Rogéria Medeiros : "Em três meses, fila para transplante de córnea cresceu quase 40% no RN"

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Tales Lobo
Repórter

A pandemia de covid-19 causa uma pressão gigantesca no sistema de saúde brasileiro e o impacto vai além da necessidade de estrutura para o tratamento da doença. O isolamento social e a atenção voltada para o combate ao novo coronavírus afetam e dificultam o tratamento de outras doenças e a realização de procedimentos médicos como doação e transplante de órgãos. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, a coordenadora da Central de Transplantes do Rio Grande do Norte, Rogeria Medeiros, fala sobre a diminuição no número de doações, aumento da fila de espera, conscientização e mudanças de protocolo causadas pelo vírus.
Créditos: Adriano AbreuRogéria Mendes, coordenadora da Central de Transplantes do Rio Grande do NorteRogéria Mendes, coordenadora da Central de Transplantes do Rio Grande do Norte

De acordo com dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o número de transplantes de rins, fígado, coração e pâncreas registrado no Brasil em abril de 2020 é 34% menor do que no mesmo período do ano passado. Ainda segundo a ABTO, a redução supera os 50% nas regiões Norte e Nordeste, onde estados como Ceará e Pernambuco suspenderam totalmente a realização de transplantes de rins.

No Rio Grande do Norte a situação não é tão crítica quanto nos vizinhos Ceará e Pernambuco, no entanto o Estado já começa a sentir o impacto da pandemia na quantidade de transplantes. A rede de saúde potiguar realiza apenas três tipos de transplante; córneas, rins e medula óssea. Devido à pandemia, cirurgias envolvendo córneas e medula óssea foram praticamente paralisadas, com exceção dos casos de urgência, o que provocou um grande aumento da fila.

Outros fatores associados a pandemia apontados como causa da queda no número de transplantes são o medo de pacientes e doadores de se contaminarem no deslocamento até os hospitais, a falta de leitos em UTIs, a dificuldade de acesso às famílias dos possíveis doadores, além da suspensão de vôos comerciais para transportar os órgãos e até a redução do número de mortes cerebrais devido à redução do número de acidentes durante a quarentena.

Qual a situação atual na área de transplantes do Estado?

As estaduais de transplante são submetidas a Central Nacional. Eles que nos orientam como proceder. Desde 20 de março, a central suspendeu, bloqueou os transplantes de tecidos. Aqui no RN o único tecido que a gente faz é córnea. Então desde meados de março não estamos podendo transplantar córnea, exceto em urgências, que são casos muito específicos como fratura ou ruptura de globo ocular, uma úlcera grave. Com isso, estamos com mais de 260 pacientes em espera para transplante de córnea, que só poderão ser feitos com segurança após a pandemia. O transplante de rins diminuiu muito a captação por uma série de motivos ligados ao isolamento social. O transplante de medula sempre acontece em urgência e obedece a uma fila nacional com cadastro por todo o país.

Quais as principais causas identificadas para a redução dos transplantes?

Por conta do isolamento social o número de doadores caiu muito. Esses doadores são pessoas que sofreram acidente de carro, sofreram AVC ou traumas em geral. Com as pessoas ficando mais em casa, diminui o número desses doadores. Além disso, quando o paciente tem o diagnóstico de morte encefálica e é o potencial doador, se faz uma avaliação e consulta a família para saber se gostariam de doar. O que acontece agora é que o Sistema Nacional de Transplantes obrigou, por conta da pandemia, que todo paciente possível doador seja testado para o coronavírus. Através de parcerias com laboratórios colocamos os possíveis doadores como prioridade para o exame e estamos conseguindo resultados entre 12 e 24h. Contudo, as famílias não querem aguardar, porque esse paciente vai ter que ficar na UTI até o resultado sair e a maioria quer o corpo logo para realizar o velório e se despedir.

O paciente acometido pela covid-19 pode doar algum órgão?

