Ricardo Bezerra: “Dirigentes sofrem e são cobrados como se errassem de propósito”

Publicação: 2019-02-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Estevam
Repórter de Esportes

Ricardo Bezerra está retornando ao comando diretivo do América. Ele apesar de não fazer planos de voltar tão cedo para dentro do clube, disse que optou por atender a convocação do presidente Alvirrubro, Eduardo Rocha. Uma das explicações para o retorno, foi a necessidade de união do América, ele considera o momento financeiro do clube grave e disse que só quem pode tirar a instituição da crise em que está mergulhada são os próprios americanos, independente de serem conselheiros, sócios ou apenas torcedores. Nessa entrevista à TRIBUNA do NORTE ele abordou vários temas sobre o clube.

Ricardo Bezerra, diretor de futebol do América
Ricardo Bezerra, diretor de futebol do América

O que fez você decidir retornar ao projeto do América, já que estava afastado fazia algum tempo?
O presidente Eduardo Rocha já havia me chamado algumas vezes para me unir ao grupo e ajudar a tocar o clube. Eu estava analisando por causa de alguns projetos pessoais que eu tenho, mas acredito que chegou a hora de aceitar esse convite e me integrar a equipe de trabalho. Minha atuação se dará tanto nas divisões de base quanto no departamento de futebol profissional do América.
 
Como você, que está chegando agora, analisa a situação do clube hoje? É mais difícil, que nos outros anos em que você esteve fazendo parte da diretoria?
A crise financeira dificulta muito as ações que devem ser tomadas dentro de um clube. A nossa pior situação é estar na Série D, por que qualquer jogador, com um pouco mais de qualidade, gosta de vitrine e eles acabam dando preferência em assinar contratos com clubes das demais divisões acima da do América. Por outro lado, na hora de negociar, levamos alguma vantagem por que o América se trata de uma instituição centenária, que é bem quisto no Brasil, onde é conhecido como um clube que cumpre suas obrigações. Então a gente ainda consegue trazer jogador com qualidade. Essas coisas servem para amenizar a situação.
 
A situação na qual o clube se encontra atualmente, segundo a sua percepção, foi o erro de uma diretoria só ou uma série de erros cometidos por várias diretorias?
Sua colocação foi importante, eu acho que hoje quando se faz críticas a uma administração nas redes sociais, essas repercutem com bastante velocidade e o barco fica cada vez mais pesado para se conduzir. Nas últimas diretorias do América, os diretores ficaram praticamente isolados. O América é um clube muito grande para ser administrado por um pequeno grupo de pessoas. Nós temos de cada dia juntar cada vez mais americanos em torno da diretoria, pois quem vai resolver os problemas do clube somos nós, os americanos: torcedores, conselheiros, sócios, todos trabalhando juntos. A pessoa que aceita assumir a presidência do América hoje, prova para todos que é uma pessoa determinada e um grande americano antes de tudo. Ele tem de receber ajuda.
 
E a questão do problema do clube?
Os dirigentes que assumiram o América durante o tempo que estive ativo dentro do clube, todos tiveram grandes acertos, mas também tiveram erros administrativos. Eu, graças a Deus, dei a sorte de ter mais acessos e títulos quando estive envolvido diretamente com o clube, mas também estive na diretoria que não obteve o sucesso desejado dentro de campo e o time acabou rebaixado. Mas todos os nossos dirigentes participaram de grandes vitórias e tiveram as suas doses e momentos de dificuldades. Então eu acho que essa questão que vivemos hoje é fruto do que ocorreu em várias diretorias, mas ressalto, todas sempre quiseram fazer o bem ao clube. Não é normal para um clube do Rio Grande do Norte obter acessos seguidos e jogar três vezes na divisão de elite. Pois vivemos num estado de recursos limitados em que nossa classe empresarial não possui o mesmo poder de investimento que vemos em Pernambuco, Ceará e na Bahia. Então foram os dirigentes, com as suas criatividades que conseguiram alavancar o América e colocar o clube para conquistar feitos espetaculares. Todos nós que acertamos e, também erramos, agora precisamos estar unidos para tirar o América da Série D o mais urgente possível.
 
