Roberto Linhares: “Esperamos normalizar o abastecimento de água no Estado”

Publicação: 2020-01-26 00:00:00
A+ A-
Mariana Ceci
Repórter

Os primeiros dias de 2020 trouxeram perspectivas otimistas para o abastecimento de água do Rio Grande do Norte, que desde 2018 tenta recuperar suas reservas hídricas, exauridas após sete anos de seca. No primeiro dia do ano, a Empresa de Pesquisas Agropecuárias do RN, a Emparn, já havia registrado chuvas em 80 dos 98 pontos monitorados, e os volumes até o dia 15 de janeiro eram 104,4% superiores aos esperados durante esse período do ano. 

Créditos: Arquivo TNRoberto Linhares espera que inverno possas normalizar o abastecimento nos municípios em colapso e em sistema de rodizioRoberto Linhares espera que inverno possas normalizar o abastecimento nos municípios em colapso e em sistema de rodizio
Roberto Linhares espera que inverno possas normalizar o abastecimento nos municípios em colapso e em sistema de rodizio

Diante da possibilidade de um bom inverno, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern), se prepara para a possível retomada do fornecimento de água em diversos municípios do Estado que se encontram em situação de rodízio e espera que, ao menos, um dos dois municípios em situação de colapso (Paraná e São Miguel, ambos no Alto-Oeste) possam sair da situação até o fim do período chuvoso, em maio. 

A situação mais crítica do abastecimento está na mesorregião do Alto-Oeste potiguar, onde a chuva ainda não foi capaz de recuperar significativamente as reservas hídricas. Em outras regiões, como o Seridó, a situação é mais favorável: em Acari, o Açude Marechal Dutra, popularmente conhecido como Gargalheiras, atingiu seu maior volume desde o ano de 2014, equivalente a 7,37% de sua capacidade, o que garante o abastecimento da cidade de Currais Novos, uma das maiores da região, até o fim do ano. 

De acordo com Roberto Linhares, presidente da Companhia, a Caern encontra-se “preparada e ansiosa” para começar a levar a água dos reservatórios às residências potiguares. Ele garante que a manutenção das tubulações está em dia, e o processo para iniciar o abastecimento com as águas que caíram nos reservatórios antes seco agora depende de análises técnicas e testes de qualidade da água, que estão em progresso. 

Apesar das boas perspectivas para 2020 no que concerne ao abastecimento humano, a Caern ainda tem desafios pela frente, como tornar-se mais rentável – entre os meses de novembro e dezembro de 2019, a Companhia conseguiu aumentar R$ 10 milhões em seu orçamento através de fiscalizações e, pela primeira vez em anos, fechou o ano com lucros – para ter recursos de investimento a fim de atingir as metas de fornecimento de água e esgotamento sanitário para o Estado, que ainda se encontram abaixo da média nacional. Confira a entrevista.

Desde o primeiro dia do ano, temos registro de chuvas em diversos pontos do Estado, e alguns reservatórios, como o Gargalheiras, estão começando a se recuperar. As tubulações e estruturas disponíveis para enviar essa água aos municípios passou por manutenções recentes e tem condições de dar início à distribuição dessa água?
Temos que agradecer a Deus, porque está acontecendo uma recarga em alguns pontos que eram inesperados, como é o caso do Gargalheiras, que atingiu seu ponto mais alto desde 2014 ainda na primeira chuva do ano. Somente essa recarga já garante o abastecimento de Currais Novos por um ano, e a tendência é que tenhamos um inverno bem melhor do que em 2019, que foi o melhor dos últimos seis anos. Estamos preparados para isso, e ansiosos para começar a distribuir essa água, mas precisamos antes passar por alguns processos para dar início à distribuição. No caso do Gargalheiras, por exemplo, é preciso analisar antes a qualidade da água, para ver se ela é realmente potável. Em outros locais, a situação é muito similar. A Armando Ribeiro, que é a nossa maior reserva, tem recebido bastante água, já pegou 10 milhões de metros cúbicos, atingindo cerca de 23% de sua capacidade. Torcemos para que o inverno se intensifique, e estamos preparados para fazer essa distribuição a partir do momento que houver recarga dos reservatórios. Hoje, a região do Alto-Oeste é a que está apresentando os principais problemas de abastecimento do Estado, então esperamos que o bom inverno chegue também nessa região, porque ela nos preocupa bastante. 

Em dezembro, a Caern estimava que 11 municípios estavam em risco de entrar na situação de colapso antes do início do período chuvoso. Considerando o volume de chuva captado no primeiro mês do ano, essa perspectiva se mantem?
Nossa perspectiva está muito mais otimista. Hoje, temos apenas dois municípios em colapso, São Miguel e Paraná, e a gente espera que consiga inclusive resolver a situação deles com o período invernoso de 2020, e normalizar o abastecimento em todo o Estado. Até mesmo no Alto-Oeste, que é a região mais crítica, muitos reservatórios pegaram água. Outra questão importante é que a chuva não recarrega apenas os reservatórios físicos, mas também os subterrâneos, a partir do momento que se infiltra no solo. Isso melhora a situação do lençol freático, e resulta em poços com maior capacidade de vasão. A tendência é de que ao menos mais um município saia da situação de colapso com o início do período chuvoso. A depender do inverno em si, até mesmo os dois podem sair dessa situação.

