Rota do petróleo perde espaço

Publicação: 2011-12-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicete Neto e Sara Vasconcelos - repórteres

O que Guamaré, Porto do Mangue, Galinhos, Alto do Rodrigues e Pendências  têm em comum além de pequena densidade demográfica? Todos integram a lista das cidades com maiores PIBs per capita do Rio Grande do Norte, são produtores de petróleo e têm, ainda, altas taxas de miséria.  Em Guamaré, o PIB caiu R$ de 1,35 bilhão em 2008 para R$ 1,13 bi no ano seguinte. Porto do Mangue teve uma perde de 42,5%. Mas esse é apenas um dos problemas desses municípios. O pior deles é a pobreza.
Alex FernandesPorto do Mangue registou a maior queda do PIB entre os municípios do Rio Grande do Norte. Antigos viveiros de camarão estão sendo substituídos por salinas.Porto do Mangue registou a maior queda do PIB entre os municípios do Rio Grande do Norte. Antigos viveiros de camarão estão sendo substituídos por salinas.

Com 12.301 habitantes e PIB per capita de R$ 190.233,45, Guamaré tem 22,7% de seus moradores vivendo abaixo da linha de indigência; 29,5% na faixa entre a pobreza e a indigência e apenas 47,9% acima da linha de pobreza. Em Porto do Mangue a situação é ainda pior. O município que se emancipou politicamente de Carnaubais em meados da década de 1990, tem 38,6% dos moradores abaixo da linha de indigência, o que representa um contingente de 2 mil pessoas num universo de 5.213. (Veja na página 4)

Em Porto do Mangue, o PIB que já chegou a R$ 204,6 milhões em 2006, caiu para R$ 96,5 milhões em 2009. “Tínhamos uma média mensal de 400 mil de royalties do petróleo antes da crise. Agora, recebemos em torno de R$ 230 mil”, informa Jadeilson Costa, chefe de gabinete do prefeito Francisco Gomes Batista. Ao contrário do que dizem os técnicos do Idema, Jadeilson garante que o fim da carcinicultura no município teve impacto na formação do PIB e no empobrecimento dos moradores. “Uma empresa que trabalhava com camarão gerava emprego para 300 pessoas. Hoje, os antigos viveiros estão dando lugar a salinas, onde o emprego de mão de obra é bem menor, assim como a remuneração paga.” Porto do Mangue foi uma das cidades mais prejudicadas pelas enchentes de 2008 e 2009. Há uma década, a Camanor chegou a firmar contrato com o grupo Carrefour para vender camarão orgânico na Europa. Um dos viveiros da empresa era em Porto do Mangue. Lá, os empregos agora estão concentrados na administração municipal e a renda no pagamento de aposentadorias previdenciárias.

  Galinhos, a terceira no ranking estadual do PIB per capita, tem taxa de indigência de 31,4%; Baía Formosa, a quarta, 28,4%; Alto do Rodrigues, a quinta 17,7%. Na outra ponta estão Natal, com taxa de indigência de 9,5% e Parnamirim, com 8,9%. Sede de um distrito industrial, que era visto com a redenção do município, Macaíba tem taxa de indigência de 21%, a pobreza chega a 34,9% e apenas 44,1% estão acima da linha de pobreza.

Para o professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, William Pereira, a pobreza nos municípios produtores de petróleo está relacionada a própria atividade de exploração. Isso porque são poucas as empresas que operam em campo,  produzem muito, mas a riqueza não fica no município, a não ser no pagamento de royalties. “A concentração é muito grande nessa atividade. Diferente, por exemplo, de projetos de irrigação do Vale do Açu, cuja produção é distribuída por muitos.

A queda na produção do petróleo em bacias onshore, explica o diretor  Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) Jean-Paul Prates, foi provocada por oscilações no preço do barril - verificada em 2008 - e, sobretudo, a queda na produção. Por se tratar de poços em campos maduros, a produção de petróleo no Rio Grande do Norte caiu de 25 mil barris em 2001, para 17 mil barris em 2010. “A maturidade desses poços reduz a pressão dos reservatórios, o que faz cair a produção”, afirma. A boa notícia são os investimentos em recuperação de poços, por meio de injeção de água, vapor ou gás, e a descoberta de novos campos. “Os investimentos no Estado vem desde 2004 e deverão ser vistos a partir dos dados de 2010 e 2011”, garante Jean-Paul Prates.