O que leva um dirigente como você, Eduardo Rocha e tantos outros, que possuem uma história ligada ao clube, a decidir se afastar da diretoria? A pressão da torcida? Insatisfação? falta de reconhecimento? Ou um pouco de tudo?
Muitas vezes é devido a uma decepção, você conquista vários títulos e, cito como exemplo Gustavo de Carvalho: que saiu da Série C para B e da Série B para A em anos seguidos, mas depois não conseguiu realizar uma boa campanha na Série A, que para um clube do porte do América é praticamente impossível disso ocorrer, ainda mais naqueles anos em que nosso clube recebia uma cota de três milhões da TV e os nossos adversários recebiam dez, vinte ou até 40 milhões de reais. Hoje está menos difícil, mas você não faz nada sem dinheiro e, naquela ocasião, a distância entre os clubes era enorme! Ainda assim o dirigente é xingado, contestado, então a própria família do dirigente vendo aquele sofrimento pede para ele se afastar do clube. Mas como a gente nutre uma grande paixão pelo clube, consegue ficar um tempo afastado e acaba voltando. Como eu, que não previa retomar um posto de comando no América tão cedo, mas acabei aceitando a convocação de Eduardo Rocha.
 
Você acha que o ambiente no futebol, digo relação entre campo e arquibancadas, está muito inóspito para facilitar o surgimento de novos dirigentes?
É difícil hoje alguém chegar para ajudar assumindo logo a direção de um clube! Vez ou outra, surge esse alguém novo no futebol, mas ele vai necessitar de toda ajuda necessária dos demais, para poder acertar na montagem de uma equipe ou de tocar o dia a dia de um clube do porte de um América! Essa é uma tarefa muito difícil devido aos compromissos assumidos.
 
O que está dificultando a renovação dos quadros diretivos do América, uma vez que os “cardeais” americanos já são idosos e hoje poucos comparecem ao clube?
Acho até difícil falar sobre essa questão por não saber exatamente aquilo que dificulta. Mas acredito que seja ainda por pressão dos familiares das pessoas que estão em torno do futebol, já que é muito difícil se administrar um clube, onde o dinheiro nunca dá para cobrir os gastos. A administração também toma muito o tempo da pessoa, o dirigente perde muito tempo do seu trabalho, das suas atividades, tem de se ausentar do dia a dia com a família. Então acredito que é uma série de fatores. Mas nós comparamos o desejo de estar na direção de clubes como: América e ABC, como uma doença que é difícil de controlar. Apesar de todos os dissabores, a gente acaba voltando, mas para quem nunca esteve dentro, a decisão de participar é mesmo muito difícil. Acredito que seja devido a essa questão: o dirigente sofre muito e, muitas vezes, são cobrados como se estivessem errando de propósito, por algum outro motivo. Olhe bem um exemplo claro disso: o Campeonato Potiguar tem oito clubes e, apenas um, vai ser o campeão! Então os dirigentes dos demais clubes vão passar como se fossem fracassados? Nada daquilo que ele fez foi certo? Muitas vezes as cobranças são injustas, mas isso ocorre em toda parte do país. Comparo o dirigente aos próprios treinadores: ou vence ou terá de abrir a vaga para outro.
 
Seja em épocas de vitórias ou de derrotas a gente escuta falar muito no processo de profissionalização dos clubes. Porque essa profissionalização ainda não deu certo no América, já que esse é um discurso antigo entre os seus dirigentes?
Acredito que essa mudança tem de ser realizada por etapas. Está chegando o momento e o América será obrigado a sentar e discutir o melhor modelo de administração para o clube. Hoje temos um diretor executivo, remunerado, e o compromisso dele é exclusivamente pensar e planejar o futebol. Antes era um dirigente convidado que ocupava a função, geralmente um sócio ou conselheiro e recebia o mesmo tipo de cobrança, mesmo sem ser remunerado, trabalhando apenas por gostar, amar o clube. Então acredito que o passo inicial está sendo dado.
 
