Rendeiras da Vila fortalecem arte através de associação

Publicação: 2019-09-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Fim de tarde na Vila de Ponta Negra, crianças voltando da escola, gente passando para comprar pão, a turma subindo da praia, rendeiras fazendo suas rendas de bilro ao lado da igreja: mais um dia normal no lugar. Não, não era. Um carro de som passa anunciando: vai ter espetáculo na Vila, com direito a música e homenagem a Maria de Lourdes de Lima, a Vó Maria, 85 anos, patrimônio vivo do Rio Grande do Norte quando o assunto é a renda de bilro, atividade a qual desenvolve desde os 7 anos. Mas Vó Maria é meio encabulada com essas coisas de homenagem. “Daqui vou pra casa me deitar, fechar o quarto com a chave porque meu filho quer que eu vá praquilo acolá (apontando para o palco em frente da igreja). Vai ter uma homenagem, vão me dar um buquê de flores. Mas num quero ir não, meu quintal já tem flor”, diz a artesã.

A zoada do bilro ecoa todas as tardes da Tapiocaria da Vó. O local é mais que o ponto de encontro das redeiras da Vila de Ponta Negra. É espaço de exposição, guarda, loja e ensino desta arte centenária
A zoada do bilro ecoa todas as tardes da Tapiocaria da Vó. O local é mais que o ponto de encontro das redeiras da Vila de Ponta Negra. É espaço de exposição, guarda, loja e ensino desta arte centenária

Vó Maria é fundadora do Núcleo de Produção Artesanal da Vila de Ponta Negra. Todas as tardes, de segunda a sexta-feira, o núcleo se reúne no espaço cultural e gastronômico Restaurante e Tapiocaria da Vó (ao lado da igreja), onde ficam guardados os materiais e funciona o memorial das rendeiras. Sentam ali com suas almofadas e ficam lá rendando, conversando sobre assuntos amenos, contando histórias antigas, ensinando quem tem vontade de aprender. O núcleo está em processo de formalização da Associação Rendeiras da Vila e conta com a consultoria do Sebrae. Segundo uma das articuladoras da Associação, a rendeira Renata Deniz, esse será um passo muito importante.

“A formalização vai nos permitir ter um CNPJ e com isso poderemos participar de editais públicos e acessar recursos fora do Brasil”, diz Renata. Ela renda há três anos, foi aluna de Vó Maria e de outras rendeiras do lugar. Renata cita algum projetos que são desenvolvidos no lugar. O Zoado do Bilro é um dos principais. “Zoada do Bilro esse tilintar da madeira. As que tem mais experiência, pela rapidez dos movimentos, fazem mais barulho”.

O projeto consiste numa vivência entre 40 e 60 minutos, onde a pessoa vai sentar com as rendeiras, ouvir histórias, conhecer os primórdios da renda, sua chegada através dos portugueses. “O objetivo é oferecer a oportunidade da pessoa compreender a técnica, até porque isso faz a pessoa ter noção da dificuldade de produção e com isso valoriza mais o trabalho, dando o devido valor quando for comprar”, comenta Renata. O projeto também tem um formato que pode ser levado para as escolas, despertando novos talentos. Além da vivência, a associação também oferece cursos: os rápidos de dois dias, para mostrar o básico, e o longo, de seis meses, que já formou designer para criar desenhos arrojados.

Outro projeto em andamento é a consolidação do Memorial da Rendeira da Vila de Ponta Negra, que tem o objetivo de deixar registrado a memória dessa tradição. No local onde as rendeiras se encontram (Tapiocaria da Vó) o visitante pode encontrar fotos de várias décadas, inclusive da Vila, pinturas e livros sobre o tema, e os elementos usados para rendar: almofadas, bilros, fio, papelão, alfinete e tesoura. “Os acessórios têm toda uma história sustentabilidade. A almofada era feita com folha de bananeira seca, os alfinetes usados hoje antes eram espinho de mandacaru, papelão onde é feito o desenho”, descreve Renata, que ressalta o benefício cognitivo da atividade. “A renda de bilro desenvolve o foco, a concentração. Se você errar um ponto não tem como consertar, tem que desmanchar até onde errou e refazer”.

