Roberto Linhares, da Caern: 'A Caern saiu do prejuízo para o lucro'

Publicação: 2020-05-17 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Na contramão da maioria das instituições estatutárias, que acumulam prejuízos financeiros anualmente, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern) encerrou o ano de 2019 de uma forma surpreendente em seu balanço contábil. A empresa registrou lucro líquido de R$ 28,8 milhões.

Créditos: Adriano Abreu

Na entrevista a seguir, o diretor presidente da instituição, Roberto Linhares, detalha o balanço contábil de 2019 e ressalta os números mais expressivos, que comprovam a mudança de gestão e obtenção de resultados positivos ao longo do ano passado.

Foco nas práticas de Governança corporativa foi essencial para melhorar os resultados da Companhia. Abaixo, Roberto Linhares fala sobre o cenário atual vivido pela Companhia no momento de pandemia e os esforços para manter os resultados positivos ao longo de deste ano. Acompanhe.

A Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte recentemente publicou o balanço contábil anual. Do seu ponto de vista, quais números merecem destaque e por quais motivos?
O primeiro destaque a ser feito é referente ao próprio Balanço. Pela primeira vez na história da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte, o balanço é aprovado pela Auditoria Externa como sendo sem ressalvas. Este ponto é resultado da implantação de um processo de aperfeiçoamento da gestão, por meio da implementação de práticas de Governança Corporativa e da adoção das Normas Internacionais de Contabilidade.  Nesse caso, é importante ressaltar o corpo técnico de alta qualidade do órgão público. Nos resultados apresentados pelo balanço, tenho a destacar que a Caern saiu de um prejuízo de R$ 10,7 milhões em 2018 para um lucro líquido de R$ 28,8 milhões em 2019.  Ao longo de 2019, a empresa acumulou um faturamento líquido de R$ 668,7 milhões, contra R$ 645,6 milhões do ano anterior. Isso representou um aumento de 3,57%, ou seja, R$ 23 milhões. O resultado operacional (calculado antes da dedução das despesas de juros provenientes de financiamentos contraídos pela companhia) foi de R$ 24,4 milhões, enquanto no ano anterior ele tinha se apresentado como um prejuízo de R$ 26,1 milhões. A Companhia obteve em 2019 um EBITDA (montante representado pelo lucro antes de taxas e impostos) de R$ 97.800 milhões, enquanto em 2018, esse valor foi de apenas R$ 44.280 milhões, representando um aumento de R$ 53,5 milhões. São números que colocam a Caern numa perspectiva muito boa. Esse resultado é, também, mérito do Governo do Estado, que possibilitou autonomia da Companhia, uma confiança creditada pela própria governadora Fátima Bezerra que tem sido defensora de uma Caern forte e independente.

Depois de quantos anos a Companhia conseguiu findar um balanço contábil positivo e como foi possível mudar essa realidade?
Considerando lucro financeiro e lucro contábil (ou seja, o lucro não advém de ajustes de contas contábeis, reversão de provisões ou reservas), é um dos maiores resultados apresentados ao longo dos 51 anos da Caern. Como já destacamos, em 2018 a Caern teve um prejuízo de R$ 10,7 milhões e em 2019, um lucro de R$ 28,8 milhões líquidos. O resultado, que é extremamente positivo para a Companhia, reforça para a população do Rio Grande do Norte que com uma gestão eficiente, a empresa é sim lucrativa. O segredo para se mudar a realidade da Caern está justamente no cuidado com o bem público através do respeito ao erário, transparência, governança e ética. O engajamento da equipe e principalmente foco na missão e visão da Companhia contaram muito. Assim, é importante destacar que como empresa pública, o principal norteador da Caern e a meta que se busca dia a dia, é a boa prestação do serviço para a população. Um detalhe não pode deixar de ser mencionado. Ao ser lucrativa, a Companhia reinveste recursos no saneamento básico, podendo ampliar os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Como o senhor recebeu a Caern e como ela está hoje? Quais setores passaram por maiores transformações e quais os resultados dessa mudança?
A Companhia estava numa situação financeira não estável, sendo esse um dos pontos mais importantes no trabalho realizado até agora. Ou seja, hoje, mesmo durante a pandemia, temos um caixa equilibrado. Porém, as mudanças estão acontecendo em todas as áreas da empresa, desde a área de pessoas (com um comitê de ética atuante e trazendo à responsabilidade aqueles que transgridam as normas da Caern), passando pela inovação tecnológica, em que a entrada no mercado livre de energia é um dos destaques, e a governança mais priorizada, incluindo a adoção das normas internacionais de contabilidade. Em relação ao mercado livre de energia, por exemplo, a Caern fará a contratação de energia de diferentes geradores ou comercializadoras de diversas fontes de geração. A mudança deve gerar uma economia mínima de R$ 44 milhões para a Caern, num período de cinco anos. Nacionalmente, a Companhia se destaca pelo número de unidades que farão uso dessa energia. Serão 60 unidades consumidoras, entre poços, estações elevatórias de água bruta ou tratada e estações de tratamento de água e de esgoto a serem abastecidos com energia do Mercado Livre. Reforço, novamente, que quando estamos economizando podemos aumentar o lucro para reinvestir na prestação de serviço.

