Ronda se resume a abordagens e uma polícia ostensiva

Publicação: 2017-02-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Marcelo Lima
Repórter


Medo, tiroteios, crime organizado, ausência de políticas sociais e policiais expulsos de seus lares. Essa realidade ocorre em Mãe Luíza, berço do Ronda Cidadã. Lá, nem parece que o programa ainda funciona. Quem mora no local afirma que ele fracassou na missão de aproximar a Polícia Militar dos cidadãos e que manteve o paradigma do velho policiamento ostensivo. E não é só isso: os bairros da zona Leste, cobertos pelo programa, tiveram mais mortes violentas que os demais no início deste ano.
Alex RegisPoliciamento ajudou a reduzir roubos, mas tiroteios e número de assassinatos têm aumentadoPoliciamento ajudou a reduzir roubos, mas tiroteios e número de assassinatos têm aumentado

O ato governamental com as diretrizes do  Ronda Cidadã (decreto 26.027/2016) reconhece que, ao lado do policiamento, outras ações do governo são necessárias. “O programa pretende institucionalizar atividades de prevenção à criminalidade por meio de práticas de cidadania, acolhimento, inclusão social e interação com a comunidade, sem contudo descuidar-se da repressão qualificada”, informa um anexo do decreto. Apesar disso, em Mãe Luíza só sobrou a repressão qualificada.

“Essa proposta de polícia cidadã foi muito boa. O policial andava, conversava com as pessoas, agora é só abordagem”, disse o padre Robério Camilo Silva, presidente do Centro Sócio-pastoral local. Segundo o sacerdote, três secretarias de governo trabalharam integradas, promovendo atividades artístico-culturais, mas em 2016 isso acabou. “Faziam um trabalho nas escolas, na linha de educação popular, eventos nas praças. Até conseguimos levar a banda da Polícia Militar para tocar. Era até bonito ver essa participação. No final de semana, sempre tinha um evento”, lembrou-se.

O decreto também prevê ação integrada de prestação de serviços públicos em bases móveis do Ronda Cidadã. Nem sinal disso em Mãe Luíza, Petrópolis ou Areia Preta, bairros da Área Integrada de Segurança Pública (AISP) 4, onde o Ronda Cidadã foi iniciado em 2015. Um trailer era o equipamento mais próximo de uma base móvel na região. Segundo o titular da delegacia de Mãe Luíza, Anderson Tebaldi, o trailer foi removido da Praça das Flores após encontrarem explosivos fixados no assoalho.    

Em Mãe Luíza, os moradores dizem que determinados crimes diminuíram, como roubos depois da implantação. Entretanto, a ameaça agora são os frequentes conflitos entre polícia e bandidos. Os tiroteios não tem hora, nem local para acontecer. A equipe de reportagem falou com moradores do bairro, mas eles não quiseram se identificar com medo de represálias.

Conforme os relatos, o princípio de uma polícia de proximidade, como prevê o Ronda, está bem longe do bairro. Os policiais e o cidadão deveriam se conhecer pessoalmente e manter o vínculo fortalecido. Mas na comunidade da zona Leste de Natal, os militares raramente descem do carro para tentar criar esse vínculo. Dos moradores que conversamos, nenhum soube dizer o nome de, pelo menos, um policial.

Crime organizado

A forte presença de uma organização criminosa é mais um elemento que afasta o cidadão do policial. “A maioria das pessoas que conversa com a polícia, no outro dia, não está mais conversando com ninguém. Só com Deus”, disse uma moradora. Para eles, a presença de militares no mesmo lugar que criminosos é uma combinação certa para tiroteios.  “Quando a polícia passa, a gente fica receoso de o bandido vê e troca bala. Nessa, sempre quem se dá mal é o transeunte, um inocente. Não é questão de que a gente não goste da polícia”, explicou.

O delegado titular do bairro, Anderson Tebaldi, disse que os bandidos tornaram-se mais ousados. “Hoje, dependendo do local que você vai entregar uma intimação, eles atiram. Mas a gente entra, com um número de viaturas maior, porque o Estado tem que prevalecer”, afirmou. Segundo ele, a postura mais incisiva dos criminosos começou no segundo semestre de 2016. Coincidentemente ou não, entre o final de julho e início de agosto do ano passado, vários ataques a ônibus e instituições, ocorreram em Natal à mando de presos. Mãe Luíza está sob influência do Sindicato do Crime.



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