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Natal
RN: 80% das cidades têm cobertura da Atenção Básica
Publicado: 00:00:00 - 25/11/2018 Atualizado: 12:50:45 - 24/11/2018
A rede de Atenção Básica é vista como a estrutura principal de combate a questões como mortalidade infantil e diagnóstico precoce de doenças graves. É nesse momento que a população tem o primeiro contato com profissionais de saúde. No Rio Grande do Norte, 80% das cidades possuem cobertura em Atenção Básica, de acordo com dados da Secretaria de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Norte (Sesap). A Atenção Básica no RN é formada por 5.656 agentes comunitários, 1.041 equipes de saúde da família (cada equipe é formada por um médico), 953 de saúde bucal e 177 do Núcleo Ampliado em Saúde da Família e Atenção Básica.

Alex Régis
Em Assu, unidades básicas de saúde perderam seis médicos cubanos e estão no aguardo da reposição. Pacientes lamentam saída

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Carente de profissionais, a Atenção Básica do Estado foi “transformada” após a criação do programa Mais Médicos pelo Governo Federal. O diagnóstico é do responsável técnico do Núcleo Estadual de Estratégia em Saúde da Família, Hugo Mota. “O programa veio para responder uma dificuldade que as prefeituras tinham de conseguir médicos brasileiros”, disse. A coordenadora da comissão do programa do RN, Ivana Fernandes também pontuou a dificuldade dos profissionais brasileiros de se fixarem nos municípios distantes da capital.

“Os recém-formados passavam um ano e quando faziam provas de residência rompiam com o programa. Ele pode ser muito bom e humano, mas rompia com o sentido de continuidade e permanência porque ele vislumbra uma carreira mais promissora, e na Atenção Básica existe a exigência do cumprimento da carga horária de 40 horas semanalmente”, frisou a gestora,  afirmando que um dos pilares para o bom desempenho da Atenção Básica é formado pelo alto grau de conhecimento que o médico tem da comunidade que atende.

Até 2012, as prefeituras das cidades do interior do RN, principalmente, passavam por dificuldades para conseguir médicos. Hugo Mota lembra de um município que chegou a oferecer R$ 18 mil, à época, e não apareceu nenhum candidato para trabalhar. O coordenador recorda que em 2011, foi lançado um edital para um programa semelhante ao Mais Médicos, o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), e apenas três médicos se candidataram no RN.

“A atenção básica não é só Promoção da Saúde e nem é só tratar de doenças, é uma coisa bem mais abrangente.  Para isso precisamos ter uma massa de profissionais que atinja toda a população”, explicou Hugo Mota. Segundo o coordenador, o ideal é que a cada 3.500 pessoas tenha uma equipe de Saúde da Família para fazer vinculação com a comunidade.

Quando assumiu a prefeitura de Jardim de Angicos, em 2013, a prefeita Suely Fonseca Bezerra viu como solução para a saúde do município a adesão no programa Mais Médicos.  “O programa tem muita credibilidade e de fato funciona, eu não tive dificuldades porque eles tem um cuidado diferenciado com a população. Do meu programa eu só tenho a agradecer aos médicos cubanos”, explico a prefeita, afirmando que a Atenção Básica é uma das prioridades de sua gestão.

Suely Fonseca disse que a prefeitura vive no limite prudencial, ou seja, não pode se comprometer financeiramente e que o gasto de um médico brasileiro fora do Mais Médicos seria de R$ 10 mil a R$ 15 mil mensalmente. “O custo é muito alto para uma prefeitura pequena”, alegou.

O “arrocho” financeiro também se estende a prefeitura de Vila Flor, a 89 quilômetros de distância de Natal. A prefeita  Ivania da Silva Martins, disse que os custos para manter um médico brasileiro é alto. “É uma dificuldade enorme devido a questão de recursos que não suprem a necessidade”, reclamou a prefeita.  A cidade conta com um hospital que atenderá a demanda da população enquanto o médico cubano que deixou Vila Flor não for substituído. 

Personagens
Alex Régis
Médicos cubanos

Médicos cubanos

142 médicos cubanos deixaram o Rio Grande do Norte

“Medo” é a primeira palavra pronunciada pelos médicos cubanos que atuam no interior do Rio Grande do Norte  sobre a possibilidade de conceder uma entrevista. Sem relevar a identidade, eles aceitaram falar sobre a saída do país do programa Mais Médicos no Brasil.  O sentimento em comum entre todos era de dúvida sobre o futuro.  A saída de Cuba do programa, de acordo com os relatos, era algo esperado no governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. “Entre a gente, sabíamos que essa parceria iria acabar com a vitória do Bolsonaro, por causa das declarações que ele dava, mas imaginamos que isso aconteceria de janeiro em diante”, disse um dos médicos em um português sem erros. Ele conta que não considera injusto o dinheiro que devolve à Cuba pelo trabalho no Brasil. “Eu sei que se os meus filhos precisarem de saúde e educação com qualidade, eles vão ter porque o governo investe nosso dinheiro nisso”, disse o médico, frisando que todos médicos assinam contratos para trabalhar no Brasil cientes de quanto irão ganhar. Os médicos cubanos deixam o Brasil em meio a uma parcela da população que agradece pelos serviços prestados, e outra que indaga a capacidade de fazer um bom trabalho. Uma médica cubana afirma que as indagações que recebe sobre a sua  formação “causam tristeza”, mas a possibilidade de ter ajudado crianças e idosos na pequena cidade onde trabalhou, “são suficientes para que o meu coração fique tranquilo diante dessa situação que estão vivendo”. Quando deixar o solo brasileiro, os médicos entrevistados disseram que pretendem voltar a trabalhar em Cuba.

