Romildo Pessoa: “Produção ainda é insuficiente”

Publicação: 2009-12-06 00:00:00
Karla Larissa - Repórter de Economia

Filho de médicos, Romildo Pessoa Júnior, 46 anos, tomou gosto pela agropecuária por volta dos 20 anos. Hoje, com mais de 25 anos de experiência no ramo, é criador de gado e selecionador de ovinos da raça Santa Inês. Em 2006, foi responsável pela implantação do Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn), do qual é diretor-presidente desde então. À frente do órgão, ajudou o estado a mudar de área de risco de conhecido da febre aftosa para área de médio risco, uma luta de anos dos criadores do RN. Esta semana, Pessoa foi eleito pela quarta vez presidente da Associação Norte-rio-grandense de  Criadores de Ovinos e Caprinos (Ancoc), cargo que assume por mais dois anos no próximo dia 29. Nesta entrevista, Romildo Pessoa fala sobre a demanda de mercado pela carne de ovinos, que não é atendida por falta de produção, da concorrência com a carne uruguaia e do trabalho para o melhoramento genético desses animais. Ele também opina que a mudança do RN para área livre de aftosa não seria interessante neste momento, mas que também não deve ser abdicada.

Romildo Pessoa Júnior, presidente da ancocEntrevista/Romildo Pessoa Júnior/presidente da Ancoc

O senhor assumiu recentemente a Associação Norte-rio grandense de Criadores de Ovinos e Caprinos (Ancoc). Quantos criadores a entidade representa?
A Ancoc é uma entidade que tem 30 anos de criação e tem abrangência em todo território do Rio Grande do Norte. Além dessa abrangência, ela tem um serviço que é a delegação do Ministério da Agricultura, que é a parte de fazer o registro genealógico das raças de ovinos e caprinos. Ela abrange todo estado, muitos criadores que são pequenos, do interior, e também criadores que são grandes selecionadores das raças. São cerca de 400 associados. Na eleição votaram 224. Ela tem um papel muito importante em fomentar as atividades da caprinovinocultura. Primeiro porque ela é a principal promotora dos eventos agropecuários do estado. Exposições que são realizados no interior, procura interiorizar muito esses eventos que são uma oportunidade para o criador fazer seus negócios, trocar ideias, tecnologia e vender também seus animais, através dos leilões. A Ancoc também desempenhou e desempenha uma luta muito grande no desenvolvimento do leite de cabra. O Rio Grande do Norte conseguiu se postar numa posição interessante na produção do leite de cabra, se tornando o principal produtor de leite de cabra do Brasil, gerando para os pequenos criadores, principalmente das regiões mais pobres do estado, como a região Central, Seridó, emprego e renda. A entidade trabalha em fazer o papel político e representativo da classe.

O senhor irá seguir a mesma linha do seu antecessor?
A Ancoc vem sendo dirigida por Orlando Gadelha Procópio de uma forma muito eficiente e minha pretensão é de conseguir fazer uma administração pelo menos parecida que a que ele conseguiu fazer em termos de trabalho e de luta pelo setor.

De acordo com o IBGE, o estado é o 6º maior criador de caprinos e 7º em ovinos. Essa posição é ocupada por muitos anos ou a atividade teve uma ascensão recente?
Há uma mudança de panorama em relação a atividade primeiro porque se começou a entender a importância da carne caprina, de pouco colesterol, uma carne magra de excelente proteína, que é considerada a carne mais ligth  do mercado. Hoje a sociedade desenvolve a cultura de saúde, de  melhor alimentação, a carne de caprinos se coloca nessa circunstância. Por outro lado, o leite de cabra como uma fonte também de proteína e cálcio muito importante e que para ser administradas às pessoas que tem alergia à lactose do leite de vaca.     Na verdade essa atividade se desenvolve ao longo do tempo vai tomando novas configurações, como por exemplo, que a carne dos ovinos deslanados do Nordeste é uma carne tipo especiaria. Uma carne que tem um sabor completamente diferente, por exemplo, do ovino que vem do Uruguai e que é posto no mercado brasileiro. É uma carne diferenciada. Inclusive nesse sentido, a meta principal da nossa administração será a concretização da produção dessa carne. Só a cidade de Natal tem uma capacidade enorme de absolver esse produto porque é uma cidade gastronômica, tem muitos restaurantes e as pessoas que freqüentam procuram fazer  a cultura culinária.

Quais são os tipos de ovinos e caprinos?
Nós temos os ovinos Santa Inês, Morada Nova, e mestiços de Santa Inês com Dooper. São os deslanados nordestinos. Na verdade hoje a gente enxerga a possibilidade do crescimento da produção para poder atender esse mercado. Vamos tentar fazer uma junção de duas empresas norte-riograndeses que estão colocando essa carne no mercado que são a Lanila Agropecuária e o Cordeiro Nobre. Para ver se nós fazemos uma integração com os pequenos e médios produtores para que eles produzam o produto que estas empresas põem no mercado. Vamos tentar concretizar essa questão da produção. Porque existe uma controvérsia muito grande, você tem o mercado, e no entanto, você tem uma produção insuficiente, onde você abre as portas para que venham animais do Uruguai aqui para o Rio Grande do Norte e para o Brasil como um todo.
 
