Sônia Braga se despede do Seridó: ''Não abandonem aquela região''

Publicação: 2018-05-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Em Parelhas não existe cinema. Existiam três, mas não há mais. Diversão, só na praça. A realidade é a mesma na maioria dos municípios do Rio Grande do Norte, onde investimentos públicos na cultura são escassos. Mas constatar essa situação, sobretudo quando se é uma figura do cinema, toca a alma. Foi assim que se sentiu a renomada atriz Sônia Braga, ao retornar a sua rotina habitual após meses de filmagem em Parelhas, por ocasião da produção de “Bacurau”, mais novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho, feito em parceria com Juliano Dorneles. Em suas redes sociais, a atriz publicou um texto em que tanto agradece a comunidade pela acolhida, como cobra mais atenção das autoridades.

Sônia Braga escreve sobre as dualidades na região: As pessoas ficam felizes com a chuva que põe fim a seca, mas deixa as estradas castigadas que impedem o ônibus escolar de levar os alunos
Sônia Braga escreve sobre as dualidades na região: As pessoas ficam felizes com a chuva que põe fim a seca, mas deixa as estradas castigadas que impedem o ônibus escolar de levar os alunos

“Acabo de chegar do sertão do Seridó”, inicia o texto. “Vou ter muitas saudades de Povoado Barra, onde filmamos, e também da equipe do hotel que foram nossos amigos todo esse tempo; das pessoas da cidade de Parelhas, que estavam felizes com a chuva depois de oito anos de seca”, diz Sônia. Embora feliz com a chuva, a atriz lembrou a situação das estradas.

“As estradas pioravam e, em vez de vans, toda equipe teve que ir em Toyotas, carros mais valentes”. Mais a frente ela comenta que o problema não afetou somente a vida da equipe de filmagem, mas da comunidade como um todo. “Espero que chova muito no ano que vem e que as estradas melhorem para aqueles que ali passam todos os dias. Como o ônibus escolar que leva uma hora ou mais para conduzir as crianças do povoado de Barra até Parelhas, mas quando chove isso se torna impossível. Mesmo assim, com toda essa dificuldade, ficarei com saudades dessa estrada tão linda, todos os dias por ali passava. As casinhas, as vacas deitadas, muitos pássaros, carcarás”.

A atriz fala que durante o tempo em que esteve em Parelhas não conseguiu se distanciar dos problemas brasileiros e se mostrou preocupada com o fato do povoado de Barras, em Parelhas, não dispor de alguns serviços essenciais.

“Povoado Barra, onde filmamos, não tem Posto de Saúde, Correios, Escola. Quando fui me despedir, algumas pessoas me disseram que estão esquecidas do mundo”, escreve Sônia, para logo mais cobrar o poder público. “Acho que não estaria certo sair desse lugar sem pedir as autoridades que não abandonem o Povoado Barra, o Quilombola Boa Vista e toda a região. É importante que nós que lá estivemos e pudemos constatar a gentileza desse povo, também retribuir a hospedagem e carinho pedindo ao poder público que com urgência visite a região e tome as medidas necessárias, para dar a essas pessoas melhores condições de vida. Que as crianças possam ter o seu futuro e estudo garantidos sem ter que enfrentar uma estrada perigosa, uma hora todos os dias. A urgência de um Posto de Saúde, que pode ser vital”.

A atriz ainda falou da utilização de figurantes locais e do seu contato com alguns moradores. “Acabei fazendo amizades com muitos, e os visitando nos dias de folga. Ou quando não filmava. Neste filme a minha participação é pequena. Tive bastante tempo para apreciar e às vezes fotografar o céu mais lindo do mundo. Fotografei algumas pessoas também, mas ainda sou muito tímida com a minha câmera”, diz, desejando também poder retornar a comunidade sem ser a trabalho, para “subir a serra, tirar fotos, ter mais tempo de conversar com as pessoas”.

Por fim, ela reflete sobre a falta de cinema na cidade que viveu o sonho de ser cenário de um filme nacional. “E por falar em fazer cinema, por lá também não existe um. Nem em Parelhas, que é a cidade maior em que ficamos. Existiam 3, mas agora a diversão é só na praça. Seria tão bom que em lugares onde filmamos pudéssemos deixar um cinema para que as pessoas pudessem ver os filmes dos quais participaram”.


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