Alex Régis
Rosângela

Rosângela

Rosângela Ribeiro

No bairro Vertentes, localizado na região Central de Assu, a população é considerada uma das mais carentes do município de 58 mil habitantes. Ter médicos de segunda-feira a sexta-feira foi  “um dos melhores acontecimentos dos últimos anos” para os moradores do bairro, e para a gestora da unidade de saúde, Rosângela Ribeiro, 54 anos. A falta de médicos durante todos os dias da semana ocorria, segundo a gestora, porque os brasileiros trabalhavam de dois a três dias na semana, apenas. Nos outros dias, a unidade ficava descoberta. “Depois dos Cubanos temos médicos de segunda-feira a sexta-feira de manhã e a tarde”, disse Rosângela, relatando que houve uma dificuldade inicial entre os médicos e a população por causa do idioma. “Isso não impediu que eles fossem recebidos muito bem, todos gostavam muito do trabalho deles”, descreveu. O futuro, sem os médicos, estava indefinido. A torcida era que os médicos brasileiros conseguissem suprir a ausência dos cubanos. “Em relação aos brasileiros eu vejo a dificuldade deles mesmos de não quererem participar de um PSF (Programa Saúde da Família), porque aqui tem que ter disponibilidade. Eles querem ser plantonistas porque podem conciliar com outro lugar, o difícil vai ser em relação a isso”, disse a gestora, após afirmar que recebeu muitas reclamações após o anúncio da saída dos cubanos. Na manhã desta terça-feira (20), nenhum dos seis médicos cubanos trabalhou nas unidades de Assu. Eles representavam 30% da equipe do Mais Médicos na cidade. A secretaria de saúde do município informou que nunca recebeu nenhuma reclamação na ouvidoria da Prefeitura sobre a conduta e trabalho dos médicos cubanos.

Alex Régis
Francisca

Francisca

Francisca das Chagas Silva

“A gente só sabe que é médica porque é ela que socorre quando estamos doentes”.  Essa frase foi usada pela agricultora Francisca das Chagas Silva, 56 anos, para descrever a personalidade da médica cubana que trabalhou até a segunda-feira (19), na unidade de saúde de Jardim de Angicos. Desde que recebeu a notícia sobre a partida da profissional, chora ao lado da mãe, Anita Souza, de 88 anos. Quando a idosa caiu e sentiu dores na lombar, a médica, que não estava trabalhando no dia, foi até a casa da família consultar a idosa, chegando ao diagnóstico de que não seria necessário um deslocamento até o município mais próximo – João Câmara, que fica a 25 minutos - para fazer um exame de imagem. “Se ela falou, eu acredito. Quando um médico iria sair do seu momento de folga e ir até a casa de um paciente?”, questionou. Os “bons” médicos que teve na cidade foram apenas dois, e a médica cubana é uma delas.  Francisca disse que, assim que médica chegou na cidade, ficou com medo de que fosse “apenas mais um que parece mais uma máquina de dar receitas”, mas se surpreendeu positivamente na primeira semana de atendimento. “Por mim ela ficava aqui pelo resto da vida. Mas já que tem que ir embora, eu espero que a pessoa nova olhe pelo menos a gente direito”, pediu. Da porta de madeira que dá acesso ao lado de dentro da sua casa, Francisca contempla  o pouco movimento da rua e  não entende o motivo da saída “repentina” da médica cubana. Suspeita que tenha motivação política, apesar de não saber qual é. “Eu não sei explicar o que aconteceu, mas eu só sei que esse povo lá de cima nunca teve uma doença e teve que se agarrar apenas em Deus para ter um alivio, porque médico 'pra' atender não tinha”, disse.

Confira vídeorreportagem sobre o impacto da saída dos médicos cubanos no RN:

O que
A série “Por trás dos números” traz nesta última semana de novembro, reportagens sobre a vida das pessoas que dependem da atenção básica. Neste domingo, a primeira reportagem mostra o impacto da saída dos cubanos, por vezes, únicos médicos disponíveis, diariamente, em algumas localidades, principalmente no interior do Estado. A equipe da TN percorreu cidades do Seridó e se deparou com depoimentos cheios de aflição e incertezas para o futuro.

Números
142
médicos cubanos estavam no RN

8 cidades do RN ficarão sem nenhum médico até a substituição

Assu: perde 6 médicos de suas 18 equipes cadastradas, o que corresponde a 33% a menos de cobertura

Jardim de Angicos: perda de 100% dos médicos, por possuir apenas 2 equipes

80% das cidades do RN têm cobertura de Atenção Básica

1.041 equipes de saúde da família

953 equipes de saúde bucal

5.656 agentes comunitários fazem parte da rede

Fonte: Sesap/RN


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