Como o Rio Grande do Norte se coloca no mercado?
Os dados de colocação desta carne  no mercado são ínfimos porque hoje a produção é pequena. Hoje nós temos uma evolução genética fantástica no estado. O Rio Grande do Norte dispõe de um plantel do mais alto nível genético, mas os criadores selecionadores  precisam disponibilizar essa genética para que ela funcione para a evolução da produção de carne.

Há algum empecilho para o consumo desses produtos locais, além da produção pequena, o preço por exemplo?
O preço do cordeiro do Uruguai, que é produzido em grande quantidade, realmente chega aqui mais barato. Só que não é a mesma carne. É uma diferença que não precisa você ser um especialista  em culinária para ver que não é a mesma coisa. Inclusive esse é um trabalho que precisa ser concretizado que é saber qual produto que se está consumindo. Fazer a marca do cordeiro do Rio Grande do Norte, o cordeiro do Nordeste.

O senhor falou do Programa do Leite. Esse foi um dos estímulos que promoveu uma ascensão da  caprinovinocultura no Rio Grande do Norte?
Para a produção do leite de cabra isso foi fundamental porque para você conseguir que a produção existisse você precisava fomentar o mercado. E surgiu o mercado institucional que atende aos pequenos produtores com toda sua filosofia de programa para distribuição para famílias carentes, ele transfere recursos governamentais para a mão do produtor.

Hoje são consumidos quantos litros de leite?
Se não me engano, em torno de 12 mil litros.

Em eventos como a  Festa do Boi,  alguns animais atingem preços muito altos. O que valoriza um caprino e um ovino?
Primeiro é a carga genética que ele traz, ele se submete a julgamento de vários juízes, de várias exposições, como um animal diferenciado, capaz de transmitir aquelas características para um rebanho ele se submete a essa avaliação comparativa em vários estados nordestinos e brasileiros. Nós tivemos agora no Rio Grande do Norte uma exposição nacional da raça Santa Inês, onde o grande campeão da exposição foi um carneiro nordestino, pertencente ao grupo Brenan de Pernambuco. Você vai para aquela pista com veterinários e zootecnistas especialistas naquele assunto que vêem que aquele animal dispõe de  uma condição superior que é capaz de imprimir em um rebanho um aumento da produção de carne, um aumento de fertilidade, um aumento de características raciais. Ele se torna um animal diferenciado e valorizado  e quando seu proprietários dispõe da venda de alguma copa sua, ou do sêmen ou até mesmo do próprio animal, ele tem um valor no mercado.

Que pode chegar até quanto?
A gente houve falar em preços altos de R$ 50 mil, R$ 100 mil e até mais que isso.

Qual o retorno para o criador que investe tanto dinheiro em um animal como esse?
Esses animais que chegam a R$ 100 mil são animais que vão melhorar planteis de seleção. Por exemplo, o selecionador já tem coisas muito boas, mas aí surge um animal especial. Então, ele vai disputar a possibilidade de colocar aquele animal no seu rebanho de seleção para melhorar mais ainda. Os animais que nós chamamos de animais especiais, que nós usamos para formar carne, são animais que têm uma descendência dele. Esse animal que chega a esse valor não é você vai usar para fazer carne, ele é um melhorador de genética. Então um selecionador vai comprar a outro selecionador, parte dele ou por inteiro, com intuito que a seleção dele tenha algum ganho. Fazer com que os reprodutores para fazer carne, filho de animais  puros e genética até desses animais de R$ 100 mil deva ter um valor de R$ 1 mil a R$ 2 mil.

Com relação aos leilões desses animais, como funciona o calendário?
O estado fica dividido por região. Nós fazemos exposição em São Paulo do Potengi, Caicó, Currais Novos, Mossoró, Lajes e Natal. São seis grandes eventos no ano, oficiais, que são mini Festas do Boi, além de outros menores. Nesses eventos, fazemos julgamento de animais, leilões, se faz oficinas de evolução de tecnologia.

Os criadores têm investido na qualidade do rebanho?
Os criadores têm procurado desenvolver muito a genética. Tem vários criadores envolvidos  nesse processo de seleção, por enquanto, eles procuram o mercado entre selecionadores na participação de leilões fora e dentro do estado. Mas com certeza essa genética que está sendo feita no Rio Grande do Norte tem que passar de imediato para o criador fazer carne com ela.

