Renata de Mello Franco, do Ibre/FGV: 'Há um descompasso entre produção e oferta'

Publicação: 2020-10-24 00:00:00
Por que falta matéria-prima?
A crise do coronavírus foi diferente das anteriores, por causa da necessidade de fechamento das fábricas. A reabertura ocorre em etapas e, com isso, há um descompasso entre produção e oferta Até porque a oferta não diminuiu tanto assim, principalmente em alimentos e bens intermediários.

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A retomada foi mais rápida do que a indústria previa?
Sim. Há muitas indústrias que estão com estoques baixos. Mas é bom lembrar que a recuperação está sendo desigual. Há setores que já recuperaram perdas da pandemia e outros com dificuldades em voltar, como o de veículos automotores. Os que estão melhor demandam insumos e isso pressiona toda uma cadeia. Por exemplo, para fornecer para a indústria de alimentos, a indústria de embalagem demanda a indústria química por plástico. Quando falta algum produto no elo, há descompasso na cadeia produtiva de vários segmentos.

A alta de preços dos insumos é resultado desse descompasso?
Certamente tem a ver com isso, mas nossa indústria de produtos intermediários é bastante integrada com o mercado externo, tem importação e exportação. Quando se tem o dólar desvalorizado aumenta o custo das importações e isso encarece os custos de quem importa e de quem utiliza o bem em produtos finais. Além disso, a exportação fica atraente. Também tem de levar em conta que os preços das commodities no mercado externo estão bastante favoráveis.

Qual o impacto na inflação?
O que vimos recentemente é que os preços do atacado subiram mais que os do varejo. Na pandemia as empresas tiveram queda de receita e em algum momento vão precisar recuperar caixa e isso vai impactar o nível de preços. Mas quanto vão conseguir repassar ao consumidor vai depender da recuperação da economia, que ainda está bastante deprimida. Talvez o repasse não seja tão forte porque o mercado de trabalho e a renda vão demorar a se recompor, principalmente com o fim do auxílio emergencial.

Essa situação vai se manter?
É possível que nos próximos meses a indústria consiga se recompor e se reorganizar e a oferta volte a se normalizar, evitando reajustes fortes nos preços finais. Mas enquanto tivermos o câmbio bastante desvalorizado e a pressão das commodities, haverá pressão dos preços no atacado e no varejo.












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