Revolução de 1817, o movimento que tomou o poder

Publicação: 2017-03-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Indignados com a discrepância entre a vida na corte e nas províncias, e pressionados por uma grande seca no Nordeste, senhores de engenho, comerciantes e padres da região promoveram um levante contra a coroa portuguesa, no que ficou conhecido como a Revolução de 1817. Iniciado em Pernambuco, o movimento anticolonial que defendia a instauração da república foi o primeiro a conseguir tomar o poder no Brasil.
Pintura de Antônio Diogo Parreiras retrata a cena do Julgamento de Padre Miguelinho, figura importante na Revoluçãoem Pernambuco
No Rio Grande do Norte, o movimento foi liderado por André de Albuquerque Maranhão, senhor do Engenho Cunhaú, maior dono de terras da região. Os revoltosos assumiram a capitania potiguar no dia 29 de março. No entanto, o novo governo durou menos de um mês. Ao chegarem as tropas reais em Natal, os correligionários de André de Albuquerque abandonam o movimento e, sozinho, o líder local não consegue estabelecer uma resistência. E André de Albuquerque morre em decorrência de um ferimento de espada no dia 26 de abril.

De abrangência no Nordeste Brasileiro, a Revolução de 1817 é um dos momentos mais emblemáticos da história da região, sobretudo no RN. Dois séculos depois do ocorrido, o episódio será debatido à luz de novos olhares no simpósio “Memória e Tradição – Bicentenário da Revolução de 1817”. Organizado pelo Grupo de Estudos André de Albuquerque Maranhão (GAM), em parceria com o Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo e o Instituto Tavares de Lyra, o evento traz na programação palestras, bate papos, exposição e lançamento de livros. O simpósio acontece entre nos dias 30 e 31 de março, no Instituto Câmara Cascudo (Cidade Alta). Abertas para qualquer interessado no tema, as inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo e-mail frente.gam@gmail.com.

Para o pesquisador e advogado Arthur Dutra, membro do Grupo de Estudos André de Albuquerque Maranhão (GAM), a Revolução de 1817 é um movimento de relevância nacional, com participação importantes de potiguares, como André de Albuquerque Maranhão, no RN, e Padre Miguelinho, em Pernambuco. Os dois serão lembrados no Simpósio.

“Esse episódio é pouco repercutido na história do RN. Seus vestígios foram apagados e muita coisa acabou esquecida. O simpósio é uma maneira de darmos nova relevância ao ocorrido”, diz, traçando paralelos com o momento atual do Brasil. “Hoje vivemos um período conturbado no país, com uma elite subserviente ao poder central. A mensagem de coragem daqueles que se rebelaram por independência e liberdade vale ser lembrada. Principalmente no nosso estado”.

A CASA DE CUNHAÚ
Um dos destaques da programação do simpósio é a exposição “A Casa de Cunhaú”, com acervo do Instituto Tavares de Lyra, que cuida dos documentos remanescentes da família Albuquerque Maranhão. A frente do instituto, o historiador  Anderson Tavares de Lyra explica que a exposição apresentará imagens até então desconhecidas da família do líder da Revolução de 1817 no RN, além de outros personagens. “Descobri álbuns antigos de família. A partir dessa material fui pesquisar sobre aqueles que aparecem nas imagens”, diz o historiador, que é descendente das famílias Tavares de Lyra e Albuquerque Maranhão.

O principal livro utilizado na pesquisa de Anderson é “A Casa Cunhaú”, de Câmara Cascudo. A obra ganhou nova edição, com encarte das imagens da exposição e será relançada durante o evento.  Segundo Daliana Cascudo, neta do intelectual potiguar e diretora do Instituto Câmara Cascudo, o livro é trata sobre a genealogia de Jerônimo Albuquerque Maranhão, tido como um dos fundadores da cidade de Natal. “A história da cidade se mistura em vários pontos com a história da família Albuquerque Maranhão. O livro ganha essa importância narrativa”, comenta.
Uma das imagens de ruínas do Engenho Cunhaú integram acervo da mostra
Para Arthur Dutra, André de Albuquerque é uma das figuras mais importantes do estado. “Ele é exemplo de coragem, pois, embora fosse um dos cidadãos mais poderosos e influentes da capitania potiguar, condecorado pela coroa portuguesa, se rebelou contra a corte a partir de ideais liberais”, diz. O historiador Anderson Tavares é do mesmo pensamento. “André Albuquerque foi o único executado no movimento no RN. E antes de morrer ainda foi martirizado, sendo arrastado seminu até ser jogado numa cela na Fortaleza dos Reis Magos”, conta.