Não pode. Foi covid positivo não pode doar. Porque é um vírus muito novo, mas as pesquisas mostram que há vírus nos órgãos. Então transplantando o órgão desse paciente para um outro, posso estar contaminando o outro. Então sendo covid positivo está proscrita, suspensa a captação. Por isso todo possível doador está sendo coletado o exame.

Com o exame negativo para covid-19 e autorização da família, a captação do órgão ocorre dentro da normalidade ou há alguma dificuldade devido a concentração de esforços no combate ao vírus?

O Rio Grande do Norte ainda está conseguindo fazer transplantes na vigência da pandemia. Diminuiu muito o número de doadores, mas tento doador estamos conseguindo sim captar. Esse mês inclusive recebemos rins de Pernambuco. Pernambuco está captando, mas não consegue transplantar, porque os hospitais estão tão lotados que não têm centro cirúrgico, não têm UTI, não têm um ambiente sem vírus que possa transplantar o paciente. Esse mês o Rio Grande do Norte conseguiu fazer transplantes, contudo o número está muito reduzido. Isso está acontecendo no Brasil todo e aqui no Nordeste, nossos vizinhos Ceará e Pernambuco estão com transplantes parados.

Como era a situação do Rio Grande do Norte antes da pandemia? Havia uma fila grande?

Antes, a gente já tinha uma fila para transplante de córnea com mais ou menos 190 pacientes e agora está em 260. Então em três meses, aumentou quase 40% de pacientes. A fila de rins basicamente continua a mesma. São 110 pacientes aguardando. Pacientes que fazem hemodiálise e estão aptos a fazer transplante, porque alguns fazem hemodiálise e não estão aptos ao transplante. Esses pacientes estão aguardando órgão, doadores. E desses doadores o nosso Estado está muito devassado em números. Isso já estava antes do coronavírus, com a taxa de doação muito pequena, que piorou na vigência da pandemia.

Como estão sendo trabalhados os transplantes que podem ser feitos entre pessoas vivas, como o de rins?

Não é o melhor momento. A doação entre vivos é eletiva, ou seja, pode esperar. É como se fosse fazer uma cirurgia que pudesse aguardar, que não fosse urgência. É prudente neste momento de pandemia não haver o transplante entre pessoas vivas. Esperar haver uma melhor condição hospitalar. Não é o momento ideal.

Já houve alguma doação que precisou ser cancelada por conta da covid-19?

Estamos sendo bem criteriosos. O Brasil inteiro faz o teste PCR, que é o mais fidedigno para o diagnóstico do coronavírus. Esse exame positivo ou inconclusivo, não é feita a captação. Já houve aqui no Rio Grande do Norte, em Natal, doadores que a família aceitou, mas quando veio o exame, veio positivo. E aí foi abortada a doação. Pacientes que tiveram um acidente automobilístico, não sabiam e quando fizeram o exame deu positivo. Então é toda uma mudança. A família estava pronta para doar, sabe que aquele paciente se tornou positivo. Não pode ter velório, muda tudo. É uma responsabilidade muito grande.

Onde é feita a captação de órgãos aqui no Estado?

Hoje, a gente tem a Grande Natal como doador de órgãos e temos Mossoró que está crescendo. Ainda temos que melhorar em relação a isso. Em Natal, é feito no Walfredo Gurgel, Santa Catarina, Deoclécio Marques e hospitais particulares. Mossoró no Tarcísio Maia e no Wilson Rosado, que é privado.

Qual o principal fator que ainda leva as famílias a não quererem realizar a doação?

É não saber que aquele familiar era doador em vida por nunca ter tocado no assunto. As pessoas não falam de morte. Hoje em dia todo mundo quer ficar jovem e achamos que nunca vai acontecer com a gente. A nossa principal causa de negação é a falta de informação. A Central de Transplantes precisa muito de divulgação, para que quando isso tudo terminar a gente converse um pouco mais sobre porque doar, para esclarecer as pessoas. É um momento difícil em que se está perdendo um ente e vem uma pessoa que você nunca viu e aborda sobre a doação. É importante esclarecer para a população que é uma doação. Que é um trabalho sério, que envolve muitas equipes, que é muito bem organizado e estruturado.




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