Governo criará novos polos  industriais

A tentativa de descentralizar as  riquezas do Estado e transferir o eixo - fixado nos últimos cinco anos nos municípios de Natal, Mossoró, Parnamirim, São Gonçalo e Guamaré – para o interior do Rio Grande do Norte será a criação de pólos industriais. O programa, explica o  secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado (Sedec), Benito Gama, visa também reverter a predominância dos setores de serviços e petróleo - que respondem por mais de 80% do PIB do Estado, segundo o IBGE – e impulsionar a indústria. A concentração nesses setores  e municípios segundo o secretário, se  deve à falta de diálogo e planejamento entre Estado e prefeituras. “É uma realidade negativa e que vem mostrar a urgência em diversificar nossos produtos”, disse Benito Gama. A aprovação do ImportRn deverá melhorar a atração de empresas, acrescenta o secretário.
Alex RégisBenito Gama detalha plano do governo do Estado para melhor distribuição do produto interno brutoBenito Gama detalha plano do governo do Estado para melhor distribuição do produto interno bruto

Três protocolos de intenção serão assinados hoje entre o governo do Estado, por meio da Sedec, Prefeitura de Goianinha e empresários dos ramos de embalagens, engarrafamento e alimentos congelados. “Este pólo irá aumentar a geração de emprego e renda na região agreste e deverá atrair outras industrias para o setor”, garante o secretário. Os protocolos serão assinados com as empresas Duo Foods, que investirá R$ 50 milhões e criará cerca de 600 postos de trabalhos diretos; a San Marino, de engarrafamento de bebidas, cujo aporte será de R$ 4 milhões e 160 empregos diretos; além da embaladora que investirá R$ 13 milhões para instalação da indústria. De acordo com dados da Sesed, 90% das embalagens no Rio Grande do Norte são produzidos em Santa Catarina ou importado do Canadá.

A sistemática consiste em o Estado arcar com a infraestrutura, a prefeitura com a cessão do terreno e os investimentos para instalação são das empresas.

Outros dois pólos industriais  são previstos para instalação a partir do próximo ano. As primeiras empresas devem se instalar a partir de fevereiro, em Caicó que fomentará a indústria de confecções, semelhante ao modelo instalado em Pernambuco. “O estado assumirá a construção dos galpões”, disse Benito Gama. E um terceiro, em Caraúbas. Para atrair as empresas, o governo dará incentivos por meio do Proadi, programa estadual de incetivo a atração de empresas.

No setor de mineração, explica o coordenador de recursos minerais do Estado Fabio Rodamilans, a criação do pólo de mineração começa a se concretizar com a industria de beneficiamento do limestone - sedimento calcário que origina o mármore e granito- em Apodi, região do Alto Oeste. “A empresa já investiu 10 milhões para instalação e ao final serão R$ 20 milhões. Cerca de 5% da produção será destinada a exportação. São fontes que irão movimentar e descentralizar a economia”, garantiu Rodamilans.

Outros projetos, contemplam a cadeia de petróleo em Mossoró e Natal. “Estamos em discussão para atrair investidores para, assim como já ocorre com a energia eólica, instalar fábricas de peça para indústria petroleira”, disse o secretário. Hoje cerca de 20% dos insumos usados pela Petrobras e demais operadoras de petróleo são importados do Estados Unidos.

Concentração da riqueza ainda é problema

Rio (ABr) - Apesar de uma pequena melhora em 2009, continua alta a concentração da renda gerada por alguns municípios brasileiros. Tomando por base a média dos 10% dos municípios com maior Produto Interno Bruto (PIB), observa-se que eles geraram 95,4 vezes mais renda do que a média de 60% das cidades com menor PIB. Os maiores indicadores foram observados na Região Sudeste. Na série entre 2005 e 2009, houve uma queda suave, disse à Agência Brasil a gerente da pesquisa, a estatística Sheila Zani. “Só que essa queda muito suave não significa que não seja enorme. É imensa a concentração”. A pesquisa por regiões mostra, contudo, que em quase todas elas esse indicador vem se mantendo ou caindo de forma muito suave. Só Goiás, no Centro-Oeste, registrou aumento do nível de concentração.

A pesquisa mostra os efeitos da crise internacional de 2009 sobre a renda gerada pelos municípios brasileiros, declarou Sheila Zani. “Em 2009, quem pensava em produzir para o mercado externo perdeu participação. Quem ganhou participação foram os municípios voltados para o mercado interno.” Ela lembrou que em decorrência das medidas adotadas pelo governo brasileiro para combater a crise financeira internacional, “aumentaram o crédito, o emprego e a massa salarial”. A consequência foi o aumento do consumo doméstico. “O mercado interno não ficou tão abalado pela crise externa”, acrescentou Sheila.

A pesquisa mostra ainda que em 2009 a economia dos municípios comportou-se de forma diversificada. “O que norteou as alterações na geração de renda de cada município foi, principalmente, o preço das commodities minerais e agrícolas no país inteiro.”

Quando o preço do barril de petróleo em 2009 estava baixo, os municípios produtores perderam participação. “Esses municípios geraram menos participação do que no ano de 2008”. Já os municípios ligados à commodity mineral de outra forma que não a produção direta, como a atividade do refino, tiveram ganho.

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