Rompendo a síndrome do isolamento

Publicação: 2019-03-31 00:00:00 | Comentários: 0
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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio psiquiátrico ainda cercado de preconceito e muito desconhecimento. Diante do desafio de melhorar a qualidade de vida dos pacientes com autismo, segmentos da medicina, ciência e tecnologia avançam nos debates e pesquisas. O assunto entra em evidência no próximo 02 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data oficializada desde 2008 pela ONU, com o objetivo de ampliar o conhecimento e reduzir o estigma em torno da condição.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que o Brasil tenha dois milhões de casos de Transtorno do Espectro Autista, metade deles ainda não diagnosticados
 O assunto entra em evidência no próximo 02 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data oficializada desde 2008 pela ONU, com o objetivo de ampliar o conhecimento e reduzir o estigma em torno da condição

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que o Brasil tenha dois milhões de casos de TEA, metade deles ainda não diagnosticados. No mundo, são 70 milhões de pessoas. Quando se trata de autismo, a falta de diagnóstico e o pouco conhecimento em torno da condição geram preconceito e reforça muitos estigmas. A Organização das Nações Unidas definiu o tema do debate para 2019, que é “Tecnologias assistivas, participação ativa”.

O órgão argumenta que para muitas pessoas no espectro do autismo, o acesso a tecnologias assistenciais a preços acessíveis seria um pré-requisito para poder exercer seus direitos humanos básicos, e reduzir ou eliminar as barreiras à sua participação em igualdade na sociedade. O autismo propriamente dito não é tratado com medicamentos. Estes são utilizados quando há outros sintomas associados à condição, como ansiedade, TDAH (deficit de atenção e hiperatividade), depressão, transtorno obsessivo compulsivo, agitação, irritabilidade, distúrbios do sono, entre outros. Para cada situação há uma medicação específica.

Canabinoides
O uso terapêutico da cannabis é um recurso cada vez mais aceito pela sociedade civil e comunidade médica, cujos benefícios já começaram a ser estudados e testados em pacientes de autismo. Os estudos recentes têm sido animadores, como os que foram realizados entre 2015 e 2017 em Israel: a pesquisa acompanhou 188 pacientes com TEA menores de 18 anos tratados com canabinoides. Após seis meses de tratamento regular, 83% dos pacientes relataram avanços significativos ou moderados em aspectos comportamentais – melhora do humor, nos níveis de ansiedade, na concentração e na qualidade do sono –, além de maior facilidade para realizar tarefas cotidianas, como tomar banho e se vestir sozinhos. Também houve impacto direto na rotina dos pacientes: antes, apenas um terço afirmava ter uma boa qualidade de vida, índice que dobrou após seis meses de tratamento.

No Brasil, o Dr. Vinícius Barbosa, psiquiatra e pesquisador de psicoativos da Unicamp (SP), considera animadoras pesquisas como essa, mas ressalta que a abordagem medicamentosa é parte do tratamento e que, por isso, o acompanhamento terapêutico multiprofissional e o tratamento de outras comorbidades clínicas são de extrema importância.

“Não há, até o momento, tratamento específico para os sintomas centrais do TEA, apenas medicamentos para alguns sintomas associados que, infelizmente, podem levar a outros problemas por seus efeitos colaterais”, disse. O psiquiatra diz  que esses efeitos são reduzidos no tratamento com canabinoides, e que além dos impactos positivos, apresenta menos efeitos adversos. Para o médico, ao optar pelo uso de canabinoides, o foco deixa de ser só a consequência do problema e passa a ser um tratamento mais específico, com enfoque nas bases biológicas por trás da condição. As pesquisas ainda estão em curso, e novos resultados estão por vir.

Debates
No começo de março a Câmara Municipal de Natal debateu em audiência pública o fortalecimento de políticas de inclusão voltadas para autistas. Na ocasião foi lembrado da emenda de R$250 mil do orçamento municipal  destinada para a capacitação dos servidores municipais para atender a população autista, identificando e oferecendo tratamento diferenciado. Durante a audiência foi defendido o fortalecimento da articulação em rede, envolvendo áreas de saúde e educação, esporte, lazer, cultura e assistência social. Após a audiência, os vereadores se comprometeram a levar as demandas aos respectivos secretários dessas áreas. “Desde 2014 esperamos a efetivação das ações e serviços que o município não oferece”, disse na ocasião Liliane Monteiro, do MovipAutismo.

Em fevereiro foi realizado o 1º Vivenciar – Uma Compreensão Científica Sobre Autismo no Hotel Vila do Mar, evento que debateu mais de 150 questões sobre o TEA durante quatro horas. O evento apresentou uma proposta diferente, ao utilizar o conceito de “análise de comportamento aplicada” ao debate, uma abordagem da psicologia que é usada para a compreensão do comportamento, e vem sendo amplamente utilizada no atendimento a pessoas com autismo. Ainda em fase de descoberta no Brasil, a abordagem foi amplamente discutida.

A “análise de comportamento aplicada” é uma forma de trabalhar que reúne uma série de técnicas que mudam de acordo com a evolução da ciência. Nos últimos 20 anos tem crescido a aceitação dessa abordagem no mundo – mas é preciso ser qualificado para aplica-la. É preciso que os pais estejam envolvidos no tratamento das crianças, compreendam o que está sendo feito, e saibam avaliar se os cuidados estão sendo bem feitos. A psicopedagoga Sara Yoshikawa declarou que o modelo inclusivo deve ser um modelo para todas as escolas. “Elas precisam se abrir para outras formas de ensino, e o governo precisa estudar outras possibilidades para que a criança desenvolva suas habilidades”, disse.

Síndrome da indiferença
O autismo ainda não tem suas causas definidas, mas as pesquisas sobre ele só avançam. Acredita-se que o transtorno tenha origem genética, com anormalidades em alguma parte do cérebro. No tratamento, já se sabe que há vantagens na intervenção precoce em crianças de até cinco anos.

O diagnóstico começa pela observação do comportamento da criança. O TEA, na realidade, envolve um grupo de doenças do neurodesenvolvimento, de início precoce (antes dos 2/3 anos de idade), e que se caracteriza por dois aspectos principais: dificuldade de interação social e de comunicação.

Uma criança sadia começa a interagir com outras pessoas em torno dos quatro e seis meses de idade. Já a autista se mostra indiferente à interação social, e não expressa a reciprocidade no contato com outras pessoas. Tem grande dificuldade na comunicação verbal e não-verbal, e parece desligada do ambiente em torno de si. A linguagem corporal e o contato visual com outras pessoas se mostram prejudicados.  Normalmente, ela se isola e se fixa em uma única atividade, com ritualização de movimentos repetitivos. Outra característica é a dificuldade de seguir rotinas, além de apresentar hipo ou hiperatividade aos estímulos sensoriais.







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