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Quadrantes
Rouxinol
Publicado: 00:00:00 - 17/04/2022 Atualizado: 14:32:57 - 16/04/2022
Dácio Galvão
[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal ]

Quem tem mais de meio século de trabalho com o exercício da escrita... e dela fazendo textos... e deles fazendo cantos... não é qualquer um capaz dessas articulações. Fazer e acontecer mundialmente! Nada fácil. 

Sousândrade (1833 - 1902) poeta maranhense escreveu a saga do índio. Do Guesa Errante.  Indígena ancestral anti-herói antítese do "bom selvagem". Ele denuncia o drama dos povos indígenas e a exploração deles por povos europeus. Em dado momento na narrativa da primeira epopeia latino-americana, Souzândrade se expressa: "Gil-engendra em gil-rouxinol". Estrofe 72 do Canto X, o episódio do "Inferno de Wall Street". Berço do capitalismo.

Nessa batida de antiverso o poeta-compositor e irmão de vida - Caetano Veloso - fez ressoar em vocoperformance o dom da criação de Gilberto Gil. Sim. Dos versos souzandradinos fez o mote e construiu experimentalmente em 1972, uma composição para referenciar o poeta negro. De qual maneira Gilberto Gil dá existência original a si próprio?  A sua inventividade na metalinguagem? Processos que geram e se multiplicam em formas de criações artísticas. Estamos falando para acima do óbvio. Do cantor das massas (ins)pirado por Luiz Gonzaga, João Gilberto, Jimi Hendrix...

Recentemente assistimos a posse de Gil na Academia Brasileira de Letras. Passando a ocupar a cadeira de nº 20, do jornalista e advogado potiguar Murilo Melo Filho, falecido em maio de 2020. Farol incandescente. Lá já estavam Cacá Diegues, Geraldinho Carneiro, Antonio Cícero, Fernanda Montenegro. Quarteto originário de trincheira comum: movimentos de resistências culturais de meados do século passado. Sem sucumbir. Jogando o jogo de protocolos, formalidades. Simbologias.

Emocionante ver alguém que aprendeu a ler-ouvir Monteiro Lobato no interior da Bahia, ambiente materno com a avó oralizando leituras. Que vivenciou influxos através do Tropicalismo, dos poetas beatniks - William Burroughs, Jack Kerouac, Allen Ginsberg – e dos pensadores alemães Wilhelm Reich, Theodor Adorno, Herbert Marcuse influenciadores da juventude dos anos de 1960. Incluindo o filósofo Marshal McLuhan que cunhou a “aldeia global”. 

De malas para o exílio Gil arrancava chancelas de Augusto de Campos e de Jorge Amado. E lá se reencontrava com Torquato Neto, Hélio Oiticica, Jards Macalé, Jorge Mautner, José Roberto Aguilar, Augusto Boal.. Na passagem marcante por Londres e Nova York travou relações com Miles Davis, George Harrison, Mike Jagger, Andy Warhol....

Escritores da calibragem de João Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Camões, Fernando Pessoa... e cientistas da dimensão de ruptura dos físicos Mário Schenberg e César Lattes conviveram e continuam habitando as fronteiras do pensar holístico de Gil. 

Homem simples. Generalista. Jamais do refletir simplificado.   Foi assim que se constitui no mundo cultural. No seu discurso pacifista na ONU como Ministro da Cultura do Brasil diante do secretário-geral, Kofi Annan, arrematou metaforizando o poeta irlandês William Butler Yeats: ‘Você não pode separar o dançarino da dança’. E acresceu trazendo Ezra Pound: ‘A usura é um câncer no azul’. O contexto na assembleia geral da ONU era sobre a paz. E firmava: O Brasil é todo pela Paz!

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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