Robinson e Fábio receberam propina, acusa diretor da J&F

Publicação: 2017-05-20 00:00:00
O diretor de Relações Institucionais e Governo da J&F (holding do grupo JBS), Ricardo Saud, revelou “pagamentos de propinas” que somaram R$ 10 milhões ao governador Robinson Faria (PSD-RN) e ao deputado federal Fábio Faria (PSD-RN) na campanha eleitoral de 2014 em troca do grupo ficar com a concessão dos serviços de água e esgoto controlados atualmente pela Caern. A acusação foi feita por Saud em depoimento  sob compromisso de delação premiada, na Procuradoria-Geral da República. Ele disse que a J&F só não recebeu a “contrapartida”, porque desistiu de entrar no ramo de concessões a partir do momento em que as empreiteiras Odebrecht e a OAS passaram a enfrentar investigações e processos na Lava Jato. “Preferimos perder o que gastamos”, disse.
 
Créditos: Alex RegisRobinson Faria nega as acusações e afirma que doações foram legais e declaradas ao TRERobinson Faria nega as acusações e afirma que doações foram legais e declaradas ao TRE

Robinson Faria nega as acusações e afirma que doações foram legais e declaradas ao TRE

saiba mais

Nos acertos com a J&F, em 2014, o deputado federal Fábio Faria, que concorria à reeleição, e o então candidato a governador Robinson Faria, teriam se comprometido que grupo empresarial "indicaria um secretário de estado". Ricardo Saud disse que a exigência foi feita, e aceita, para que a empresa tivesse a condução do processo de privatização. 

As informações estão em um dos vídeos da delação do executivo da holding que controla a JBS. O sigilo das delações foram levantados pelo Supremo Tribunal Federal.

Ridardo Saud narrou desde os primeiros contatos feitos por Robinson e Fábio Faria com o proprietário da JBS, Joesley Batista. Houve inicialmente um jantar, no qual Robinson foi informado sobre a intenção da J&F de ser beneficiada com a privatização da Caern. “Falamos: 'No Rio Grande do Norte temos um interesse muito grande, desde que você privatize'”, afirmou Saud.

Segundo o diretor da J&F o mesmo interesse tinha a Odebreht Ambiental e a OAS. A preocupação  dos diretores da J&F era com uma possível dificuldade de concorrer com as duas outras empreiteiras, que já tinham experiência do setor de concessões. Por isso, apostaram que, com o pagamento de propina, teriam a preferência. Mas, ele revelou no depoimento, as outras duas empresas também fizeram doações à campanha do então candidato a governador pelo PSD.

“O mesmo dinheiro que tomou da gente, tomou das outras duas, dizendo que iria vender a água e o esgoto”, disse o diretor da J&F no depoimento.

Créditos: Arquivo TNFábio Faria também nega as acusações do diretor da J&FFábio Faria também nega as acusações do diretor da J&F

Fábio Faria também nega as acusações do diretor da J&F

Apesar disso, Saud estava confiante de que, com a doação dos R$ 10 milhões, teria a preferência na privatização. “Sem nós, você não ganha eleição. Mas temos que deixar firmado que vamos indicar um secretário de Estado e esse secretário vai acompanhar tudo de perto,  porque eu sei que o senhor não é muito confiável”, disse Raimundo Saud a Robinson, segundo revelou no depoimento.

“Acompanhar tudo”, explicou o delator, seria conduzir o processo de privatização da companhia de água e esgoto, a Caern e direcionar o processo para que a J&F fosse a vencedora. “Demos a propina para ele, dinheiro vivo, notas fiscais. Algo em torno de R$ 10 milhões”, detalhou.

Segundo Ricardo Saud, depois do acerto, o deputado Fábio Faria  passou a ir diariamente à  empresa. “Pagando a gente tava. Mas [ele ia] para pedir mais. Falava: 'Eu preciso ganhar a eleição, meu pai precisa ganhar a eleição”. [Era] Um negócio até indigesto. E foi feito. As propinas que já falei [foram pagas]. Tudo dissimulado. (Com) Notas fiscais de escritório de advocacia. Dinheiro vivo pra lá, dinheiro vivo pra cá. Ele mesmo arruma de um supermercado para descontar”, disse Ricardo Saud.


Número
10 milhões teriam sido entregues pela J&F em troca de ser beneficiada com a concessão dos serviços de água e esgoto.

DEPOIMENTO
Leia alguns dos principais trechos do depoimento do diretor de Relações Institucionais da J&F (holding do grupo JBS), Ricardo Saud, que citam Robinson Faria e Fábio Faria: 

“Eles procuraram o Joesley [Batista, dono da JBS]. O Fábio [Faria] procurou a gente. Fizemos um jantar lá em São Paulo na casa do Joesley e daí começamos as conversas”.

“Queríamos muito trabalhar com concessão de água e esgoto, assim como fizemos em Santa Catarina. E fizemos a mesma proposta para o Robinson. Dissemos: 'Robinson, o Fábio Faria está todo dia aí, o Joesley fez esse jantar para vocês, um jantar até muito elegante’”. O Fábio [foi] com a noiva dele, a Patrícia Abravanel. O Robinson, com a esposa dele. Nós todos, com nossas esposas. Para tratar de propina. Até bacana, né? Aí falamos: ‘No Rio Grande do Norte temos o interesse muito grande, desde que você privatize’. Já tínhamos feito um estudo mais ou menos das empresas que estavam quebradas de água e esgoto que poderíamos comprar, desde que participássemos do edital, para facilitar, porque senão ninguém concorria com a OAS e com Odebrecht Ambiental, seria impossível”.

“E o mesmo dinheiro que tomou da gente tomou das outras duas também dizendo que iria vender a água e esgoto. E aí falamos [para Robinson Faria], se fizermos o edital, participarmos. Já teve uma parte do dinheiro do Kassab para te dar, assim como para o Raimundo Colombo. Nós complementamos aqui e fazemos você ganhar a eleição. Sem nós, você não ganha eleição. Mas [afirmamos]: ‘temos que deixar firmado que vamos indicar um secretário de Estado e esse secretário vai acompanhar tudo de perto para nós, porque eu sei que o senhor não é muito confiável’. Acompanhar tudo é o processo de privatização da companhia de água e esgoto”.

“Demos a propina para ele, dinheiro vivo, notas fiscais. Algo em torno de R$ 10 milhões. A aí esse deputado Fábia Faria muda lá para dentro da J&F. Ficou lá dentro vinte dias. Lá todo dia, Todo dia, todo dia... Para cobrar o dinheiro. Pagando a gente tava. Mas para pedir mais. Falar: “Lá é tudo de vocês, eu preciso ganhar a eleição, meu pai precisa ganhar a eleição”. Um negócio até indigesto. E foi feito. As propinas que já falei. Tudo dissimulado. O PSD nacional carimbando com Robinson. Notas fiscais de escritório de advocacia. Dinheiro vivo pra lá, dinheiro vivo pra cá. Ele mesmo arrumada um supermercado para descontar”.