em busca de mais uma medalha. Nossa seleção vai forte para os Jogos Olímpicos.