Resenha do Além rube

Publicação: 2020-04-26 00:00:00
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Galvão Bueno, Neto, Denílson, Roger Flores. Não passariam na porta. São ocos proporcionais ao nível do futebol atual, sem conteúdo, sem conhecimento técnico e cheios de pose. A porta em questão seria a da Grande Resenha Facit, a primeira mesa-redonda da televisão brasileira, lançada na TV Rio e depois levada para a Globo, no ar aos domingos de clássico no velho Maracanã das multidões e nunca das exclusões arenautas. 

A temática fluía em torno de Gerson, Eduzico, Jairzinho, Silva, Espanhol, Garrincha(aos pedaços), Sabará se despedindo do Vasco que armava com Lorico e Danilo Menezes, Samarone no meio-campo do Fluminense com Denilson e Joaquinzinho.

Encontravam-se para debater (e brigar) Nelson Rodrigues, Vitorino Vieira, João Saldanha, José Maria Scassa, Hans Hennignsen, o Marinheiro Sueco, o fleumático âncora e idealista do programa, Luiz Mendes e o estilista Armando Nogueira, de paletó e gravata para acentuar a elegância e provocar refregas ideológicas com Saldanha. Os dois morreram em atrito.

O jogador convidado para comentar o que os outros haviam feito era um e suficiente: Ademir Menezes, o Ademir Queixada, do Expresso da Vitória do Vasco e da seleção brasileira vice-campeã no Maracanazo de 1950. Ademir artilheiro da Copa e um dos melhores atacantes produzidos no mundo.

Facit era uma fabricante de máquinas de escrever, hoje peças de decoração de saudosistas e bem melhor usadas por mãos e pensamentos superiores aos luminares dominadores de Macbooks da Apple. Dos filhos subalternos de Steve Jobs.

Encerrada em 1971, ano da despedida de Pelé do escrete, depressiva e acanhada, porque no lugar de Pelé revezavam-se Claudiomiro do Internacional(RS) e Vaguinho do Atlético(MG), a Grande resenha Facit é um suspiro aos que viveram sua época de polêmicas inteligentes. Hoje, discute-se a cor da cueca do terceiro reserva  do Bonsucesso e até fazem enquetes.

Na Resenha Facit, João Saldanha irritava Armando Nogueira, que o chamava de notório mentiroso, levando garotos sujos da geral para entrevistas ao vivo e de improviso no estúdio. Saldanha se deliciava da fúria contida do mestre prosador e poeta e por ele considerado entreguista. “Quem é o bola(craque) neguinho?”, estimulava João Saldanha. 

O moleque, lambuzado de picolé caseiro, respondia no flamenguismo de manjedoura de favela: “É o Carlim!” O menino citava Carlinhos, o Violino, volante  do Flamengo, finesse na criação das jogadas no tempo dos duetos de volante e armador. 

João Saldanha contava com o nem tão sutil apoio de Nelson Rodrigues, mais velho e com autoridade para dar corretivos em Armando Nogueira. “Em João Saldanha, mais importante que o fato é a versão. E entre o fato e a versão do Saldanha, fico com a versão do Saldanha, que é muito melhor”.

Créditos: Divulgação


A Resenha 
Facit voltou a ser transmitida esta semana no Cemitério São João Batista, o principal do Rio de Janeiro e onde estão sepultadas suas principais personalidades. O coveiro quase virou alma penada atravessando as grossas paredes que separam campa da rua.

Luiz Mendes, polido, tentava acalmar Saldanha, que havia arrancado trancas de seu túmulo e rosnava após a reprise de Brasil 2x3 Itália em 1982, que ele, fantasma possesso, reviu do firmamento: “Vou matar o Serginho, atirar nele e fuzilar esse goleirinho! (Valdir Peres). “
“ Calma João, nós não matamos, não morremos, nem sofremos mais. Não adianta”, apaziguou Luiz Mendes. “Meu caro João, eis a verdade elástica e ululante. Acabou o futebol. Sem versão. “ Nelson Rodrigues, fumando em seu mausoléu.

Indo embora 
É óbvio que os destaques de ABC e América devem sair antes da Série D. O colapso financeiro do Coronavírus atingiu a Champions League, imagine a Quarta Divisão do futebol brasileiro. 

Racionais
Os dirigentes de ABC e América, devem adotar a cautela máxima. Gastar pra não pagar acaba o patrimônio do clube na Justiça Trabalhista. 

Teto 
Ao enxugar a já modesta folha de pagamento do ABC, a diretoria  nada mais  faz do que se prevenir diante do sombrio  futuro. 

Wallyson 
Com Wallyson em franca recuperação, o ABC entra na Série D com um jogador acima da média dos que atuarão(ou não, depende do Covid-19), no quarto andar da bola. 

Bilhões 
O impacto da paralisação dos campeonatos, estimado pela CBF em R$ 4 bilhões, vai atingir, segundo a entidade,  cerca de 150 mil de profissionais em emprego direto. 

Meninos do Flamengo 
O Flamengo, ao contrário, está com os cofres cheios e ainda fazendo empréstimos bancários milionários para fluxo de caixa. Só não paga as indenizações às famílias dos dez meninos das categorias de base, mortos dentro de um galpão que pegou fogo. 

Dignidade 
Toda conquista antes desse encontro de contas com a dignidade é e será inútil  sem o pagamento, o mínimo para quem não preservou a segurança de crianças.