Quadrantes
Rosas e pedras no paraíso
Publicado: 00:00:00 - 02/01/2022 Atualizado: 10:28:17 - 01/01/2022
Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

Em nenhuma parte do mundo, em nenhum ciclo da História, por toda a longa e enigmática vertente dos tempos, nada justifica o sofrimento de uma criança. Sua tristeza, desespero e dor. Shelley, poeta inglês, dedicou versos líricos, harmoniosos, ternos, comovedores e belíssimos à infância. Neles exaltou o sentido da pureza, que é uma das faces originais da condição humana e da humildade. Estado de espírito diferente da ingenuidade. Porque é a percepção exclusiva do bem, da bondade, da luz da vida, da disposição em dar e receber amor, afeição, afago, ternura. O poeta, pouco antes de morrer, aos trinta anos, retomou o tema, concordando com Jesus: os bons e justos precisam ser puros como uma criança. Nos turbulentos e angustiantes tempos em que vivemos, a pessoa de fé precisa refletir, compreender, sentir e avaliar essa bem-aventurança, proclamada no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5,8). Ver a Deus significa usufruir e participar infinitamente do seu Amor e de sua Luz. Inserir-se absolutamente no sentido da Criação, desfrutando da paz e da beleza universais. Se os lírios dos campos expressam encantos inimitáveis e se constituem em síntese do esplendor da natureza, as rosas são dádiva e cântico à pureza humana. Evocam o significado e a presença da infância na vida de cada um: “a infância, esse grande território donde todos saímos” (Antoine de Saint-Exupéry em “Cartas do Pequeno Príncipe”).

A rosa é uma espécie de signo do mundo. Em todas as civilizações. Sua contemplação infunde serenidade, êxtase, paz, harmonia interior, desprendimento, arrebatamento espiritual. Imobiliza ódios, paixões e ressentimentos. Ninguém capaz de deter-se ante uma rosa, ou um roseiral, manter-se-á  ansioso, intranquilo, inseguro. Assim Saint-Exupéry detectou o caráter particular, individual e íntimo da relação entre cada pessoa e a rosa de sua preferência: “Se alguém ama uma rosa da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla”. A sentença se aplica às pessoas entre si. Mas nem sempre a sensação de domínio ou exclusividade do objeto de admiração é a verdadeira fonte de sentimento do querer. Os homens se perdem ou se frustram quando não sabem identificar os elos efetivos, legítimos, autênticos, permanentes, entre si, o mundo e a vida. Nesse sentido, a vida é um poema interminável ao ato de viver. Desfrutar seu sentido é verdadeiramente viver. É – dizia Archibald Jonathan Cronin em “No caminho das estrelas”  –  desvendar e discernir o que é eterno no ser humano.

Stefan Zweig, escritor austríaco (judeu), vítima do nazismo, terminou seus dias no Brasil, onde se suicidou juntamente com a esposa Lote. A tragédia é relatada em “A Morte no Paraíso” de Alberto Dines. Ele dizia aos que o visitavam em Petrópolis (Rio de Janeiro), que “o Brasil é um paraíso, onde as rosas nascem e crescem voluntariamente, em harmonia com a natureza”. No livro “Brasil, país do futuro”, por diversas vezes exaltou as peculiaridades do caráter dos brasileiros, sua cultura antropológica, seus valores, seus sonhos, sua maneira de agir e pensar, seu espírito e sua postura perante o mundo e a vida. Também enalteceu a criatividade nacional. Metaforicamente, dizia que o Brasil não tinha pedras em seus caminhos, somente rosas: “... e seu povo é bom e pacífico”. Adulterar e corromper essas características atávicas significaria condenar a nação uma espécie de “inferno dantesco”. É possível?

 Em 2012 foram reeditadas em único volume as crônicas de “A vida como ela é” de Nelson Rodrigues. Remetem-nos aos anos 50 e 60 no Rio de Janeiro. De certo modo, é a síntese do Brasil da época. Os dramas humanos, cotidianos, pitorescos, cômicos, trágicos, inerentes à brasilidade, tinham um toque de “viver por viver”, simplicidade,  espontaneidade e ingenuidade contrastante com os dias de hoje. Pois, infelizmente, a cena brasileira se tornou amarga, brutal, desumana, individualista e surpreendentemente tensa. Houve uma metamorfose. Sua explicação é desafio para psicólogos, antropólogos e sociólogos. Mas ninguém duvida que esses antivalores, disseminados nos últimos anos, onde a malicia e a desconfiança se sobrepõem à pureza e à boa-fé, são fruto do descompromisso cultural e espiritual da televisão e, posteriormente, da internet e das redes sociais. Assim se realimenta a cultura da violência, quaisquer que sejam as causas socioeconômicas da criminalidade e do desprezo à vida individual e coletiva. São pedras em nossos caminhos. Há um processo de “idiotização” do Brasil. As pedras sufocam as rosas e os sonhos. Referências e laços sentimentais se perdem ou se esquecem. Estamos vivendo um ciclo vicioso, em que pobreza, miséria, insatisfação, intolerância, drogas, ignorância, desemprego, inabilitação profissional, falta de perspectivas, desalento, injustiças, crime organizado, saúde e educação públicas ineficientes se irmanam para germinar bolsões de violência rotineira e habitual. Assim tornam a vida de muitos num cipoal de dor e desilusão.

Os cristãos, se realmente acreditam que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Criador do Universo, não podem excluir o amor, a justiça, a paz e a verdade das suas relações individuais e coletivas: “EU SOU o Caminho, a Verdade e a Vida”. Ouçamos Gandhi: “Cristo não pertence só ao cristianismo. Pertence ao mundo inteiro. Sempre. Os homens não são suficientemente humildes e destacados dos bens e do poder, para compreenderem a mensagem de Cristo. Quando ouço “Glória a Deus e paz na terra” pergunto onde se presta hoje glória a Deus e onde existe paz na terra”. Impõe-se à sociedade brasileira restabelecer a cultura da paz, mensagem eterna do Cristo Senhor.

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