Revelando a arte manual potiguar

Publicação: 2019-01-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

A relação comercial com a arte  em Natal sempre aumenta quando o verão chega junto com a alta estação e as férias. Os espaços de artesanato e as galerias de arte potiguar se mostram mais atraentes para os visitantes, e revelam preciosidades que boa parte dos natalenses ainda não conhece. Mesmo atuando em um  mercado cheio de altos e baixos, alguns comerciantes da área tentam oferecer algo mais e mostrar que seus produtos podem ir além da “arte para turista”. Passear entre os muitos corredores das galerias natalenses pode ser divertido e revelador.

No Mãos de Arte, a artesã  Eridan Fagundes mostra sua experiência de 38 anos na arte de esculpir garrafinhas de areias coloridas naturais. Está no local há dois anos, criando as peças na hora
No Mãos de Arte, a artesã Eridan Fagundes mostra sua experiência de 38 anos na arte de esculpir garrafinhas de areias coloridas naturais. Está no local há dois anos, criando as peças na hora

O Centro de Turismo, em Petrópolis, é referência há 42 anos no comércio de artesanato potiguar. Em meio às 40 lojas do local, a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea é um ponto de destaque: reúne a maior coleção do estado em arte popular, expondo artistas de todas as partes do RN, entre nomes clássicos e gerações mais novas que estão se destacando no mercado. O salão amplo e antigo da galeria, com seus janelões que emolduram o mar da Praia dos Artistas, é um mostruário colorido e diverso da arte potiguar.

O acervo da galeria é 80% composto por obras de artistas potiguares. As demais são peças   vindas de Pernambuco, Paraíba e Ceará. No local tem antiguidades, pinturas, arte popular, objetos de arte e de coleção, além de um mini sebo com livros diversos sobre a história do estado. “Essa galeria é uma referência, não só pelo tempo de existência, mas também pelo próprio contexto histórico do prédio, e pela qualidade do material que reunimos aqui”, afirma o padre Jocimar Dantas de Araújo, curador, marchand, e atual proprietário da galeria.

Na Galeria do Centro, o trabalho diferenciado do seridoense Jeicifran Azevedo traz a representação dos Negros do Rosário
Na Galeria do Centro, o trabalho diferenciado do seridoense Jeicifran Azevedo traz a representação dos Negros do Rosário

A galeria expõe diferentes gerações de talentos locais. Há desde os clássicos Dorian Gray, Newton Navarro, Thomé Filgueira e Fé Córdula, até nomes contemporâneos como Edilson Araújo, Cristina Jácome, e Assis Marinho. Na área de escultura, de  todos os tamanhos, há obras de Luzia Dantas (Currais Novos), e os “mestres” Gregório (Santa Cruz),  J.J. (Itaipú) e Jeicifran Azevedo (Jardim do Seridó), cujas peças em madeira reproduzem com graça personagens do imaginário nordestino, como boiadeiros, rendeiras, índios, bandas militares de música, e procissões dos negros do Rosário, entre outros.

Destaque na arte sacra
Há nomes novos bem cotados no mercado nacional, como o escultor Ambrósio Córdula, de Acari, cuja arte sacra policromada com folhas de ouro, inspirada no barroco clássico, está repercutindo em todo Brasil. O segmento de antiguidades também destaca a arte sacra antiga, com imagens originais dos séculos 18 e 19, além de porcelanas e cristais, raridades e curiosidades.

Centro de Turismo: reúne a maior coleção do estado em arte popular, expondo artistas de todas as partes do RN, entre nomes clássicos e gerações mais novas, como Anbrósio Córdula, que se destaca com novo criador da arte sacra contemporânea
O centro reúne a maior coleção do estado em arte popular, expondo artistas de todas as partes, entre nomes clássicos e gerações mais novas, como Anbrósio Córdula, que se destaca com novo criador da arte sacra contemporânea

Há ainda peças de cerâmica vindas de Santo Antônio do Potengi, povoado de São Gonçalo do Amarante, pólo do segmento no RN. Apesar do acervo notável, Jocimar confirma que a maior parte dos visitantes é formada por turistas. “Nosso público natalense é essencialmente o do colecionador e apreciador de arte, é o cliente do nicho. É quem sabe que está levando uma peça única, que não foi feita em série por uma indústria. Obra de arte também é um investimento”, ressalta.

O comerciante Charles Magno está numa das lojas mais antigas do Centro de Turismo. Ele, assim como todos, sentiu a crise dos últimos dois anos e as mudanças acarretadas por ela. “Antes, essa loja trabalhava apenas com bordados de Caicó. Mas tivemos que diminuir e pôr mais suvenires, por ser mais acessível ao poder aquisitivo do atual público”, diz. Charles explica que atualmente muitos artesãos estão produzindo direto para o “fornecedor” - termo que ele prefere a “atravessador” -, e assim tornando o comércio mais viável. “Perde um pouco da originalidade do material, mas é assim que o artesão pode se vender melhor”, ressalta.