O que falta para isso?
 Na verdade, tudo é uma questão de evolução. Primeiro se concretiza a questão genética, depois a disponibilização. Eu acho que já estamos no estágio de procurar colocar animais a preços módicos nas mãos dos produtores de carne. Isso aconteceu com várias raças no Brasil, inclusive bovina. A raça Nelore, por exemplo, que é uma raça bovina, detentora de 85% do rebanho nacional tem genética de valores altíssimos que é negociada entre os selecionadores, mas também tem animais a preços disponíveis para o criador fazer carne com a genética semelhante.

Quais são hoje as dificuldades que a caprinovinocultura enfrenta?
A pecuária é uma atividade do setor primário, que é um setor que sofre mais que os outros, mas nós temos assim, com essa estabilidade da moeda, conseguido bastante evolução. O crédito rural que está disponível hoje passa ser um crédito adequado. Os comparativos de investimento, por exemplo, quem está no setor que tenha disponibilidade financeira, entre o dinheiro está aplicado na caderneta de poupança  e está aplicado na sua atividade, ele tem maior rendimento aplicando na atividade. Eu acho que o Rio Grande do Norte tem se caracterizado por um estado evoluído no agronegócio, nós fazemos os eventos agropecuários, mas destacados em termos de Nordeste. A nossa exposição maior, a Festa do Boi, é um dos maiores eventos do Brasil. A gente ver, enxerga nitidamente que há uma evolução grande no setor  e uma possibilidade de crescimento, que vem ocorrendo com o passar dos tempos. 

O senhor também é presidente do Idiarn. Com relação a febre aftosa, o estado mudou de status há pouco tempo mas já espera se tornar área livre e recentemente o senhor declarou que este não seria o melhor momento para essa mudança. O que fez o estado mudar de ideia nesse momento?
A mudança para a área livre é uma decorrência natural do nosso trabalho. Quando eu disse que achava que o momento talvez não fosse mais propício foi por um fato simples. O Rio Grande do Norte, que foi quem praticamente quem puxou  a evolução do Nordeste em relação à febre aftosa, é um estado que está apto para mudar para área livre, tanto que nós já solicitamos a auditoria e estamos aguardando. Quando eu disse que  talvez não fosse o momento foi pelo fato que essa questão de nós ficarmos uma ilha em relação ao Nordeste é uma coisa que poderia ser diferente. O trânsito, por exemplo de animais, se nós fossemos uma área livre, agora mesmo um criador do Rio Grande do Norte foi o grande campeão nordestino em Recife, admitamos que o RN seja uma área livre, para ele retornar de Recife, ele só retorna com quarentena. Então, nós começamos a criar limitações para o trânsito nordestino, e foi nesse sentido que eu disse que era interessante vir mais na frente. Mas nós não podemos abdicar de estarmos prontos e requerer aquilo que nós tanto pleiteamos.

Qual seria então o melhor momento para essa mudança?
O momento é este agora porque é quando estamos prontos. Mas o problema é que você sendo uma ilha de área livre, com um estado , por exemplo, como o Ceará que é o único do Nordeste que não passou para médio risco, você tem que ter uma vigilância redobrada, que faz com que se torne uma vigilância mais cara e penosa também.   Seria interessante que nós estivéssemos passando para área livre junto com outros estados do Nordeste, o que eu acredito que vai acontecer o próximo ano porque o Maranhão e Pernambuco já pleiteiam ser área livre.

Caprinos e ovinos são suscetíveis à febre aftosa também?
São suscetíveis mas não são vacinados. Os caprinos e ovinos são considerados sentinelas, se existir febre aftosa, eles são os primeiros a terem a doença. Eles são quem indicam que a doença chegou.

Com relação à doenças, se tem alguma que se equipara a febre aftosa que atinge hoje os rebanhos?
Uma das coisas que tem ocorrido muito importante no setor é a evolução das pesquisas que os caprinos e ovinos estão suscetíveis, como a doença de casco, verminose, costidiose, que os laboratórios depois desse crescimento da caprinovinocultura no Rio Grande do Norte têm trabalhado essas vacinas.

Além da aftosa, que outras doenças animais, o Idiarn tem trabalhado para deixar o estado livre?
O Idiarn aderiu ao Plano Nacional da influenza aviária porque nós somos área de risco muito grande porque nós temos sítios de aves migratórias. É outra coisa que nós trabalhamos fortemente. Nós iniciamos recentemente um trabalho efetivo de controle de brucelose,  dos bovinos, além de todas as outras atribuições que nós temos tanto na área animal como vegetal. Nós já temos experiência em manutenção de área livre porque nós já temos a área livre da moscas das frutas, a manutenção da sigatoka negra da banana. E agora estamos prontos para sermos área livre de aftosa.

Como estão as barreiras de proteção do Rio Grande do Norte?
O Idiarn fez um concurso público, entraram 94 fiscais que estão atuando, nós tivemos recursos do Ministério da Agricultura na ordem de R$ 6 milhões, onde nós fizemos investimento de toda a infraestrutura dessa barreira. Nós compramos mais de 50 veículos, entre eles escritórios móveis.