Rossini Perez reencontra a paisagem Natal

Publicação: 2012-11-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Tadzio França - repórter

A Natal que ficou gravada na memória do artista plástico Rossini Perez não é mais a mesma. A Macaíba, onde ele nasceu, também não. Os cenários que ele vê hoje não são do seu agrado, mas o sentimento continua impresso na mente. Após 31 anos sem vir ao Rio Grande do Norte, o consagrado mestre da arte da gravura, dono de uma carreira reconhecida internacionalmente, está em Natal para uma missão de “reconhecimento”: a convite da Secretaria de Cultura e Fundação José Augusto, Rossini estuda as salas da Pinacoteca do Estado para realizar uma exposição sua no primeiro semestre de 2013. Um reencontro com sabor de novidade.
Magnus NascimentoNascido em Macaíba, filho de um espanhol e uma seridoense, o consagrado gravurista Rossini Perez está de volta a Natal. Na agenda, visitas ao local onde vai expor em 2013, e críticas a Natal e Macaíba que não reconhece mais.Nascido em Macaíba, filho de um espanhol e uma seridoense, o consagrado gravurista Rossini Perez está de volta a Natal. Na agenda, visitas ao local onde vai expor em 2013, e críticas a Natal e Macaíba que não reconhece mais.

Rossini Perez esteve em Natal pela última vez em 1981, à convite da FJA e também da Funarte para uma exposição. À época foi fundada uma oficina de gravura com seu nome, um projeto moderno, mas que não foi bem aproveitado e sobreviveu até o começo dos anos 90. “Eu sou praticamente desconhecido aqui no meu Estado, portanto, expor em Natal também é uma questão afetiva”, afirma, em uma das salas da Pinacoteca – antigo Palácio Potengi. O artista está analisando as condições do prédio em se adequar à exposição de suas obras.

“Só preciso do mínimo para que a mostra se instale decentemente. Quero ver a iluminação, as instalações, e a possibilidade de que seja feito um catálogo, afinal é o que sobra de uma exposição. Quero saber também se a Pinacoteca tem uma reserva técnica, para que se eu fizer uma doação, saiba para onde ela foi”, explica Rossini. A exposição ocuparia o amplo andar térreo do palácio, e exibiria uma seleção de trabalhos de várias épocas do artista, como seus trabalhos em gravura com técnicas de xilogravura, linóleo, serigrafia, gravura em metal, litografia, e fotos – às quais ele vem se dedicando com mais afinco no momento. A exposição também terá trabalhos de gravadores locais. Ele deseja que a mostra dialogue com os artistas locais e apresente o que o ateliês natalenses estão produzindo.

GRAVURAS E FOTOGRAFIAS

O artista filho de um empreiteiro espanhol com uma seridoense ficou famoso pela criatividade de seu trabalho em gravuras, repleto de texturas, cores e traços entre o abstrato e o figurativo, com resultados que impressionam os sentidos. Rossini revela que, por questões de saúde, não faz mais gravuras. Hoje ele se dedicada a montagens e colagens de desenhos e fotos. “O público também mudou. Ele é mais atraído por imagens. A gravura, que é uma técnica secular que eu apenas dei uma cara nova, ficou à parte dessa avalanche de imagens.  Hoje em dia posso usar mais recursos para trabalhar a imagem”, explica.

“Nem Hiroshima ficou tão destruída quanto Macaíba”

Resgatar e captar imagens fazem parte das atuais inspirações de Rossini. “As reminiscências da minha infância estão me inspirando cada vez mais. É uma coisa que toma proporções gigantescas com a idade avançada”, diverte-se. Rossini nasceu em 1932, em Macaíba, e em 1943 se mudou para o Rio de Janeiro, onde desenvolveu sua carreira artística. O reencontro com a terra natal não foi só alegria; o artista ficou aborrecido com o abandono em que encontrou o patrimônio histórico da capital potiguar e de sua velha Macaíba.

Com a câmera na mão, Rossini vai registrando as paisagens que conheceu e não mais reconhece. “Nem Hiroshima ficou tão destruída quanto Macaíba”, brinca, com seriedade. Ele ressalta a decepção de ter encontrado o sítio em que nasceu agora cercado de feios muros brancos, mais um espaço a ser loteado. “Até a bela mangueira que ficava do lado da casa secou, como se tivesse sido carbonizada. Só reconheci a igreja matriz. No mais, está tudo desfigurado”, lamenta.

Natal também foi vitimada pelo progresso que desfigura a paisagem. “Fiquei triste com o desrespeito e a indiferença à história. O pedestal da estátua do Augusto Severo está destruído. Até o Teatro Alberto Maranhão sofreu descaracterizações. As placas antigas foram retiradas, e colocaram um espelho estranho”, diz. Os alvos favoritos das lentes de Rossini têm sido as velhas estátuas que começaram a ornar a capital no começo do século passado. “Eram todas importadas de Paris, pois havia uma fábrica por lá especializada em fazer obras por encomenda, às vezes podiam ser até cópias de outras famosas. A estátua da Praça Pedro Velho é um dos exemplos. Estou fotografando todas as peças da época que consigo encontrar”, diz. Ele ficará em Natal até 11 de novembro.

SAIBA MAIS...

Rossini Perez aprendeu sua arte a partir da década de 50, em cursos livres de pintura, desenho e gravura, aprendendo com nomes consagrados como Iberê Camargo. O artista morou na Europa e participou de mais de onze bienais internacionais. É contemporâneo de outro potiguar ilustre nas artes plásticas, Abraham Palatinik. Ambos participaram da Bienal de São Paulo, em 1951. Viajou o mundo entre mostras individuais e coletivas. Implantou oficinas de gravura em metal na Bolívia, Senegal, e em Brasília. No Brasil, destaca-se o período em que deu aulas no Ateliê de gravura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

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