O senhor acredita que em 2020, mesmo diante dessa pandemia, será possível encerrar o ano com um saldo de caixa positivo? Quais medidas estão sendo adotadas para que isso ocorra?
A depender do tempo de duração da crise, sim. No cenário anterior à pandemia, projetávamos um resultado positivo de cerca de R$ 70 milhões em 2020, mas é esperado que a pandemia influencie em muito nesse número, puxando-o para baixo. No entanto, buscaremos que seja um ano de eficiência e lucratividade, com aumento da capacidade de investimento, mesmo com a pandemia que estamos atravessando no momento. Isso sem deixar de dar nossa contribuição para a sociedade (responsabilidade social) e respeitando o meio ambiente. Hoje, estamos com suspensão da cobrança da tarifa social, dos consumidores que já estavam cadastrados, minimizando o impacto da pandemia para a população mais carente. Um ponto positivo que também deve ser observado é que neste ano estamos saindo efetivamente da crise hídrica no interior do RN, melhorando significativamente nossa capacidade de abastecer a população. Também destaco que a Caern tem um serviço que é reconhecidamente essencial para todos. Assim, mesmo durante a crise do Coronavírus não deixamos de trabalhar. Todo mundo precisa de água, especialmente agora em que as recomendações de higiene são tão importantes. Claro que a companhia está cuidando de todas as medidas de segurança para que o nosso colaborador possa desempenhar seu trabalho com tranquilidade. Um dos pontos que destaco também é a modernização do atendimento ao consumidor através dos canais virtuais, possibilitando o recebimento de demandas digitalmente.

Qual é hoje o maior problema da empresa? O índice de inadimplência está em qual percentual e de que maneira essa ausência de quitação de dívidas afeta a saúde financeira da Caern?
O maior problema da Caern são seus processos arcaicos e engessados pela burocracia das normas públicas. A modernidade e evolução tecnológica são fundamentais para a continuidade da empresa. Mas, temos trabalho para, mesmo dentro das limitações, agilizarmos o andamento de processos na Companhia. Ressaltando, principalmente, que temos a prestação de um serviço essencial para a população. A Caern vem se modernizando para dar uma resposta cada vez melhor. Em relação ao índice de inadimplência, atualmente é de cerca de 13,3%, sendo que o setor público responde pela maior parte dessa inadimplência. Essa inadimplência é limitadora para a obtenção de resultados mais robustos pela companhia. Em relação à inadimplência dos consumidores, a Caern tem desde o ano passado reforçado campanhas de recuperação de crédito, levando para o cliente condições especiais de negociação. Agora neste momento de pandemia, por exemplo, temos suspendido juros e multas de débitos anteriores a dezembro de 2019, possibilitando que aquela pessoa que está precisando da água possa fazer sua religação.

Quais são hoje os maiores devedores, continuam sendo os municípios? Como a Caern tem dialogado em busca de uma resolução desses casos?
Sim, os municípios continuam a figurar como os principais devedores da Companhia. Atualmente, buscamos soluções para esses atrasos, bem como de órgãos do Estado e até federais. Esse é um trabalho de formiguinha que vale a pena ser reforçado. Mas, continuamente temos buscado essa aproximação e articulação com as prefeituras, no intuito de sanar esses casos.

Em relação ao desperdício de água em Natal e no RN como um todo, tem caído? Como está o combate a esse problema?
A Caern vem permanentemente alertando a população para o uso racional da água, seja nas redes sociais ou em seus projetos de educação ambiental. Esse trabalho visa, principalmente, a consciência ambiental e a redução de consumo. Observe que com esse trabalho a empresa tende a reduzir também o seu faturamento. Mas, o uso consciente da água é importante em todos os lugares do mundo, principalmente, no Semiárido. Não visamos o faturamento irresponsavelmente, ao contrário, nos empenhamos em difundir a boa consciência do consumo racional de água. Por outro lado, a Companhia tem a redução de perdas de água no nosso radar diário. Testamos trabalhando em todas as frentes desde a retirada mais rápida de vazamentos e estouros de redes e adutoras à fiscalização e retirada de ligações ilegais. Começaremos assim que possível a trabalhar com contratos de performance, para reduzirmos ao máximo essa perda. Ainda há muito a andar nesse item aqui no Rio Grande do Norte.