Roteiristas em tempos de pandemia

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Como vivem, em tempos de pandemia, os roteiristas de cinema e televisão? Quantos já tiram inspiração desse verdadeiro horror planetário que estamos todos vivendo? A produtora Nora Goulart, mulher de Jorge Furtado, comenta a rotina do casal dentro do que chama de “nova normalidade” – eles residem em Porto Alegre. “Como todo mundo que pode, estamos trabalhando de casa, observando a quarentena recomendada pela OMS e pelas autoridades de saúde”. E Furtado – “Levanto às 6h30, às 8h estou lendo o jornal e depois já começo a trabalhar. Faz parte dessa nova rotina lavar a alface da salada de todo dia”. Criador da série Sob Pressão, ele constata: “A quinta temporada nem foi feita e já está no ar, ao vivo, 24 horas por dia”.

Nas últimas semanas, o brasileiro aprendeu a conviver com as informações de médicos, hospitais, autoridades. Agentes de saúde estressados, lutando para salvar vidas, eles próprios infectados, devido às condições precárias do sistemas, que não consegue oferecer as necessárias condições de segurança. “Tenho parentes, sobrinhos, que são médicos e dizem que nunca viveram nada parecido com isso”, conta.

Com uma filha vivendo em Portugal, ele tem um motivo suplementar para seguir o noticiário europeu. “Sou otimista por natureza. Estou vivendo esse momento como todo mundo, com angústia. Tem horas que quero saber de tudo e outras em que preciso me alhear, não quero saber de nada.” Antecipa: “A Globo deve lançar agora em abril a minissérie Todas as Mulheres do Mundo, com Emílio Dantas, que estava prevista para o segundo semestre. Faz todo sentido. É comédia, é romântica, mas se interroga sobre os afetos e o que é importante na vida. Será um alívio no meio dessa tragédia toda, mas também pode fazer pensar.”

Justamente, pensar. Furtado interroga-se sobre qual será o resultado de tudo isso. O otimista está num momento de pessimismo. “Ainda nem chegamos ao pico da pandemia no Brasil. Estamos todos preocupados com a economia, com o depois, mas agora é o momento de salvar vidas.”

Reflete: “Haverá, quem sabe, um movimento para que a gente esqueça tudo isso, como um pesadelo, mas não dá para esquecer. É preciso usar as armas da gente para refletir.” A arma dele é a criação. TV, cinema e teatro. “Estou louco para que tudo isso passe para começar a ensaiar uma peça que escrevi, e quero dirigir. Virgínia e Adelaide, sobre duas pioneiras da psicanálise no Brasil (Virgínia Leone Bicudo e Adelaide Koch). Taís (Araújo) e Drica (Moraes) ficaram empolgadas, mas agora vai depender da agenda das duas.”

Furtado não espera parado. Escreve um roteiro de comédia. Aproveita para refletir. No caso específico de Sob Pressão – “Depois de tudo isso que estamos vivendo, o que a ficção poderá oferecer?” O repórter não pode deixar de pensar no futuro distópico dos filmes. A realidade que vira terror, Walking Dead.

Como outros grandes roteiristas – o caso dele é especial por ser também consagrado como diretor –, Furtado não é muito chegado à ficção distópica. “Quando procuro alguma série para ver e a sinopse fala num futuro não muito distante, já desanimo.” Nora e ele tentaram ver a série sobre Catarina, a Grande, da Rússia, com Helen Mirren, mas se desapontaram. “É muito fraca” – a série, não a atriz. Prefere a literatura. Agora mesmo, está lendo um clássico, e das pandemias. Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, é um dos livros mais populares já escritos, embora a maioria talvez o conheça das versões adaptadas para crianças e adolescentes, e dos numerosos filmes que se fizeram a partir do livro. Até Luis Buñuel fez o seu Robinson Crusoe – em 1953, com Dan O’Herlihy. Anos depois, e já famoso por seu relato sobre o náufrago, Defoe escreveu Um Diário do Ano da Peste, que sempre foi tido em alta conta por autores da estatura de Gabriel García Márquez.
Mesmo com medo de ser contaminado, o narrador percorre as vielas de Londres, recolhendo histórias sobre a Grande Peste que, em 1665/66, vitimou entre 75 mil e 100 mil habitantes, ou seja, pelo menos um quinto da população da cidade. “O livro é impressionante. Enxuto, sem floreios.”





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