PADRE MIGUELINHO

Bastante lembrado quando se fala da Revolução de 1817 e tido por alguns pesquisadores como um dos maiores heróis potiguares, Padre Miguelinho teve sua atuação no movimento toda em território pernambucano, onde vivia desde que saiu de Natal, aos 16 anos. Professor do Seminário de Olinda (um dos nascedouros do movimento) e Secretário Geral do Governo Provisório estabelecido em Pernambuco, ao fim da Revolução ele foi preso e enviado a julgamento na Bahia, onde foi executado.

Anderson reconhece o papel de destaque do padre potiguar na Revolução. Ele conta que na comemoração do centenário do movimento de 1817, por ocasião da família Albuquerque Maranhão estar a muito tempo comandando o RN, e estar ocorrendo na época bastante contestação à família, o Instituto Histórico e Geográfico do RN prestou as homenagens com destaque para o Padre Miguelinho. “Os Albuquerque Maranhão foram bastante perseguidos ao fim do movimento. Muitos documentos e registros dos feitos de André de Albuquerque foram queimados. Mas nos últimos anos tem surgido mais estudos sobre o período e a devida importância dos participantes será melhor explicada”, diz.

‘A RESSUSCITADA’

Durante o simpósio também será lançado o livro “A Ressuscitada”, do escritor e professor Francisco Galvão. Nascido e criado no município de Canguaretama, ele cresceu ouvindo a lenda de Maria Umbelinda de Albuquerque Maranhão, sobrinha neta do líder da Revolução de 1817 no RN. Diz a lenda, por ter traído o marido, foi tramada sua morte por envenenamento. Ela descobriu o plano e forjou sua morte. No lugar de seu corpo foi enterrado outro, enquanto ela fugiu com o amante. Dois anos depois ela foi encontrada num prostíbulo na Paraíba. Um médico que havia estado em seu velório a reconheceu e ela revelou toda a história para ele. A polícia entrou no caso e jornais do Rio de Janeiro, Pernambuco e Paraíba cobriram a história.

Foi na pesquisa desses documentos que Francisco Galvão descobriu a veracidade de muitos fatos da história que conheceu ainda garoto e resolveu contar a história de forma romanceada. A obra foi publicada pela editora Sebo Vermelho durante a Flipipa de 2016 e agora ganha um relançamento especial com exemplares limitados.

Serviço
“Memória e Tradição – Bicentenário da Revolução de 1817”. Dia 30 e 31 de março
Ludovicus Instituto Câmara Cascudo (Av. Câmara Cascudo, 377, Cidade Alta)
Inscrições pelo e-mail: frente.gam@gmail.com
Será entregue certificado de 10h para quem se inscrever.

PROGRAMAÇÃO

Dia 29
17h - Missa em memória de André de Albuquerque Maranhão na Igreja Nossa Senhora da Apresentação
18h30 - Sessão Solene na Câmara dos Vereadores de Natal/RN.

Dia 31
17h - Abertura da exposição fotográfica “A CASA DE CUNHAÚ”, com acervo do Instituto Tavares de Lyra.
18h - Abertura da Sessão Magna com representantes do Instituto Tavares de Lyra, Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, UFRN e Grupo de Estudos André de Albuquerque (GAM).
19h30 – Palestra de Abertura do Dr. Paulo Fernando de Albuquerque Maranhão Cunhaú: “A Fundação da Identidade Potiguar”
Lançamento da reedição do livro “A Casa de Cunhaú”, de Luís da Câmara Cascudo.

Dia 01
9h – Mesa-Redonda “Memória e Tradição: 1817 através da História”, com Anderson Tavares de Lyra, Arthur Dutra e moderação de Daliana Cascudo
10h30 – Mesa-Redonda “Sob o Olho da Providência: O Protagonismo Revolucionário da Igreja e da Maçonaria”, com Walner Spencer, Cassimiro Júnior e moderação de Augusto Maranhão.
Lançamento do livro “A participação da Capitania do Rio Grande do Norte e de Maçons Potiguares na Revolução Pernambucana de 1817”, de Cassimiro Júnior.
14h – Mesa redonda “Hipóteses Contra factuais: E se a Revolução tivesse êxito?”, com Douglas Cavalheiro, Sérgio Trindade e moderação de Lucas Zilio (GAM).
16h - Mesa redonda “Engenhos e Itinerários: O espaço agrário no nordeste oitocentista”, com Fábio Arruda, Erick Bezerra e moderação do Dr. Paulo Maranhão
Lançamento do livro "A ressuscitada", de Francisco Galvão


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