RN vive drama de fazer política sem ter lideranças nem partidos

Publicação: 2019-11-20 00:00:00 | Comentários: 0
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Cassiano Arruda

Faltando menos de um ano para as eleições municipais, o Rio Grande do Norte constata que a sua maior carência nesta fase de entressafra eleitoral é a falta de lideranças, sejam políticas ou regionais.

Os partidos políticos, praticamente, já acabaram aqui no Estado faz algum tempo, desde que passaram a servir, apenas, para a renovação dos mandatos federais de quem encontrou um caminho mais fácil para manter essa posição, e com a nova legislação de financiamento estatal das campanhas, ainda o livrou de qualquer dependência, ampliando  a capacidade individual para conchavos e acordos.

Restavam as lideranças tradicionais, mas essas não tiveram - ou não quiseram - manter a vinculação com os aliados todos alforriados para buscar os seus próprios caminhos políticos, com os seus bônus e ônus, sobretudo na manutenção das bases, assim como no atendimento às diversas demandas, fossem paroquiais, estaduais ou federais.

TSUNAMI ELEITORAL
É preciso lembrar que este tsunami eleitoral formado no rastro da eleição do capitão Jair Bolsonaro para Presidente da República, aconteceu quando a bancada do Rio Grande do Norte na Câmara Federal já era formada por oito Deputados cada um deles  filiado a um partido diferente do outro.

Nas eleições majoritárias, as alianças passaram a ser ainda mais episódicas, sem maiores compromissos depois da contagem dos votos, a não ser a alocação de recursos para a própria campanha, valendo tudo, dinheiro "por dentro" ou "por fora". Sem qualquer preocupação com a origem fosse lícita ou ilícita; raciocínio do tempo em que ainda se dia que dinheiro não deixava rastro o que mudou - e como mudou - com o estabelecimento de controles para dificultar a ação do terrorismo internacional.

Essa mixórdia política criou um quadro ideal para acontecer o que aconteceu no RN. Numa eleição casada, a maioria dos candidatos não demonstrou maior interesse com a eleição de mais ninguém, nem mesmo com a eleição presidencial, a não ser dos que se seguraram no fenômeno Bolsonaro e conseguiram eleições tidas como improváveis. E o maior reflexo aconteceu,  justamente, na eleição majoritária onde os políticos mais experientes terminaram derrotados por neófitos, como foi o caso de dois ex-governadores barrados por um capitão da Polícia Militar, sem tempo de televisão e sem outra ligação,  que ficou conhecido pelo bom uso do bafômetro nas madrugadas natalenses fazendo aplicar a "Lei Seca" pelos condutores de veículos.

CADA UM POR SI
Essa história de "cada um por si e Deus por todos" não se aplica bem à atividade política, que tem o seu fundamento principal na capacidade de agregar pessoas que acreditem nas suas propostas.

 Afinal de contas, campanhas eleitorais são desenvolvidas justamente para atrair eleitores que tenham identidade com o candidato e suas ideais.

Mas essa situação termina chegando ao eleitorado, e o Rio Grande do Norte que era um Estado marcado pela participação popular (quando cada casa tinha uma bandeira, bandeira verde de Aluizio Alves, e bandeira vermelha de Dinarte Mariz) hoje o interesse é cada vez menor, se resumindo a militantes (a maioria deles remunerados), familiares dos possíveis candidatos e os próprios.

A eleição passada mostrou outra situação representada pelas campanhas solitárias. Os ex-governadores Geraldo Melo e Garibaldi Alves, optaram por candidaturas solo, enquanto a deputada Zenaide Maia, ligou-se à Fátima Bezerra. Zenaide havia sido eleita, quatro anos antes,  para o lugar do seu irmão, João Maia, e depois de eleita assumiu uma posição nítida de esquerda, ao contrário de João defensor de ideias liberais. Na campanha para o Senado, enquanto Geraldo e Garibaldi se perderam sozinhos, Zenaide fez dobradinha com Fátima e quando esta cresceu a levou consigo.

UM NOVO QUADRO
Depois de onze meses da nova bancada começa a se pronunciar  um saudosismo latente, sobretudo entre prefeitos e políticos interioranos. Eles sentem a falta, principalmente, do apoio que recebiam em Brasília, do então senador José Agripino, e do deputado Henrique Alves, cujo conhecimento e prestígio servia para marcar audiências e liberar verbas, conseguir convênios, enquanto os novos ainda não conseguiram se firmar nesta área.

Sem mandato, os dois estão em Natal, sem estarem totalmente afastados da política, mas tendo outras prioridades.

Agripino ainda comparece à sede do DEM de vez em quando e procura - mesmo sem mandato - atender as demandas dos antigos correligionários. Henrique continua sendo muito procurado mesmo sem instrumentos de ação, inclusive partidária, tendo comparecido às movimentações do MDB de forma protocolar.

E OS PARTIDOS
O MDB passou de pai para filho. Garibaldi transferiu a presidência do partido para o deputado Walter Alves, único da família Alves que elegeu-se, e depois de assumir o partido  conseguiu atrair alguns Prefeitos para a legenda, mas não satisfaz a velha guarda aluizista carente de diálogo.

O PT continua mais PT do que "Partido do Governo", e seu crescimento não será o de se esperar de um "Partido do Governo" no RN, que não combina muito com os seus principais nomes, independente da avaliação do Governo Fátima.

Mesmo com Rogério Marinho brilhando no cenário nacional, ele não representa o PSDB, cada vez mais o Partido da Assembleia. O Partido depende do deputado Ezequiel Ferreira e do seu gosto pela política não tendo qualquer identidade com o seu discurso nacional tanto em relação ao Presidente Bolsonaro ou as candidaturas que tente criar.

E o PSL de Bolsonaro? - Elegeu dois deputados. Já perdeu um; e o outro está no caminho da saída. Se o Presidente da República não consegue definir o que está querendo em termos partidários é ainda mais difícil imaginar como será o seu partido e como este chegará ao Rio Grande do Norte.

Resultado: Por enquanto estamos condenados a praticar a pequena política feita nas pequenas legendas (algumas acusadas de ser legenda de aluguel). Na esperança que a eleição municipal possa revelar alguma liderança que tenha a capacidade de buscar correligionários e agregar aliados é hora de esperar não apenas pelo "novo", mas por quem tenha condições de liderança. Começando por espírito público e capacidade de agregar aliados e abrir espaço para eles.

Sem partidos nem líderes de expressão, o RN parece estar vivendo um saudosismo até para constatar a boa situação dos seus vizinhos ou contrário das nossas carências...




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