Os reservatórios cheios trazem à tona outra questão, que é um problema antigo no abastecimento do RN, de acordo com vocês: a perda da água, que representa quase metade do valor distribuído. Que medidas estão sendo tomadas para prevenir essas perdas, diante da possibilidade de começar a abastecer mais municípios?
Nós dividimos as perdas em dois tipos: as perdas comerciais, e as perdas físicas. As perdas comerciais são aquelas proporcionadas pelas pessoas que fazem o gato, que não pagam a água, que tira ela do vizinho de forma irregular ou de um lugar que deveria ser gratuita. É realmente o roubo de água. Essa perda comercial está sendo bastante reduzida, graças às fiscalizações. Na Zona Norte de Natal, por exemplo, nós temos 40 mil casas “sem água”, o que é inconcebível. Na prática, significa que essas pessoas estão obtendo água de outra forma, muitas vezes através desses métodos irregulares. O nosso primeiro plano de Parceria Público-Privada para o ano de 2020 é justamente nesse sentido. Queremos que a iniciativa privada fique à cargo de realizar a reativação de parte dessas ligações. Nós vamos indicar onde as ligações estão inativas, então a iniciativa privada vai até lá, faz a religação, inicia a operação e ganha em cima disso. Depois, passa cinco anos à frente dessa operação e, depois, devolve à Caern com elas já operando e funcionando corretamente. Nós já tivemos duas reuniões e, no momento, o termo de referência da licitação está em confecção. A nossa ideia é reduzir essas perdas ao menos de 50% para 30%, que é um valor aceitável, considerando as perdas físicas, que podem acontecer por diversos motivos, como tubulações que precisam ser trocadas, canos estourados, vazamentos na rede etc.

O senhor comentou que as fiscalizações já tiveram início. Já houve impacto na arrecadação a partir disso? De quanto?
A fiscalização mais intensa começou no fim do ano passado, e a cobrança começou em novembro. Em 2019, a nossa média de arrecadação mensal era de cerca de 50 milhões de reais. Hoje, estamos na faixa dos R$ 60 milhões. É um aumento significativo em poucos meses, que impacta em lucratividade, eficiência, maior capacidade de investimento e, consequentemente, melhoria na qualidade da rede. Em uma no inteiro, teríamos incremento de R$ 100 milhões, o que é algo muito significativo. Essas operações de fiscalização são importantes, porque estamos lidando com o erário público. Há condomínios que tiram água da rua para aguar um determinado canteiro, e isso é criminoso. Precisamos desses recursos para poder investir em esgotamento sanitário e distribuição de água, porque o novo Marco Legal estipula uma meta de 99% de distribuição de água sem intermitência, e 90% de cobertura de esgotamento sanitário. 

Hoje, o Rio Grande do Norte possui uma cobertura de esgotamento sanitário que está abaixo da média nacional (37%). Há uma previsão de tempo e valores para que o Estado consiga alcançar as metas do Marco Legal?
O Plano Nacional de Saneamento Básico prevê que essa meta deve ser atingida até o ano de 2033. Aqui no Rio Grande do Norte nós precisaríamos de R$ 8 bilhões em investimentos, uma quantia enorme. É por isso que a Caern precisa, com urgência, se tornar mais eficiente e lucrativa. Ano passado nós conseguimos fechar o ano com cerca de R$ 30 milhões, uma vitória para uma Companhia que vinha fechando ano após ano em situação de prejuízo. Entretanto, a Companhia precisa se tornar mais lucrativa para aumentar a nossa capacidade de investimento. Hoje, eu não tenho condição de investir no nível que eu preciso para atingir essas metas. Na Região Metropolitana, é sofrível o esgotamento sanitário. Apenas em Natal e Parnamirim há um cenário um pouco mais favorável. O avançar desses números vai necessitar de muito dinheiro. Para solucionar isso, a única saída é aumentar a eficiência da Caern, captar mais recursos para investir e trazer o setor privado para junto, porque o Estado não vai ter dinheiro para fazer esse investimento. 

Quem
Roberto Linhares é advogado, com pós-graduação (MBA) em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e em Desenvolvimento Regional Sustentável pela Universidade Federal da Bahia (UFBA/Inepad). Ele é funcionário de carreira da Caixa Econômica Federal, onde exerceu o cargo de Superintendente Regional do RN por quase sete anos. Foi cedido pela Caixa ao Estado em 2019 para assumir a gestão da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern), onde atualmente é presidente.