Ricardo Henriques: "O principal desafio é manter os jovens na escola"

Publicação: 2019-08-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

O que diferencia escolas da rede pública de mesmo porte inseridas em contextos culturais e socioeconômicos semelhantes? Por que alunos de determinada unidade de ensino alcançam melhores resultados que estudantes de outra escola, sendo que ambas são norteadas pelo mesmo projeto pedagógico, acessam a mesma estrutura e dispõe dos mesmos recursos? Para a Secretaria Estadual de Educação (SEEC) e o Instituto Unibanco toda e qualquer diferença está na gestão. Gestão que passa necessariamente pelo engajamento dos gestores, resolução de problemas e um diálogo permanente entre os vários atores envolvidos no processo de aprendizado: secretaria, diretorias regionais, direção de escolas, coordenações pedagógicas estudantes e comunidade.

Henriques detalha o Programa Jovem de Futuro, que alcança 141 escolas estaduais do RN, e busca melhorar o processo de aprendizagem
Henriques detalha o Programa Jovem de Futuro, que alcança 141 escolas estaduais do RN, e busca melhorar o processo de aprendizagem

Passar essas diretrizes da teoria para a prática, e de fato transformar positivamente o ambiente escolar, é o grande desafio assumido pelo Governo do Rio Grande do Norte em parceria com a instituição. Focado em educação, o Instituto Unibanco desenvolveu uma metodologia eficaz, eficiente, efetiva e “adaptável” para elevar o nível da gestão escolar: o método do programa Jovem de Futuro.

O projeto já está presente em escolas do Ceará, Espírito Santo, Piauí e Goiás, está chegando em Minas Gerais e reforçando sua presença no Rio Grande do Norte. Em 2020, o método irá alcançar 1,5 milhão de estudantes de 4,4 mil escolas nesses seis estados. O programa existe desde 2007, mas só a partir de 2012/2013 é que passou a ser implantado em larga escala.

Para o superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, “o principal desafio é manter os jovens na escola e melhorar as condições de aprendizagem. Outro grande desafio é manter a parceria com condições para gerar impactos e ser sustentável, por isso é fundamental que a implantação seja algo compartilhado”.

Para manter a equipe motivada e aprofundar uma parceria iniciada há quase dois anos no RN, que atualmente interfere na rotina de 141 escolas públicas da rede estadual (49 mil alunos),  professores, coordenadores pedagógicos, diretores de escolas, técnicos da SEEC e diretores regionais participaram no início de agosto do seminário “Mobilização para aprendizagem no Ensino Médio”, onde foi discutido a intenção de avanço contínuo na gestão escolar. A meta é alcançar 315 escolas a partir do ano que vem, impactando mais de 90 mil estudantes. Confira a entrevista.

Qual a base da metodologia desenvolvida pelo programa Jovem de Futuro?

Basicamente assessoria técnica, capacitação e formação, análises de dados e o apoio de sistemas tecnológicos. Temos um histórico de parcerias com redes públicas de ensino, com foco no recorte do Ensino Médio e contexto que envolve uma agenda de gestão em todos os níveis, mas sempre respeitando a heterogeneidade sociocultural e econômica de cada região e de cada escola. A intenção é tornar o programa uma política pública: não é um curso, e sim um conjunto de procedimentos inseridos em um circuito de planejamento, monitoria, avaliação e correção de rota.

Como transformar essa intenção em prática?

O principal desafio é a juventude: manter os jovens na escola e melhorar as condições de aprendizagem. Outro grande desafio é manter a parceria com condições para gerar impactos e ser sustentável, por isso é fundamental que a implantação seja algo compartilhado, co-criado e adaptado para funcionar. O eixo de atuação da escola precisa ser deslocado e focar no estudante; óbvio que questões sindicais, salariais e de estrutura seguem relevantes, mas tudo isso deve estar à serviço do estudante, da manutenção dele na escola e de sua aprendizagem. 

Mas e a implantação do Jovem de Futuro?

Pareamos as escolas, criamos grupos (com quatro ou cinco escolas) por semelhança e sorteamos as unidades que irão receber o programa (uma escola por grupo. Ao final de três anos, comparamos os resultados entre a escola sorteada e a melhor escola do grupo que não recebeu a metodologia. Dessa forma isolamos os efeitos das ações, e comparamos a diferença entre as diferenças. É um processo rigoroso, não apenas de medidas de melhoria e sim de transformação real – sempre adaptando as rotinas à realidade local. 

Que resultado já é observado?

Independente do porte da escola, de sua localização geográfica e do perfil socioeconômico dos alunos, onde o programa foi implementado identificamos um aproveitamento 30% maior na aprendizagem de Língua Portuguesa – em Matemática esse impacto é maior (44%). A evasão também diminui. Não se trata de soluções prontas, criamos condições para se buscar soluções: a gestão escolar tem dimensões físicas e financeiras, de pessoal, com a comunidade, e de alguma forma tudo isso precisa estar alinhado.

Um alinhamento em rede?

Exato. Se por um lado temos as emergências das escolas, problemas concretos que não podem ser subestimados, por outro precisamos adotar uma visão mais estruturada mudança, profissionalizar a gestão com a humanização necessária. A partir do momento que o foco se volta para o estudante, são estabelecidas metas reais de aprendizagem, e com isso se cria uma agenda de coerência interna: estratégias para as secretarias, para as diretorias regionais, para as escolas. Importante que tudo seja conduzido pela Secretaria de Educação, e o RN tem diretrizes muitos sólidas e um alinhamento com esse processo que visa reduzir as desigualdades educacionais.

O resultado do IDEB no RN é sofrível: a média do estudante potiguar que concluiu o Ensino Médio em 2017 foi 2,9, a terceira pior nota do Brasil (à frente da Bahia e do Pará). É possível melhorar esses índices com o programa?

O Brasil avançou muito nos últimos 15 anos, só que estávamos saindo do fundo de um poço, e como a desigualdade é muito grande qualquer resultado positivo faria diferença. Com a definição de metas pela Secretaria – rebatidas para as escolas – a melhora nos índices de avaliação é uma consequência natural. O Ideb é confiável, mas não é suficiente, por isso enxergamos o aprendizado como um percurso.

Como envolver gestores, diretores, professores e coordenadores pedagógicos no processo?

A metodologia sugere adoção de procedimentos, protocolos para uma boa gestão, que só são implementados se tiver o compromisso de aprender fazendo – a co-criação. A primeira coisa é fazer um bom diagnóstico sem jogar os problemas para debaixo do tapete, é assim que se começa uma mudança real de cultura e de mentalidade. Parece um detalhe, mas é vital em uma cultura onde a gestão pública é caracterizada pela omissão.

Mas como efetivar esse envolvimento?

Capacitamos diretor e coordenador pedagógico, equipes de diretorias regionais e da própria secretaria, e formamos pessoas capazes de replicar o método. Promovemos encontros quinzenais, semanais em escolas mais vulneráveis. É um círculo longo de parceria, e nossa proposta é a transferência radical de tecnologia: não somos os donos da verdade e buscamos uma sustentabilidade que só será alcançada com participação. Não teremos um time entrosado na base da ordem e da punição, optamos pelo caminho de lidar com variáveis intangíveis como empatia, confiança e diálogo.

E onde Paulo Freire na construção desse método?

Paulo Freire é um pensador fundamental, uma referência mundial para a área de educação. E qual deve ser a maior ambição de uma rede pública de ensino? Nada mais que o desejo de garantir o direito à educação e ao desenvolvimento pleno dos estudantes. Essa é a mensagem fundamental passada por ele. O Brasil deve ter orgulho de ter um pensador dessa magnitude. E se a política pública não estiver à serviço da garantia desse direito, não vai dar certo.

O programa Jovem de Futuro propõe diálogo, confiança, interação, tolerância e participação. Pode ser visto como alternativa à intenção de militarizar escolas?

Não, nada disso. Diria que o programa é bem mais ambicioso. Hoje temos uma sensação de insegurança e da falta de disciplina, como se a escola fosse um ambiente de caos. Não é fato, mas há essa percepção, e daí vem a demanda por esse tipo de estrutura. O Jovem de Futuro apresenta um caminho diferente, com horizontes mais largos e possibilidades de resultados mais consistentes no médio e longo prazos com uma visão de sustentabilidade – totalmente o inverso de uma escola militarizada, que pode até dar algum resultado no curto prazo mas o horizonte é curto. E como vamos lidar com o aprendizado: na base da força ou com diálogo? Apostamos no segundo caminho e temos tido bons resultados.





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