Com relação ao patrimônio do clube: há quem acredite que o América cometeu um grave erro ao se desfazer do general Everardo e não da sede social. Qual sua visão sobre o que fazer com o atual patrimônio? Chegou o momento de o América rever essa situação, para se tornar um clube com mais recursos e poder de investimento?
Está na hora de repensar tudo, mas eu sou contrário ao voto de se desfazer da nossa sede social na Rodrigues Alves. Ali é a referência do clube, que já procurou otimizar o seu espaço fazendo as negociações e abrindo para construção de apartamento e prédios comerciais. Aquilo vai garantir uma remuneração ao clube, que irá oxigenar seu caixa e deverá fazer do América um clube, autossustentável, em bem pouco tempo! Mas o futebol será outro departamento, ele terá de se auto sustentar buscando espaço em séries mais rentáveis do futebol brasileiro. Mas o clube vai estar protegido, por isso temos de repensar um novo modelo de gestão. Isso tem de envolver todos os seguimentos, não pode ser feito apenas por esforço de alguns abnegados.
 
Vocês já possuem algum modelo de modernização na mesa e estão estudando ou ainda é cedo para isso?
Nós já estamos pensando e também conversando sobre essa questão; mas ainda não partimos para o debate prático da situação e, acredito, que estamos um pouco atrasados nessa questão.
 
Quando se fala em América autossustentável, não se inclui a parte do futebol nesse meio? O clube tem de separar sua parte social do futebol?
Futebol tem de ter um planejamento exclusivo e esse planejamento passa diretamente pelo acesso entre as Séries do Brasileirão. O lugar de clube que tem um porte do América é na Série B do Campeonato Brasileiro. Então nós temos de lutar e empreender todos os esforços possíveis; para o mais rápido que podermos recolocar o América dentro da divisão dos clubes emergentes.
 
Chegando agora, entrando no caixa a cota da disputa da segunda fase da Copa do Brasil, coisa que o América não via há três anos. Vai dar para montar um time mais competitivo com esse novo fluxo de caixa?
O América, por aquilo que já foi dito antes, terá sérias dificuldades para montar uma equipe bem competitiva. Agora eu não vejo nenhum participante da Série D com a situação diferente da nossa e mais folgada em termos financeiros. O problema é essa divisão do campeonato, quem está lá passa por dificuldades e terá de realizar um esforço muito grande para montar uma equipe considerada competitiva. O problema da Série D são os três mata-matas que um clube tem de disputar para obter o acesso, se num deles você jogar mal seja por um motivo ou outro: como o América contra a Juazeirense, que foi jogar na Bahia com sete jogadores importantes pendurados pelo segundo cartão amarelo, acabou se descuidando e perdeu um jogo que foi crucial para permanência do clube na Série D. É um regulamento difícil e cruel, temos de nos preparar e tentar de tudo para chegar na Série C, onde a competição é menos injusta.
 
O trabalho que vem sendo realizado dentro do clube atualmente, é suficiente para que o América chegue ao seu objetivo primordial na temporada: o acesso para Série C? Ou tem de se fazer uma correção de rota?
O América já está agilizando essa correção de rota. Infelizmente o time não rendeu com Luizinho Lopes, que na minha visão trata-se de um excelente profissional, veio a mudança, mas ainda temos necessidade de alterar o nosso elenco que precisa de reforços. Isso nós teremos de fazer com muito cuidado porque em se tratando de futebol, o dinheiro que estamos trabalhando é muito curto. Temos de saber buscar no mercado as peças que venham a se encaixar bem dentro do nosso grupo, trazendo atletas que venham para resolver dentro de campo. Vamos fazer o que é normal no futebol, trazer reforços e negociar a dispensa de alguns atletas que não renderam o esperado, mas tudo muito bem pensado.








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