No Mercado de Artesanato da Praia do Meio, a loja Josanilda Alexandre é o lugar para adquirir peças de couro, como as sandálias coloridas ao estilo Espedito Seleiro e bolsas rústicas
No Mercado de Artesanato da Praia do Meio, a loja Josanilda Alexandre é o lugar para adquirir peças de couro, como as sandálias coloridas ao estilo Espedito Seleiro e bolsas rústicas

Vista pro mar
Os centros de artesanato perto do mar, como os da Praia dos Artistas, necessitam especialmente dos turistas. A proximidade praieira também influencia no acervo das lojas, pois muita coisa parece feita de encomenda para o verão. No tradicional Centro de Artesanato da Praia dos Artistas, alguns dão um toque diferenciado, como na loja de Josanilda Alexandre, especializada em peças de couro. Há bolsas, mochilas, carteiras (de couro de bode e de boi), porta-moedas e, como destaque, as sandálias: as masculinas, ao estilo franciscano, e as femininas, com bastante cores, apliques e desenhos criativos. Há ainda redes, chapéus, mantas, vestidos, saídas de praia, jogos americanos. A comerciante afirma que o movimento melhorou desde novembro, mas sente falta do cliente local. “O natalense em geral não tem noção do que a gente vende aqui. Acha que só tem miudezas pra turistas. Há muita desinformação”, lamenta.

O Shopping de Artesanato Mãos de Arte, mais novo na área, está atualmente apenas com o térreo em funcionamento. O comércio em geral é o praieiro industrial para turista, com poucos artesãos em atividade. Eridan Fagundes é um deles. Há 38 anos ela trabalha a arte das imagens com areia colorida em garrafas, e há dois anos está no local. Em garrafas transparentes de vários tamanhos, ela faz desenhos diversos, de paisagens a figuras geométricas, utilizando areia colorizada. “Infelizmente, o natalense não dá valor à arte local. Viaja e compra lá fora, mas não vem aqui. Também acho que falta mais divulgação do nosso trabalho”, diz.

Dirigida pelo padre Jocimar Dantas, a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea é um ponto de destaque para natalenses e visitantes no Centro de Turismo
Dirigida pelo padre Jocimar Dantas, a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea é um ponto de destaque para natalenses e visitantes no Centro de Turismo

Bordados finos
Ponta Negra é outro bairro com apelo turístico e presença praieira, o que também influencia o comércio de material artesanal. O amplo Shopping do Artesanato Potiguar, com suas 212 lojas espalhadas em quatro pavimentos,  é um reflexo disso. Por isso a loja Renaissance costuma chamar atenção em especial: suas peças de rendas e bordados são um autêntico trabalho feito por bordadeiras do interior potiguar. É uma visão diferente na paisagem. “Nós trabalhamos direto com o artesão. Aceitamos até encomendas”, diz a proprietária, Valdenora Genuíno, mais conhecida como Dona Sol.

No Shopping do Artesanato de Ponta Negra, o maior em número de lojas, Valdenora Genuíno da Renaissance exibe as peças feitas a mão e o apuro das rendas e bordados
No Shopping do Artesanato de Ponta Negra, o maior em número de lojas, Valdenora Genuíno da Renaissance exibe as peças feitas a mão e o apuro das rendas e bordados

A Renaissance expõe peças feitas por bordadeiras de Caicó, Timbaúba dos Batistas, Alcaçuz e Touros. Há jogos americanos, fronhas, toalhas de mesa, passadeiras (caminhos de mesa), várias peças para cozinha, e roupas – vestidos, jalecos, bermudas, calças, e peças para batismo de crianças. Tudo decorados em bordados elaborados como renda renascença, richelieu, bilro, filé, labirinto, ponto cruz, macramê, matizados, entre outras variações. Os tecidos são igualmente finos, como linho puro, cambraia de linho, fustão, e percal de 200 a 600 fios.

“O RN é muito rico em bordados, e eu tenho o privilégio de poder trabalhar diretamente com os artistas, sem precisar de atravessadores”, afirma Dona Sol, que também se orgulha de ter a única loja com bordadeiras próprias. “Se o cliente diz que deseja o bordado de um jeito específico, eu peço pra fazer. Nossas peças saem até personalizadas”, diz. Ela espera que em breve saiam mais peças de roupas bordadas para homem, uma tendência crescente. “Tem muito estilista apostando nisso”, ressalta. A comerciante também ressalta algo raro: boa parte de sua clientela é natalense. “O artesanato legítimo está cada vez mais raro. Acredito que isso é o diferencial”, conclui.

Colaborou:Cinthia Lopes, editora


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