RN tem diminuição de candidatos militares

Publicação: 2020-11-01 00:00:00
Luiz Henrique Gomes
Repórter

Na contramão do crescimento nacional, o número de candidaturas de integrantes das Forças Armadas e corporações de segurança nas eleições municipais do Rio Grande do Norte diminuiu entre 2016 e o pleito deste ano. Segundo o compilado feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 142 nomes ligados a forças de segurança concorrem nas eleições deste ano em municípios potiguares, contra 162 em 2016. Apesar disso, pela primeira vez a capital Natal tem três candidatos a prefeitos ligados à segurança. 

Créditos: Arquivo/TNRedução foi puxada principalmente por menos candidatos da Polícia Militar, que passaram de 103 para 85 no EstadoRedução foi puxada principalmente por menos candidatos da Polícia Militar, que passaram de 103 para 85 no Estado


No Brasil, o movimento foi inverso. A quantidade de candidaturas cresceu de 7.041 em 2016 para 7.258. Os dados constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado na semana passada. Uma das razões que explica esse crescimento é o enorme potencial de votos e a ascendência de pautas ligadas à segurança. O sociólogo, diretor-presidente do Fórum e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Renato Sérgio de Lima, afirma no anuário que “policiais tendem a ser mais eleitos em contextos de crises e de reversão de expectativas não apenas no ambiente econômico mas de prioridades e ideologias políticas.”

Lima cita o crescimento de candidaturas e policiais eleitos a partir de 2010. O período foi marcado pelo crescimento de homicídios e outras mortes violentas, por crises econômicas e políticas. O mesmo período coincide com o crescimento da popularidade do atual presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, eleito com o discurso da pauta de segurança.

“O crescimento do fenômeno dos policiais na política precisa ser matizado pelos múltiplos movimentos do campo, mas também precisa ser lido pela construção de uma narrativa que tem conseguido resumir a política à guerra contra o mal, na qual os policiais são vistos como os guerreiros que irão repor a ordem, a moral e os bons costumes”, analisa o sociólogo.

No Rio Grande do Norte, o número de candidatos ligados à segurança pública diminuiu nas eleições deste ano comparado com 2016. A queda foi puxada principalmente por menos candidatos da Polícia Militar, que passaram de 103 para 85. Em contrapartida, aumentou o número de candidatos membros das Forças Armadas e policiais civis.

Um dos fatores que pode explicar a queda é o contexto de violência específico no estado em 2016. Naquele ano, diversos motins foram realizados em penitenciárias estaduais – fator que motivou o envio de tropas federais para atuar junto aos policiais militares – e as disputas entre facções criminosas se acirraram. O Rio Grande do Norte foi o terceiro estado com o maior índice de mortes proporcionais à população do Brasil. Dezenove candidatos, a maioria Policiais Militares, foram eleitos nas eleições municipais em 2016.

A proporção com relação ao total de candidaturas no Rio Grande do Norte é a mesma do Brasil. Tanto nacionalmente quanto nos municípios potiguares, um a cada dez candidatos são policiais militares, bombeiros, policiais civis (inclusos policiais federais e policiais rodoviários federais) ou membros das Forças Armadas.

No Brasil, o aumento de candidaturas também reflete o potencial de votos. O relatório do Fórum afirma que policiais e membros das Forças Armadas totalizam 5,6 milhões de pessoas, ou 3,8% do eleitorado nacional. Esse contingente é aumentado se levarmos o tamanho médio das famílias brasileiras, de 3,3 integrantes, e chega a 18,5 milhões de habitantes (9%) ligados diretamente a policiais e militares. “Os profissionais da área exploram, como uma forma de ter sucesso eleitoral, pautas de interesse imediato e do cotidiano dos policiais”, analisou o sociólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), Arthur Trindade M. Costa, no relatório.

Presença é maior na chapa majoritária
Apesar da queda de candidaturas de representantes no Rio Grande do Norte, nomes ligados às forças de segurança estão mais presentes em Natal na disputa pela prefeitura. Pela primeira vez desde a redemocratização em 1988, a capital potiguar tem três candidatos com o histórico de estarem ligados às forças de segurança. E esse não é um fenômeno isolado. No Nordeste, apenas São Luiz, capital do Maranhão, não tem representantes da área na disputa pela prefeitura.

Em Natal, os três candidatos são o delegado Sérgio Leocádio (PSL), da Polícia Civil, e os coronéis Azevedo (PSC), da Polícia Militar, e Hélio Oliveira (PRTB), da Aeronáutica. Os três utilizam nos registros de candidatura os cargos e patentes das forças que integram e pautam seus programas do mesmo modo. Outra semelhança é os três serem ligados à direita, o que mostra um distanciamento destas corporações com a esquerda.

A presença de candidatos nas disputas pelo cargo executivo desta eleição chamou a atenção dos pesquisadores porque nas eleições anteriores este tipo de candidatura esteve mais associada aos cargos parlamentares. “Se este fenômeno começou pela representação parlamentar, observamos que agora está se orientando às eleições para cargos executivos”, afirmam Carolina Ricardo e Felipe Angeli, pesquisadores do Instituto Sou da Paz.

No Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o sociólogo Renato Sérgio de Lima chama a atenção para a utilização das pautas nacionais dentro das candidaturas relacionadas à segurança. Ele cita, por exemplo, o sucesso de candidatos saídos da Polícia Civil em 2016, no cenário de alta popularidade da Lava-Jato. “Em termos proporcionais, foram os delegados, mais associados às investigações sobre corrupção, e demais policiais civis e federais, que obtiveram mais êxito nas urnas em 2016”, diz.

Parece existir uma inflexão no sucesso de narrativas, que o pleito de 2020 irá ou não confirmar, pelo qual as candidaturas de policiais estariam tendo mais êxito em bandeiras que migram do combate à corrupção e do debate sobre a eficiência do sistema de segurança e justiça para pautas corporativistas, mas, sobretudo, para a manutenção da ordem e para a agenda de costumes, o que justificaria o maior crescimento da proporção de policiais militares eleitos”, acrescenta Lima.

Números RN
Candidatos relacionados às forças de segurança
Eleições 2012: 170
Eleições 2016: 162
Eleições 2020: 142

Eleitos relacionados às forças de segurança
Eleições 2012: 21
Eleições 2016: 19

Brasil
Candidatos relacionados às forças de segurança
Eleições 2012: 7.486
Eleições 2016: 7.041
Eleições 2020: 7.256

Eleitos relacionados às forças de segurança
Eleições 2012: 848
Eleições 2016: 829

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública