Síndrome da fadiga crônica

Publicação: 2017-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Jorge Boucinhas
Médico e professor da UFRN

Ultimamente se a está vendo com frequência (segundo alguns estudiosos aumenta a cada dia!).  Deixa muitos com tremenda dificuldade para cumprir suas obrigações quotidianas, mesmo as mais comezinhas.  Quem é ela, que, se não apresenta riscos à vida nem traz transtornos sérios, por vezes, quase incapacita para o trabalho e a vida social?  Trata-se da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), caracterizada por uma sensação de cansaço persistente e não explicável por causas conhecidas.  Casos assemelhados foram descritos no século XIX, porém esta doença só recebeu maior atenção a partir do fim do XX, quando foi declarada distinta do quadro psiquiátrico denominado Neurastenia e se aventou a possibilidade de ter por causa vírus ou outros microorganismos.  Na ausência do encontro de agente infeccioso passou-se a pensar ser problema de ordem psiquiátrica.  Alguns pesquisadores até têm-se indagado se realmente existe como entidade passível de qualificação como verdadeira enfermidade.  

Em 1994 um consenso foi definido pelo Centro Norte-Americano de Prevenção e Controle de Doenças, e hoje tende-se a enquadrar sob a designação os casos em que são encontrados: sensação de fadiga persistente durando pelo menos meio ano, não causada por doenças crônicas orgânicas ou psíquicas conhecidas, por esforços contínuos nem por uso de tóxicos, não diminuindo com o repouso e resultando em importante redução das atividades ocupacionais, educacionais e sociais.  Podem acrescer-se: prejuízo de memória ou concentração, dor de garganta, nódulos cervicais ou axilares, dor muscular, dor em diversas articulações, dor de cabeça, sono não recuperador e mal-estar após exercícios.  Cuidados devem ser tomados para descartar casos de Esquizofrenia, Demências de base orgânica, Transtorno Bipolar e Depressão Maior.

A enfermidade é identificada clinicamente e por exclusão de doenças precipitantes, não existindo exames laboratoriais específicos.  Sua prevalência, baseada em estudos realizados nos EUA, varia de 0,2 a 0,5% da população geral, com índices mais altos em mulheres (três quartos dos casos, a maioria na faixa de 29 a 35 anos), pessoas com pouca escolaridade e reduzida qualificação profissional, e grupos minoritários.  Uma recente revisão de casos demonstrou que é rara a recuperação sem tratamento, não sendo regra a remissão espontânea do quadro.    

Varias hipóteses foram aventadas acerca da sua etiologia, tanto olhando o lado físico quanto o psíquico.  Foram sugeridos distúrbios neuroendócrinos, disfunções imunológicas, disfunções do Sistema Nervoso Central, infecções virais, padrões alterados de sono, anormalidades hereditárias da estrutura do músculo com redução da capacidade de esforço, distúrbios de personalidade.  Prefere-se, hodiernamente, considerar que suas causas sejam múltiplas.  Há relativo consenso sobre os fatores predisponentes, sendo apontados antecedentes neuróticos e inatividade forçada prolongada na infância.  Também são reconhecidos alguns fatores desencadeantes, quais stress (físico e/ou psicológico) e infecção (resfriados, gripes e mononucleose). 

Uma vez que a Síndrome esteja instalada, fatores psicológicos e fatores sociais podem contribuir para sua perpetuação, podendo-se encontrar de comportamento ansioso a solidão indesejada.

Os tratamentos mais úteis têm sido os baseados na Psicoterapia, associada esta ao suporte dado pelo reequilíbrio das condições metabólicas.  Dentre as formas empregadas, a Terapia Comportamental Cognitiva e a Terapia com Exercício Gradual foram as de mais sucesso, enquanto, do lado físico, estimulantes leves (naturais ou sintéticos), reposição de depleções protéico-vitamínico-minerais e uso de medicamentos homeopáticos e tranquilizantes mui leves revelaram-se de utilidade no apoio ao tratamento psicológico, enquanto esteróides anabólicos, corticóides, imunoglobulinas, tranqüilizantes pesados, antidepressivos e antipsicóticos não mostraram benefícios.  A capacidade física dos ex-enfermos deve ser acompanhada por anos após a melhora.   

Muita coisa ainda resta a descobrir mas, pelo menos, sabe-se já que não mais se deve pura e simplesmente taxar de preguiçosos muitos  dos que queixam-se de nada ter disposição para fazer e preferem deixar-se ficar todo o dia, lassos, numa cama (por que não, melhor ainda, numa gostosa rede?).


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