“Tramas matemáticas”
Renata cita uma curiosidade. Pelo segundo ano consecutivo as rendeiras de bilro da Vila de Ponta Negra participaram com destaque da Campus Party Natal. O motivo: a trama de linha que elas fazer é pura matemática. “Descobrimos que a lógica dos bilros se conecta com a matemática Ada Lovelace, primeira programadora de computador. O cartão que ela utilizava para fazer a codificação dos algorítimos é um cartão perfurado, do mesmo jeito que as rendeiras usavam”, diz. “O desenho é como um mapa, ou uma partitura musical, um guia”.

Valorização
No espaço dividido com a Tapiocaria da Vó as rendeiras tem uma lojinha onde são comercializadas peças produzidas. Porta copo, itens de vestuário, vestido de noiva, de festa, vestido simples, saia, blusa, centro de mesa, utensílios domésticos, toalha, colcha de cama.

Dona Lúcia é uma das renderas da associação, começou na atividade aos 70 anos. Ela lembra que na Vila há algumas peças raras. Até rede já se fez aqui. A rendeira já faleceu, mas a rede ainda hoje existe. A família tem. Já tentaram comprar e a família não vende de jeito nenhum. Tem um vestido de noiva também, feito por uma das rendeiras para a neta casar”, conta.

A associação das rendeiras tem outra missão: consagrar Vó Maria institucionalmente como mestra da renda de bilro
A associação das rendeiras tem outra missão: consagrar Vó Maria institucionalmente como mestra da renda de bilro

Uma preocupação das rendeiras é com a valorização da atividade. “A gente espera que eles incluam as rendeiras de Ponta Negra no roteiro de turismo de Natal. Muita gente tem a ideia de que é um artesanato simples. E você aqui vê que não é. Estamos trabalhando para que a renda ganhe mais visibilidade. A população mesmo desconhece que existe essa produção aqui na Vila. Nosso objetivo com a associação também é divulgar essa arte, essa tradição”.

Um patrimônio vivo
A associação das rendeiras da Vila também está voltada para outra missão: consagrar Vó Maria institucionalmente como mestra da renda de bilro. Vó Maria aprendeu a rendar aos 7 anos, em Pirangi. Mas ainda criança ela veio pra Vila, onde encontrou outras rendeiras e pode aperfeiçoar seu trabalho.

“De tanto me ver observando as rendeiras trabalhar, mamãe pediu para uma delas me ensinar. Na hora meu coração se abriu de alegria. Era tudo que eu mais queria. Minha vontade de aprender era tão grande que no correr de um mês eu fiz dez metros de renda. E mamãe vendeu por dez cruzados”, conta a mestra, que pequena começou a tirar dinheiro com suas peças, o que permitiu comprar “roupinhas novas no Natal e no São João”.

Vó Maria também já produziu e vendeu renda na beira da praia, antes da urbanização da orla, naquela Ponta Negra romântica do passado. “Mas hoje, se for esperar esse dinheiro pra comprar comida, você morre de fome”, lamenta a rendeira, que além de rendar, faz restauração de peças antigas, desenhos e réplicas de vestido.

“Aqui nesse lugar a gente renda já tem uns 30 anos. Ficamos aqui conversamos sobre um monte de coisa, tira uns pensamentos da cabeça, se entretém, acha graça de cada. Tenho amor demais pelo meu trabalho. É um dom que deus me deu. Não consigo ficar sem fazer renda”, conta Vó Maria, antes de se despedir, tímida, fugindo do espetáculo que logo mais iria lhe prestar uma homenagem, mas com um sorriso orgulhoso na cara, na verdade um sorriso de satisfação, pois está fazendo o que desde os sete anos de idade desejou fazer.




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