Sífilis: a doença 'mais velha' do mundo volta a assustar

Publicação: 2018-05-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Vista por muito tempo como uma doença “sob controle”, a sífilis tinha adquirido um status quase folclórico, até que os números dos últimos dois anos fizeram as autoridades ligarem o alerta vermelho: são 12 milhões de novos casos de sífilis no mundo, e 937 mil no Brasil a cada ano, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Em outubro de 2016, o Ministério da Saúde reconheceu que a situação estava fugindo do controle e decretou a epidemia. Ações oficiais de combate  passaram a ser tomadas desde o ano passado, e no Rio Grande do Norte elas virão com força a partir de maio. Prevenir e informar são o melhor remédio.

Sífilis é uma infecção bacteriana fácil de ser tratada, com exame e tratamento garantidos pelo SUS. Após o contato de risco, o paciente deve fazer o exame VDRL que é simples e rápido
Sífilis é uma infecção bacteriana fácil de ser tratada, com exame e tratamento garantidos pelo SUS. Após o contato de risco, o paciente deve fazer o exame VDRL que é simples e rápido

Natal e Parnamirim foram os primeiros municípios potiguares escolhidos para receberem as ações do projeto “Resposta Rápida à Sífilis nas Redes de Atenção”, uma ação do Ministério da Saúde com o objetivo de controlar a situação epidêmica. A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) criou um grupo de trabalho para elaborar um plano de enfrentamento contra a sífilis, começando pelas duas cidades prioritárias.

A decisão partiu de reunião realizada com a participação de diversos órgãos que lidam com as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). A primeira reunião do grupo de trabalho está programada para 10 de maio.

O trabalho será coordenado pela UFRN através do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), cujo grupo conta com a participação de vários pesquisadores, professores e servidores do estado, representando 16 áreas técnicas envolvidas. A partir da saída em campo entre Natal e Parnamirim, o grupo vai analisar a situação da sífilis no Estado, ouvir as populações mais evidentes sobre o avanço do problema e elaborar um plano de enfrentamento para todo o RN, baseado nos eixos propostos pela pesquisa. A operação terá 200 milhões de reais de aporte financeiro para os 100 municípios envolvidos em todo o país.

“Para conseguir o controle dessa epidemia é preciso organização, e não é tão difícil quanto parece. Com a colaboração de todas as secretarias de saúde do país é possível estabelecer ações de vigilância epidemiológica e diagnóstico precoce. Por isso o tema desse projeto é 'teste, trate, cure'. É isso que precisamos”, afirma a infectologista e professora Marise Reis, entusiasta do projeto. 

Infectologista Marise Reis está ligada ao programa de enfrentamento e controle da doença, cujo lema é ‘teste, trate e cure’
Infectologista Marise Reis está ligada ao programa de enfrentamento e controle da doença, cujo lema é ‘teste, trate e cure’

Os quatro eixos do projeto são os seguintes:  vigilância, com a ampliação de comitês para investigação da transmissão vertical (da mãe para o bebê) e o fortalecimento das 'salas de situação' para o monitoramento da situação epidemiológica; gestão e governança, com o fortalecimento de ações intersetoriais no território; cuidado integral, com a implementação de linhas de cuidado para a sífilis e intervenção em populações-chave; e, 'educomunicação', que visa a realização de campanhas educativas e o desenvolvimento de estudos e pesquisas voltados para o enfrentamento e monitoramento da doença.

Relaxamento de risco
A sífilis é uma infecção bacteriana fácil de ser tratada, com exame e tratamento garantidos pelo SUS. Mesmo assim, o aumento de casos no Brasil – e no mundo – reflete a convergência de múltiplos fatores, segundo Marise. “Poderia começar falando de uma questão comportamental, reflexo de uma sociedade mais libertária quando o assunto é sexo. A questão sexual é falada hoje de forma mais precoce, aberta, e diversa. Isso tudo é ótimo, mas não justifica o esquecimento do uso da camisinha nas relações. As pessoas voltaram a ficar mais negligentes em relação às medidas de prevenção”, diz.

Outro motivo que facilita a disseminação do contágio diz respeito à variação de estágios típicos da sífilis. A infecção pode ficar sem apresentar sintomas durante meses (até anos), e as pessoas infectadas seguem transmitindo a doença sem saber. A “falta” de sintomas e o desconhecimento  de população sobre a existência dos exames leva ao diagnóstico tardio.

“O ideal é que pelo menos três semanas após um contato sexual de risco – desprotegido e com alguém desconhecido – a pessoa procure fazer o teste. O exame VDRL é simples e rápido, dá o resultado em 15 minutos”, diz. Entre 2014 e 2015 houve uma falta nacional no mercado de Penicilina Benzatina, o antibiótico oficial de tratamento à sífilis, o que também favoreceu o aumento de casos. “A Penicilina é da década de 40, e até hoje não há outro remédio tão eficaz contra a sífilis. Há outros antimicrobianos, mas eles são mais caros e têm efeitos colaterais que tornam o uso mais difícil”, diz a infectologista.

 As falhas na assistência à gestante também contribuem para a epidemia. A sífilis congênita, transmitida da mãe para o bebê durante a gestação ou no momento do parto, corresponde a 2,6% dos casos (50 mil gestantes). Se uma gestante está infectada, em qualquer fase da doença, a criança pode nascer com sífilis congênita. Cerca de 59% das crianças nascidas de mães com sífilis também apresentaram sinais da bactéria.

A condição pode ocasionar ao bebê más formações neurológicas e ósseas, além da morte, se a doença não for tratada adequadamente. A realização correta dos exames de pré-natal  poderiam solucionar isso. Marise Reis ressalta que as mulheres costumam ser o público-alvo preferencial das políticas governamentais de prevenção, diagnóstico e tratamento, apesar de a maioria dos contaminados ainda ser do sexo masculino: 60,1% entre homens, e 39,9% para mulheres. Entre eles, o perfil é jovem, dos 18 aos 44 anos de idade. Os sintomas da sífilis variam conforme seu estágio.

Sintomas
Os sintomas da sífilis variam conforme seus estágios e o tempo de exposição ao organismo. O sintoma primário é o aparecimento do chamado “cancro duro”, uma erosão ou úlcera no local de entrada da bactéria (pênis, vagina, ânus, boca), que geralmente é única e indolor. Esse estágio pode durar entre duas a seis semanas. O estágio  'secundário' traz erupções na pele, principalmente na área do tronco. Ocasiona queda de cabelo, febre, mal estar, dor de cabeça. Dura de quatro a 12 semanas.

Já durante a sífilis latente, não se apresenta nenhum sinal ou sintoma clínico da doença. Mas o indivíduo continua a transmitir a doença. Já o estágio 'terciário' da sífilis acontece após o não tratamento da doença, podendo se manifestar após décadas de incubação. É a fase mais destrutiva, acometendo o sistema nervoso central, causando problemas neurológicos, cardiovasculares, e até complicações ósseas.


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